Na véspera de uma grande apresentação na Holanda com a Metropole Orkest, uma importante orquestra sítio, o pianista Vitor Araújo viu seu dedo infectar violentamente, culpa de uma bactéria. Havia risco de amputação, diziam os médicos, enquanto o festival o pressionava para que cancelasse o show.
“Ele ia perder o dedo para tocar”, diz Ayrton Montarroyos, músico e camarada íntimo de Araújo, lembrando a ocasião, em junho de 2024. “A dor era tão lancinante que ele passou a reescrever os arranjos em sua cabeça para conseguir executar o concerto com nove dedos.”
E foi dessa forma que executou as suas próprias composições, num espetáculo descrito pelo músico Arnaldo Antunes porquê “uma alquimia de sonoridades muito peculiar”, lançado porquê álbum e filme, na semana passada.
Com levante que é seu terceiro disco autoral, o recifense de 36 anos dá seguimento a uma curso que tem rodado o mundo. Chegou até o Japão, em 2023, quando apresentou por lá o disco “Lágrimas no Mar”, parceria com Antunes que repassava clássicos da MPB e composições inéditas.
Mas, antes de chegar aos palcos europeus, sua aproximação com essa arte veio de forma muito mais singela, ainda nos pátios do Recife, porquê ele lembra. “Trouxeram uma orquestrinha de frevo para a escola e tocaram ‘O Último Dia’, de Levino Ferreira. Foi a primeira vez que eu me fascinei pela música.”
Aos oito anos, começou a estudar num conservatório depois de o pai observar a habilidade do garoto com um teclado de brinquedo. Veio mais tarde uma rotina de oito horas de piano por dia, ele cabulando aulas do escola para praticar o instrumento, e também de dedicação ao cinema. Quando não estava no conservatório, corria para a frente das telonas —esse repertório estético que se formava ali seria decisivo para as composições que ele viria a fazer um dia.
Ainda jovem, ganhou grande visibilidade, aparecendo nos programas de Jô Soares e Luciano Huck, com o selo de garoto-prodígio. Esse sucesso permitiu que Araújo rodasse o país com o álbum “Toc”, no qual interpretava um repertório que ia de Luiz Gonzaga a Radiohead e que rendeu a ele duetos com nomes porquê João Donato, Naná Vasconcelos e Caetano Veloso.
Mas, receoso com a exploração de sua imagem, Araújo fez de “A/B”, seu primeiro álbum autoral, uma tentativa de se alongar do virtuosismo e da pecha de jovem genial —daí, na capote, a arte de imagens escaneadas sugerir a desintegração de seu rosto.
Se nesse álbum Araújo desfez sua própria identidade sonora, em “Levaguiã Terê” ele a reconstruiu com mais maturidade, em novos termos. O disco nasceu do libido de tocar com seus amigos do morro da Conceição, no Recife, e de misturar as estruturas mais rígidas da música orquestral com a liberdade e a fluidez dos ritmos das músicas de terreiro. Há faixas com até 60 músicos, para as quais Araújo escreveu, nota por nota, cada segmento instrumental.
Ele incorpora ao disco uma lógica temporal de matriz mítica, propondo uma verticalização do tempo, em que pretérito, presente e horizonte coexistem. Inspirado na forma porquê o cineasta David Lynch desafia a cronologia em “Estrada Perdida”, Araújo trava sua própria guerra contra a física. “Eu tento gerar uma prega no tempo, mas a estrutura temporal músico me impede de fazer isso.”
Para gerar essa sensação, o compositor separou o álbum em seis “Cantos” e seis “Toques”, que se espelham entre si. “É um disco que se ‘sampleia’ de maneira orgânica, eu saí espalhando migalhas das músicas pelo disco todo”, diz Araújo.
Ao receber o invitação para se apresentar no Holland Festival, devotado à vanguarda, Araújo decidiu rearranjar e reorganizar aquelas músicas para serem tocadas com a Metropole Orkest, criando um trabalho novo a partir do anterior.
No concerto que virou “Toró”, há uma violência percussiva que ancora a música de um lado e, do outro, uma paisagem sonora de cordas, trazendo um caráter etéreo. “É um trabalho que inverte o virtuosismo, que está com os percussionistas, em vez de estar com os violinos e o piano”, diz Araújo.
Nisso, o filme-concerto, dirigido por Paulo Camacho e Yara Ktaishe, é capaz de mostrar, visualmente, cada elemento dessa música maximalista, que mistura a elegância orquestral, a macumba, a boemia do Recife e a força do frevo escolar que aquele menino um dia amou.
“É uma música que poderia ser distanciada, travestida de erudita e, no entanto, é um amplexo”, diz Montarroyos, seu camarada. “Eu ouço no disco o folião de Carnaval que Vitor é.”





