Ursula Le Guin desdenha de Flaubert e Tolstói em livro – 02/10/2026 – Ilustrada
O responsável russo Liev Tolstói certa vez escreveu que “todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. É uma das frases de exórdio mais celebradas da literatura.
Ursula K. Le Guin, no entanto, acha isso uma pataquada. “Que coisa mais ridícula de se proferir”, afirma. “Que história é essa, Tolstói?”
A fala dá conta da divertida irreverência dessa autora americana, conhecida por seu trabalho na ficção científica. Em entrevistas, Le Guin costumava proferir o que lhe dava na telha, criticando inclusive os colegas.
Esse é o tom que o leitor encontra no livro “Ursula K. Le Guin: A Última Entrevista e Outras Conversas”, lançamento recente da editora Relicário. O volume reúne uma série de entrevistas realizadas ao longo de décadas, incluindo as conversas que Le Guin teve com o jornalista americano David Streitfeld de 2015 a 2018, antes de morrer naquele ano.
Com isso, a editora inaugura uma série de compilações de entrevistas que deve contemplar, num porvir próximo, as escritoras Toni Morrison e Octavia Butler.
Nascida em 1929 nos Estados Unidos, Le Guin teve uma longa e premiada curso. É autora de clássicos uma vez que “A Mão Esquerda da Trevas”, de 1969, e “Os Despossuídos”, de 1974.
Le Guin enfrentou dois grandes desafios ao longo das décadas. Primeiro, o de ser uma mulher escrevendo em um meio que ainda hoje privilegia os homens. Segundo, o de ortografar ficção científica, gênero historicamente tratado pelo mercado e pela sátira uma vez que de menor prestígio.
Esses temas perpassam as sete entrevistas reunidas no livro, revelando o quanto o gênero —tanto o dela quanto o de seus livros— a impactou. “É muito mais difícil ortografar do ponto de vista das mulheres”, escreve. As convenções privilegiam os homens, que costumam ser os protagonistas.
Le Guin também parecia se ressentir, de evidente modo, de ter ficado reduzida ao rótulo de autora de ficção científica, não de ficção com “F” maiúsculo. “Publiquei uma vez que escritora de gênero quando gênero não era literatura”, afirma. “Escrevi o que não era literatura. Paguei o preço.”
Sugere, inclusive, que alguns colegas venceram prêmios por serem homens e por escreverem “literatura séria”, apesar de escreverem pior. Menciona Don DeLillo, que a derrotou no National Book Award de 1985 com “Sonido Branco”. Le Guin concorria com o experimental “Always Coming Home”, sem tradução no Brasil.
A franqueza é uma das melhores coisas do livro. Porquê muito diz a introdução, os escritores nem sempre gostam de falar com jornalistas. Quando falam, é, por vezes, de maneira ensaiada ou contida. Le Guin, por outro lado, encarna a frase “sem papas na língua”.
O gaulês Gustave Flaubert, celebradíssimo responsável de “Madame Bovary”? É “um péssimo protótipo para um noticiarista”, afirma. O russo-americano Vladimir Nabokov, responsável de “Lolita”? “Não significa zero para mim.”
Le Guin não poupa nem o americano Philip K. Dick, que também escrevia ficção científica. Diz que até gostava dele, mas mudou de teoria ao reler “O Varão do Fortaleza Cume”. Pareceu-lhe um livro “desenxabido”. Outrossim, “a maneira uma vez que ele lidava com as mulheres era muito ruim”.
Sobram críticas até mesmo aos entrevistadores, vejam só. Um deles lhe pergunta uma vez que ela se sente em relação à tecnologia. “É uma pergunta tão ampla que cada resposta acaba soando uma vez que um biscoito da sorte”, afirma.
A contundência, porém, não parece vir da amargura. Porquê diz Streitfeld na introdução da última entrevista, “Le Guin ria com frequência”, pois “o mundo a divertia”. Por meio de suas respostas, é verosímil vê-la em vivenda, sorrindo para o entrevistador que a visitante.
Na conversa derradeira, de 2018, Le Guin fala sobre uma vez que deixou de ortografar ficção. Fazia anos que não publicava. “Não havia mais um romance espreitando em qualquer lugar no fundo da minha consciência”, escreve. Era “uma sensação muito estranha, uma vez que ter um poço e ele secar”.
O trecho é melancólico, ainda mais sabendo, agora, que ela morreria em breve. Mas Le Guin ainda pensava longe e profundamente. “É uma idade séria, 88. Se você virar os números de lado, são dois infinitos, um sobre o outro.”




