Tenho tendência à autoflagelação, diz Emmanuel Carrère – 18/09/2026 – Ilustrada
Tão sexy quanto vincado, o rosto do premiado jornalista, jornalista e roteirista gaulês Emmanuel Carrère finalmente surge na tela do Zoom. Eu não sabia se ele tinha visto o email com o horário da entrevista. Carrère vagar muitos dias para responder mensagens, o que achei plausível para um responsável do seu tamanho.
Está nos meus planos conversar sobre alguns dos seus lançamentos recentes no Brasil porquê “Colcoz” e “Ioga”, que saiu em 2023, mas seus leitores gostaram tanto —até pelo barraco com a ex-mulher— que vai demorar para trespassar de voga. A obra de Carrère sai pela editora Companhia das Letras, e ele vem ao país na próxima semana para eventos que celebram os 40 anos da editora.
Antes de principiar, preciso saber se ele acreditou mesmo que provocaria uma comoção masturbatória em um trem, porquê conta no livro “Um Romance Russo”. Carrère de veste achou que leitoras ficariam enlouquecidas pelo seu história erótico publicado em uma revista e correriam para banheiros públicos em procura do autoprazer?
O livro já tem mais de 20 anos. De lá para cá, ele retomou a amizade com a portanto namorada exposta na obra e obteve o perdão da própria mãe, que precisou mourejar com os segredos familiares revelados pelo fruto antes da morte dela.
Sua preocupação pela verdade não está exclusivamente na escrita. Ele assume a fantasia controladora e machista do livro e ri, lamentando a imaturidade daquele momento (tinha a minha idade na quadra).
“Talvez eu acreditasse mesmo. O que mostra que era uma fantasia muito grande, um sonho de controle totalidade, e isso é um paradoxal. E, quando você tenta controlar as coisas assim, geralmente é o prelúdio de uma guia global —que foi o que aconteceu, em grandes proporções.”
Em uma obra de não ficção, recontar a história porquê ela de veste aconteceu, incluindo casos de vaidade egocêntrica e megalomania sexista, é o que faz uma literatura ser de veste literatura e não mais um livro bonzinho com pavor de cancelamento, correto? Pergunto a ele se é uma escolha difícil.
“Em ‘Um Romance Russo’ eu apareço sob uma luz terrível. Tudo muito, posso fazer isso comigo, quem se importa? Mas com a minha namorada, não! Eu a tratei muito mal nesse livro… Nós conversamos sobre isso depois. Hoje temos uma boa relação. Acho que houve um pouco bastante repugnante: eu a tratei porquê se fosse uma personagem de romance, e não um ser humano real. E acho que essa é a única vez, em toda a minha obra, que fiz alguma coisa da qual, sinceramente, me arrependo.”
Quanto a “Ioga”, nem deu tempo de se arrepender de expor a ex-mulher: foi obrigado pela Justiça a tirar tudo sobre ela do livro. Mas Carrère assegura que não foi um jurista que o obrigou a zero. Disse que mostrou antes o livro para a ex-parceira e, em suas palavras, “ela disse que não queria viver no livro”. Ele respeitou, apesar de saber que eram exclusivamente relatos delicados, “cheios de uma tristeza amorosa”.
Pergunto se a pane psiquiátrica que o levou a desvendar uma bipolaridade tipo 2 e a uma internação de quatro meses teve porquê gatilho esse divórcio ou, para um obstinado em ortografar com honestidade, se o surto decorreu da castração de sua obra.
Ele se nega a responder, diz que “é preciso respeitar silêncio totalidade sobre o ponto” e que o livro foi quem mais sofreu com o buraco que restou ali. Por outro lado, isso o ajudou a pensar que a obra se organiza justamente em torno da falta, daquilo que não pode ser exposto. “Para mim funciona de um jeito um pouco estranho, mas funciona. E, na verdade, não tenho escolha a não ser considerá-lo dessa maneira.”
Carrère garante não se irritar quando a pergunta é mais sobre a sua vida do que sobre o narrador das suas obras. Ele sabe que se pôs nessa situação e que não pode reclamar que os leitores e os jornalistas, de um modo universal, demonstrem interesse por sua vida.
Já com críticos que torcem o nariz e o chamam de narcisista e autocentrado, ele diz se incomodar menos ainda. “Em toda escrita autobiográfica há duas tendências. Uma é a autoglorificação: [François-René de] Chateaubriand, por exemplo, é um jornalista imenso, mas está sempre construindo a própria estátua. E existe, na outra ponta, uma tendência à autoflagelação. Talvez eu esteja mais desse lado.”
Digo que autores que estão dispostos a expor suas mazelas, porquê ele faz, me soam mais porquê ratos de laboratório de si mesmos do que ególatras, e que a leitura das suas obsessões ensimesmadas deve parecer mais generosa, pela exposição do ridículo do ser humano, do que pedante.
Seu rosto inteiro se ilumina, e sinto que nesse momento ganhei o entrevistado. “Além do mais, há situações que são engraçadas. Podem ser extremamente desagradáveis, extremamente dolorosas, mas também são engraçadas”, ele complementa.
“Relatos íntimos, entremeados à história da Rússia, costurados com genealogia familiar… Esse gênero tão misto que vem se tornando o seu gênero literário é o horizonte?”, pergunto.
Ele bufa, franze a testa —eu tinha ganhado o responsável para perdê-lo na pergunta seguinte. Conta que não vê premência alguma de qualificar seus livros e parece não suportar mais essa pergunta.
“Há mais de 25 anos não coloco sob o título de um livro um pouco porquê ‘romance’ ou ‘memórias’. Logo não há razão para principiar agora. Talvez a mistura seja o horizonte, talvez não, não faço teoria. Ao mesmo tempo, o gênero romance nunca será uma coisa do pretérito. Vai sempre continuar vivo. Eu leio romances, eu adoro romances. Mas se você escreve não ficção, porquê eu faço, existe uma espécie de contrato implícito ou explícito com o leitor: você conta a verdade. E eu história.”
Pontuo que, em “Ioga”, ele não contou toda a verdade.
“Há exceções, momentos em que é preciso expor ‘isso eu não posso recontar’ ou ‘isso eu não consigo imaginar’, e está tudo muito. Mas é preciso expor isso ao leitor. Prefiro que o leitor tenha uma teoria precisa do regimento daquilo que estou contando a ele ou a ela.”
Foi no rútilo “O Opoente”, sobre a vida de Jean-Claude Romand, um impostor que assassinou a família inteira para evitar ser desmascarado, que Carrère começou a ortografar em primeira pessoa. O livro foi publicado na França em 2000, mas ganhou uma novidade edição neste ano.
Sempre me pareceu maluquice que, justo na hora de falar sobre um psicopata, o responsável assumisse a primeira pessoa. Pergunto por que ele precisou expor “eu” precisamente na hora de narrar sobre um exterminador de memória familiar.
Carrère diz que ortografar em terceira pessoa traz uma suposição de impessoalidade, de objetividade. Numa história porquê a de Romand, ele não poderia expor que está contando toda a verdade, mas só a porção que ele enxerga, aquilo que percebeu e entendeu do personagem e da história.
“Esse ‘eu’ às vezes é criticado porquê muito narcisista —e certamente é—, mas também denota humildade. Significa: ‘Muito, sou exclusivamente eu! Não sou Flaubert ou Truman Capote, contando a história do sobranceiro, sabendo a verdade sobre tudo’. Desde que comecei a ortografar em primeira pessoa, nunca consegui voltar a outra coisa. Também não tentei. Isso se tornou um pouco absolutamente evidente, específico daquilo que busco fazer.”
Durante a leitura de “O Opoente”, fiquei com a sensação de que Carrère pode ser mais impiedoso consigo mesmo e com sua família do que foi com Romand. O responsável discorda a princípio, para concluir, depois de alguns segundos de silêncio, que foi preciso cuidar mais de Romand do que era preciso cuidar de si próprio.
“Jean-Claude Romand estava na pior situação verosímil para um ser humano. Eu não era juiz nem zero disso. Se falo dele, se escrevi sobre ele, existe uma espécie de obrigação moral de condolência, ainda que não seja fácil”, aponta ele.
“Eu apareci de repente, por vontade própria. É muito dissemelhante de ser jurista, juiz ou psiquiatra, investido de uma missão pela sociedade. Se você é jornalista, decide sozinho fazer isso. Logo precisa de veste cuidar da pessoa, justamente porque ser alguém que fez coisas tão horríveis. Posso ser menos generoso comigo mesmo porque estou numa situação melhor.”
Eu me pergunto por que alguns leitores e críticos insistem que toda essa “literatura do eu” é uma novidade, resultado dos egocêntricos tempos da internet, se autores porquê Montaigne já escreviam sobre si mesmos no século 16.
Carrère compra a disputa na hora. “Montaigne é o maior exemplo de jornalista que escreve um pouco totalmente universal falando exclusivamente de si mesmo, daquilo que sente, daquilo que pensa, mas com plena consciência de que aquilo que pensa é relativo. Montaigne é o melhor jornalista para a saúde mental. Ele ajuda você. Ler Montaigne é, de manifesto modo, porquê ler um grande livro de autoajuda, porque todos os livros de autoajuda dizem, sabiamente, que você deve se concordar. E Montaigne é o rei disso.”
“Colcoz”, sua obra mais recente, tenta dar conta de um século inteiro de seus ascendentes, com a imigração russa, duas guerras mundiais, o comunismo, a guerra na Ucrânia, a trajetória intelectual de sua mãe, um pai exageradamente fanático ao enlace e o afeto incondicional do responsável pelo tio progressista –um varão obcecado pela verdade, o que remete à núcleo dos livros de Carrère.
É mais uma obra magnífica do jornalista. No entanto, as primeiras páginas do livro podem ser tortuosas. Precisamos mourejar com histórias de quatro gerações e inúmeros personagens com complexidades e reviravoltas que dariam ótimos romances individuais.
É tanto nome para decorar que periga você deixar o livro para mais tarde. De repente, depois de umas 70 páginas, a mágica acontece. A saga familiar se torna interessante, enxurrada de finalidade e fundamento.
Perguntei se tamanha provação era deliberada. Carrère ri e diz que confia em seus leitores: “Esse livro é um pouco porquê fazer um trekking na serra. No primícias, é preciso se esforçar, mas depois você fica feliz por ter feito, percebe que valeu muito a pena.”
A obra começa no funeral de sua mãe, Hélène Carrère d’Encausse (nascida Zourabichvili), uma ilustre intelectual francesa, especializada em história russa. Em 2023, o presidente Emmanuel Macron —um varão que, nas palavras de Carrère, “nunca sente nem insensível nem calor”— fez um exposição “competente” ao lembrar que entre os ancestrais de Hélène “havia príncipes russos e barões bálticos”, que perderam tudo na êxodo russa.
A tentativa de ortografar um livro em homenagem a sua mãe sai novamente daquele jeito caótico e delicioso. Em “Colcoz”, o jornalista segue debatendo e discordando da mãe (porquê fez, de certa forma, em “Um Romance Russo”). É a maneira mais honesta de se importar verdadeiramente com alguém. Essa percepção parece agradá-lo bastante.
“Espero que você tenha razão. Além do mais, trata-se de um retrato; portanto, existem zonas de luz e zonas de sombra. Eu não deveria nem poderia retratar minha mãe porquê uma santa, porque ela não era. Mas era uma figura bastante impressionante. E o livro também foi escrito sob a perspectiva da morte dela, que teve uma enorme grandeza”, diz ele.
“Minha mãe esteve sob a luz a vida inteira, ela procurava a luz. Meu pai estava à sombra dela, e narro um processo em que ele sai da sombra. O término do livro é sobre ele entrando em alguma luz. E o que foi realmente mais importante para mim no processo foi que o lugar do meu pai no livro cresceu cada vez mais.”
Pergunto se Carrère, em sua íntima saga amorosa, já sentiu alguma vez certa inveja desse paixão devotado que o pai tinha pela mãe, se já desejou se sentir assim tão entregue, ou se o pai lhe causava mais pena e condolência. Ele chacoalha a cabeça porquê se pudesse espantar por completo a teoria.
“Com certeza mais condolência do que inveja. Inveja nenhuma, nunca, meu pai teve uma vida muito difícil. Porém, acho que ele não a teria trocado por outra vida. Minha mãe não era exclusivamente o paixão dele, era o rumo dele. De certa forma, isso fez com que a vida dele não fosse exclusivamente uma vida, mas um rumo, o que não acontece na vida de todo mundo.”
Ainda em “Colcoz”, Carrère conta que, até a véspera da invasão russa da Ucrânia, sua mãe continuava dizendo que Putin era “um varão brutal, mas racional, zeloso de seus próprios interesses, e que nunca, absolutamente nunca, faria uma tão louca” quanto invadir a Ucrânia.
Pergunto porquê foi verosímil que uma das maiores especialistas na Rússia não tivesse percebido a guerra se aproximando. “Muito, ela não foi a única”, responde. “Ela acreditava que Putin era um jogador implacável, mas que jogava segundo as regras da Realpolitik. E invadir a Ucrânia não se justifica em termos de Realpolitik, pelo estabilidade entre perdas e ganhos. Certamente as motivações são muito mais ideológicas.”
Os leitores de “Um Romance Russo” notarão que, 20 anos depois, a maneira porquê Emmanuel Carrère trata a história de seu avô paterno Georges Zourabichvili —colaborador da ocupação nazista na França, o tal sigilo familiar que ao vir à tona arrasou a mãe do responsável— ganhou tons mais brandos em “Colcoz”.
Parece fazer um treino maior para compreender os motivos de um varão que, porquê ele, sofria de transtorno bipolar e estava sempre “cá e ali, dividido, em lugar nenhum”: “Era um sujeito que trabalhava porquê tradutor para os alemães no comando em Bordeaux. Não estou dizendo que isso é plausível, mas não é porquê se ele tivesse sido um Klaus Barbie [chefe da Gestapo em Lyon]. Não penso nele porquê um varão horroroso, mas porquê alguém bastante infeliz e azarado, que teve uma vida terrível.”
O responsável diz que os talentos de seu avô foram desperdiçados. “Logo eu sentia, na verdade, pena dele. E o veste é que reconheci alguns traços, alguns padrões de caráter que também tenho. Mas tive mais sorte. E desenvolvi um talento criativo que ele infelizmente não tinha, e isso é um pouco que permite dar forma ao que faz você suportar. Portanto, não é que faço uma resguardo ou uma resgate dele no novo livro. É exclusivamente que, ao perceber a influência que esse varão e seu rumo patético tiveram na vida da minha mãe, na nossa família, era necessário falar dele mais uma vez.”
Carrère acredita que, com “Colcoz”, encerrou também sua preocupação pelo tema da Rússia. “Esse livro resume tudo o que a Rússia foi para mim, para a minha família. Não era exclusivamente a origem, mas uma espécie de negócio de família. E agora é porquê se o negócio tivesse ido à falência.”
O gaulês já tentou ser salvo por tai chi chuan, reflexão, ioga, medicação, eletroconvulsoterapia e pelo cristianismo. Mas, no término, o que o salva é mesmo ortografar.
A escrita dá forma a sua vida, o protege de tudo, até quando é preciso transpor provações muito reais, porquê um colapso seriíssimo em que desejou verdadeiramente morrer. “Não importa o que aconteça, eu penso que talvez possa ortografar sobre aquilo, e isso me dá uma espécie de, se não sentido, forma.”
Depois de passar tanto tempo num divã, um dos desejos do responsável era conseguir evoluir –porquê disse Freud sobre um término bem-sucedido de um trajectória analítico, passar da infelicidade neurótica para a infelicidade geral. Pergunto se ele conseguiu. “Espero que sim. Adoro essa teoria. As coisas melhoraram com a idade. Sou mais feliz, eu diria.”
E o Goncourt? Carrère concorreu ao prêmio pela primeira vez em 1988, ou seja, são quase 40 anos à espera. “Obviamente, há alguma coisa entre mim e o Goncourt que não funciona. Na última vez, eu estava na lista, mas não tive nenhum voto. Zero votos. É difícil de entender. Não acho que eu seja o pior jornalista gaulês.”
Ao me despedir, digo que espero, porquê sua leitora, que ele continue “não morrendo” e que, apesar da cultura do cancelamento, nunca perda seu olhar mais crítico, malévolo e agudo.
Por fim, nascente é o verdadeiro estabilidade em um retiro Vipassana: confiar naquilo tudo, tentar de veste acalmar a mente, mas sem nunca perder a capacidade de rir dos abraçadores de árvores e saber que “a verdade está mais em Dostoiévski do que em Dalai Lodo”.
Ele agradece pelo incentivo, diz que “coisas positivas demais são sempre suspeitas” e promete fazer o melhor para continuar vivinho da silva.





