Ao caminhar pela rua principal de Wrexham na hora do almoço de um dia de jogo, havia poucos sinais de uma revitalização drástica. Uma luta estava prestes a debutar na porta do pub The Horse & Jockey. Um pregador evangélico, com um microfone quebrado, tentava convencer os pedestres de que Jesus os amava.
Só mais tarde, enquanto tomava uma Wrexham Lager antes da partida no pub histórico do clube, é que a ressurreição desta pequena cidade no setentrião do País de Gales ficou evidente. Em meio à conversa animada dos moradores locais, ouviam-se frequentemente sotaques norte-americanos. E logo surgiram as câmeras. Uma equipe de filmagem se acotovelava diante dos torcedores. Outras entrevistavam fãs e o possuidor de um trailer de hambúrgueres.
Welcome to Wrexham, a série documental de sucesso da Disney —agora em sua quinta temporada—, acompanha os rumos da cidade nos cinco anos desde que o planeta de cinema canadense Ryan Reynolds e seu colega de primeira grandeza Rob McElhenney —hoje divulgado uma vez que Rob Mac— resgataram o Wrexham Association Football Club, time que durante anos definhou nas divisões inferiores e que, quando a Covid chegou, em 2020, lutava para sobreviver.
Para Michael Williamson, CEO do Wrexham AFC há dois anos e meio, a história se mostrou irresistível. O americano havia ocupado cargos de sobranceiro escalão —inclusive o de diretor financeiro— na Inter de Milão e, depois, no Miami FC, mas, quando foi recrutado por Reynolds e Mac, rapidamente se encantou com o romantismo do projecto dos dois. “Liguei para minha mulher e disse: ‘Olha, não tenho uma oferta, não faço teoria de quanto estão dispostos a remunerar, mas vamos para o setentrião do País de Gales, para Wrexham, se tivermos a oportunidade’.”
Desde que Rob e Ryan, uma vez que são conhecidos por todos por cá, adquiriram o clube do Wrexham Supporters Trust por £ 2 milhões (R$ 13,2 milhões), em 2021, a trajetória se tornou um narrativa de fadas. O terceiro clube profissional de futebol mais vetusto do mundo subiu da modesta National League [quinta divisão inglesa] para a League Two [quarta divisão inglesa], a League One [terceira divisão inglesa] e, em seguida, a Championship [segunda divisão inglesa] em três temporadas consecutivas. Há alguns meses, por pouco não conquistou uma verosímil promoção final à Premier League, a primeira repartição. “Aquilo doeu muito, porque senti que estávamos tão perto”, diz Williamson, em entrevista com vista para o estádio Cae Ras —”hipódromo”, em galês.
Mesmo assim, as sucessivas promoções, a ampliação da lista de patrocinadores e uma torcida em rápido desenvolvimento —tudo isso turbinado pela construção global da marca proporcionada por Welcome to Wrexham e seus quase 5 milhões de espectadores regulares— transformaram o clube em todos os sentidos.
Houve duas captações significativas de capital desde a compra, em 2020. A primeira teve o espeque da família Allyn —empresários e filantropos de Novidade York, mais conhecidos por fundar e posteriormente vender o grupo de equipamentos médicos Welch Allyn. A segunda, que trouxe o grupo de private equity Apollo —das quais outro ativo no futebol europeu é o muito maior Atlético de Madrid—, teria medido o Wrexham em murado de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões).
Para Reynolds e Mac, que mantêm quase 75% do clube, isso parece simbolizar um retorno financeiro fenomenal. Mas Williamson ressalta os enormes desembolsos: £ 69 milhões (R$ 454,6 milhões) para ampliar a capacidade do Cae Ras de pouco menos de 10 milénio para 18 milénio torcedores; € 39 milhões (R$ 218 milhões) líquidos gastos em novos jogadores durante o verão; £ 7 milhões (R$ 46,1 milhões) em um meio de treinamento; e quase £ 2 milhões (R$ 13,2 milhões) em um novo gramado.
As últimas demonstrações financeiras publicadas mostram que o clube teve prejuízo operacional de £ 15 milhões (R$ 98,9 milhões) sobre uma receita de £ 33 milhões (R$ 217,4 milhões) no ano fiscal encerrado em junho de 2025. No futebol de sobranceiro nível, a lista de compras fica face.
Williamson, que não quis comentar a decisão da semana passada que considerou o Manchester City culpado de graves violações das regras financeiras, afirma que lucrar quantia não é o objetivo principal. “Sempre brinco que, se você quiser transformar um bilionário em milionário, diga a ele para comprar um clube de futebol.”
De todo modo, ele se surpreendeu com o exalo demonstrado por Reynolds e Mac pelo projeto do Wrexham.
“A paixão e o comprometimento deles são notáveis”, afirma. “Mas eles não estão cá exclusivamente pelo clube de futebol; estão cá pela comunidade. Eles entendem que a sustentabilidade do clube no longo prazo depende, em última instância, de a comunidade embarcar conosco nessa jornada.”
O otimismo é contagiante, mas lembro-me da atmosfera sombria que presenciei no meio da cidade. Isso dificilmente corrobora essa narrativa, não é?
Segmento do impacto é intangível, diz Williamson. “Antes de Rob e Ryan, havia incerteza quanto à chegada de dias melhores. Logo, talvez as pessoas não fossem buscar um empréstimo ou financiar uma lar porque não sabiam se teriam ofício no horizonte. Agora, as pessoas enxergam esperança.”
Mas ele insiste que também houve um impulso visível à economia da cidade. “Há restaurantes, há bares. Você vê pessoas vindo visitar o lugar.” Ele sugere observar a clientela do The Turf, o pub dos torcedores recentemente adquirido pelo clube, assim uma vez que a Wrexham Lager. “Provavelmente você vai encontrar um canadense, um americano, talvez alguém da Malásia, talvez alguém do Brasil. As pessoas estão vindo para cá, e a comunidade as está acolhendo.”
Mais tarde, em meu hotel, desenrola-se uma cena que confirma de maneira tão perfeita o relato de Williamson que me pergunto se, de qualquer modo, ele não a teria planejado. Um parelha de Boston usando cachecóis vermelhos e vivos do Wrexham entra apertado no elevador e fala com exalo sobre as férias no setentrião do País de Gales que planejou em torno de seu primeiro jogo do Wrexham ao vivo. “O que eles estão fazendo pela comunidade daqui é incrível”, diz a mulher.
Logo, Wrexham é um padrão para outros? “Os clubes de futebol, se forem fiéis à sua natureza de organizações voltadas para a comunidade, podem ser grandes catalisadores do desenvolvimento econômico”, diz Williamson. “Seja por meio do turismo, seja por iniciativas em uma universidade próxima.” O clube trabalha em estreita colaboração com a Universidade de Wrexham, inclusive por meio de novos cursos superiores ligados ao esporte.
Tudo soa perfeitamente desempenado ao ideário do primeiro-ministro britânico. Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester, a menos de 80 quilômetros dali, do outro lado da fronteira entre o País de Gales e a Inglaterra, defendeu a descentralização do poder para as regiões britânicas uma vez que forma de gerar “desenvolvimento em todos os códigos postais”.
Isso pode transformar Wrexham em um estudo de caso para formuladores de políticas públicas, sugiro. “Podemos ser um ponto focal, uma estrela-guia, para ajudar a promover o desenvolvimento econômico em toda a comunidade”, acrescenta Williamson.
A tendência de americanos assumirem o controle de clubes britânicos é antiga —hoje, dois terços dos clubes da Premier League pertencem, ao menos em segmento, a investidores dos Estados Unidos. Mas os novos donos do Wrexham acrescentaram uma reviravolta improvável. Usando uma série documental que mistura uma narrativa de azarão com sentimentalismo popular e uma pitada cômica do clarão de Hollywood, eles transformaram um time fracassado fora das divisões profissionais, em uma cidade pós-industrial, em uma próspera marca global. É a própria personificação da disneyficação. Antes mesmo de Mac e Reynolds decidirem qual clube comprar, Mac já havia vendido a teoria de documentar a façanha à produtora FX, pertencente à Disney e sua parceira de longa data.
Mas isso não significa que não seja sincero, insiste Williamson. “Milhões de pessoas em todo o mundo que não são necessariamente fãs de futebol se apaixonaram pela cidade e por seus habitantes porque criaram uma conexão com eles, porque compartilharam emoções semelhantes.”
Os benefícios comerciais para o clube são enormes. A distribuição de réplicas dos uniformes saltou de exclusivamente alguns milhares antes da compra para 100 milénio por ano. “E, sem incerteza, competimos supra da nossa categoria quando se trata de patrocínios”, diz Williamson. Ele cita o exemplo do novo patrocinador nas costas da camisa do clube, o Royal Bank of Canada, que o próprio Reynolds conquistou, aproveitando o roupa de ter sido seu primeiro banco quando jovem. O companheiro de Hollywood Channing Tatum e o orgulhoso galês Anthony Hopkins fizeram comerciais exibidos no Super Bowl para o Wrexham e um vetusto patrocinador. “Por motivo do documentário, de Rob e Ryan e da nossa abordagem, os anunciantes recebem um pouco realmente muito privativo, que nenhum outro clube de futebol pode oferecer”, diz Williamson.
É evidente que há grandes riscos negativos depois de um sucesso tão estratosférico. A promoção à Premier League, desejável para manter o impulso mercantil, está longe de ser garantida, e o rebaixamento está longe de ser impossível. Quase dois meses em seguida o início de uma temporada de nove meses, o Wrexham está no meio da tábua, tendo vencido exclusivamente dois dos oito jogos disputados até agora.
Também significativo é o risco de os benefícios de ter donos de Hollywood simplesmente evaporarem caso eles vendam o clube. Williamson evita responder se a chegada da Apollo uma vez que investidora minoritária é um prelúdio para a saída de Reynolds e Mac, embora dê a entender que há um compromisso de longo prazo. Ao contrário de alguns investidores que poderiam estar ali “para revender rapidamente um ativo”, ele diz que a dupla é “verdadeira guardiã” dos 162 anos de história do clube, o tipo de investidor que permaneceria por “10, 15, 20 anos”.
Nesse trajectória, Williamson —e o treinador Phil Parkinson— têm a missão de governar o clube enquanto ele se expande em ritmo vertiginoso. Uma vez que a experiência britânica de fazer isso se compara às dos Estados Unidos e da Itália, onde Williamson supervisionou uma regeneração de dívida na Inter?
Os americanos querem ir do “ponto A ao ponto C, passando direto pelo ponto B”, afirma. Os italianos “sempre encontrarão um caminho, mesmo que precisem chegar a C passando por D e E”. A Grã-Bretanha, diz ele, rindo, pode ser exasperante por motivo de sua ordem inflexível baseada em regras. “É aí que posso recorrer ao estilo americano de ‘vamos simplesmente chegar lá’, combiná-lo com o italiano e expor: manifesto, uma vez que encontramos o caminho até lá?”





