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Vânia Mignone celebra três décadas de arte pop 03/09/2026
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Vânia Mignone celebra três décadas de arte pop – 03/09/2026 – Ilustrada

Se as palavras sempre encontraram espaço na obra da pintora Vânia Mignone, elas agora faltam na celebração de seus 30 anos de curso. Seus quadros, pintados em cores berrantes sobre placas de MDF, costumam sustar expressões porquê porvir, caos, parto, nós, selva. E elas ainda aparecem nos trabalhos inéditos que ela apresenta na Mansão Triângulo, galeria paulistana que a representa há três décadas. A diferença é que, agora, as letras estão confinadas aos quadros.

Mignone decidiu, junto aos donos da galeria, que o natalício era ocasião para patente minimalismo. Isto é, zero de invocar um curador para a mostra e nem de encomendar textos críticos. A artista batizou a mostra de “Sem Palavras”.

Nascida em Campinas, onde mora até hoje com seus vários cachorros de estimação, Mignone se formou em artes pela Universidade Estadual de Campinas e em publicidade na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Ela começou a curso na xilogravura e, cedo, em 1990, passou a expor suas obras. Em 1995, faz sua primeira exposição individual e, desde logo, é figurinha carimbada na cena brasileira.

Além da exiguidade de palavras, falta na empreitada outra marca registrada de Mignone: as figuras femininas de tá contraste, pintadas de forma cartunesca sobre as chapas de MDF. A artista diz que suas personagens masculinas e femininas evocam energias associadas a esses gêneros. Ela até chegou a pintar uma mulher para os murado de dez quadros da novidade mostra. Mas, diz, a obra não se encaixou no espaço expositivo da galeria, nos Jardins.

A única figura humana da exposição é um rapaz branco de cabelos negros curtos. Sobre um fundo amarelo e bravo de lado num retângulo verdejante onde repousa o braço, ele ocupa a seção esquerda do quadro e encara o testemunha com o corpo retorcido. Do seu braço, pipoca a termo “pintor”, em letras garrafais. Na porção direita da tela, as palavras: “um risco sempre”.

São várias as referências ao ofício de artista na mostra. Além de materializar esse pintor, Mignone cola em algumas das placas de MDF o nome de artistas reais. Num caixote, de laterais pintadas de preto e azul-água, Mignone pinta uma paisagem febril. Uma estrada azul Klein faz uma curva sobre um solo preto feito nanquim. Ao lado da via, há uma árvore de tronco cinza-claro e ramaria dividida ao meio por uma traço reta. A traço demarca uma metade preta porquê o pavimento e outra em sombreado avermelhado, que tinge os galhos que toca do mesmo azul da lateral. Do pavimento preto emerge uma serra distante, toda colorida porquê um arco-íris, sobre o firmamento laranja que parece um pôr-do-sol escaldante. “Na curva da estrada”, lê uma letreiro no topo da tela. Em um círculo azul, que pode muito ser um sol estranho, salta um recorte de livro com a termo Giotto, referência ao pintor italiano.

O pormenor é resultado de um feliz contingência. Mignone diz que não costuma traçar e pintar sobre papéis virgens. Ela faz rascunhos das páginas e folhas dos seus próprios livros de arte. A artista costuma resguardar as letrinhas com as camadas grossas de tinta opaca que marcam seu estilo. Mas, dessa vez, ela gostou de ver os nomes de seus companheiros no quadro.

Apesar de ser uma mostra de celebração do tempo pretérito, Mignone diz que são obras que dialogam com o presente. Ela não gosta muito de retrospectivas. Interessa mais a ela falar do presente. É o caso de uma trinca de telas pintadas com as pontas apontando para cima, porquê se as quinas fossem os ponteiros de uma bússola. Para a artista, a posição das telas já passa de antemão o desconforto que permeia as obras. “O formato já dá um desequilíbrio. Um pouco dissemelhante está cá, uma tensão. O formato contribui para essa força tensa”, diz.

Uma das principais inquietações que rege esses quadros é com o colapso climatológico. Na primeira das telas, três montanhas emergem, em brasa, de um solo vermelho. Serpenteando entre elas, um corpo d’chuva em tons de azul se retorce em curvas, também em chamas. O firmamento é preto porquê uma ave, posicionada no primeiro projecto do quadro, que estica suas asas abertas. Na tela grita a frase: “país do porvir”, seguida de “em chamas”. As outras duas obras também trazem a primeira frase. A segunda diz, ainda, “esperamos”. A terceira, “o ruína”.

Mignone diz que cresceu ouvindo que o Brasil é o país do porvir, frase atribuída ao repórter austríaco Stefan Zweig, que publicou um livro com oriente título em 1941. “Esse porvir nunca chega”, diz a artista. “A gente está muito próximo de muitos fins. É um tipo de tensão com a qual a gente convive, que aparece nos trabalhos. Não tem nem porquê separar uma coisa da outra.”

Folha

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