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Zelito Viana faz documentário sobre Zuenir Ventura 22/10/2026
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Zelito Viana faz documentário sobre Zuenir Ventura – 22/10/2026 – Ilustrada

O cineasta Zelito Viana fez em “Rabino Zu”, que estreia nesta quinta nos cinemas, um documentário de companheiro —desses que são de quase irmãos— sobre Zuenir Ventura, talvez o grande expoente do jornalismo literário no Brasil.

Foi Elisa Ventura, filha de Zuenir, quem idealizou o projeto. Viana a conhecia porque ele e Zuenir foram amigos por décadas, desde os anos 1960: os filhos tinham sido criados juntos, as famílias viajavam unidas nos feriados. “A Elisa teve vontade de fazer um filme [sobre o pai], e aí me perguntou se eu queria guiar”, conta o cineasta.

Zuenir Ventura já estava com problemas de mobilidade, mas nunca deixou de estar lúcido, nos meses em que o documentário foi rodado, segundo o documentarista. O jornalista, que morreu no dia 22 de setembro, aos 95 anos, teve tempo de ver a obra pronta. “Adorou, viu duas vezes”, conta o companheiro, orgulhoso.

Antes, Viana havia consultado Zuenir para saber uma vez que ele imaginava que o filme deveria inaugurar. Com que cena? “Ele me falou assim: ‘Tem que inaugurar com a cuidadora me dando um banho’.”

A sugestão, mesmo que em tom de risota, diz muito sobre Zuenir. Podia não ser a cena mais edificante do mundo, mas era a verdade dele, naquele momento da vida. O filme, amoroso e frágil, não tentou reproduzir o duro rigor jornalístico do homenageado.

Na cena de introdução que sobreviveu à edição, um grupo de amigos de Zuenir, quase todos jornalistas da Zona Sul do Rio de Janeiro, se reúne em uma sala de estar da classe média subida carioca para falar de maneira íntima e cordial sobre Rabino Zu, definido desde o início uma vez que uma “unanimidade” e tratado, pelo cineasta, uma vez que uma espécie de santo.

A pessoa teria que ser muito desalmada —ou jornalista— para fazer dissemelhante. Ainda mais com um personagem uma vez que Zuenir.

Fruto de um pintor de paredes e de uma mãe que lavava batinas para poder mantê-lo no escola de padres, Zuenir trabalhou desde a mocidade. Depois cursou letras e, por falar gálico, batucou um texto muito muito feito sobre o redactor argelino Albert Camus para a Tribuna da Prensa, o quotidiano de Carlos Lacerda.

O cláusula o promoveu do registro, onde trabalhava, para a redação do jornal. Ainda jovem ganhou uma bolsa de estudos do governo gálico e, já na Europa, virou correspondente em Paris da Tribuna.

Na volta, dirigiu redações e abriu as portas do jornalismo para gerações de repórteres e editores. Aquilo de que todo mundo se lembra, quando fala de Zuenir, é da mel e da indulgência. Traços que apareciam na voz baixa, no ritmo tranquilo da conversa, no olhar hospitaleiro —e que estão lá, no filme. “Eu nunca o vi falar mal de ninguém”, acrescenta Viana.

Embora apareça no filme uma vez que uma figura pura e sem arestas, lembrada com recta a pranto e embargo na voz dos entrevistados, Zuenir era um exímio observador de contradições.

Seu best-seller “1968 – O Ano que Não Terminou” não é uma ode à geração de que ele próprio fez secção. Antes, tem olhar vigilante para as contradições daqueles jovens idealistas.

Sobre a revolução sexual dos anos 1960 e 1970, por exemplo, Zuenir escreveu: “Provavelmente, falava-se e escrevia-se mais do que se fazia sexo. Porquê em universal só se fala de liberdade na sua carência, a liberação era mais aparente do que real”.

É verdade que o texto de Zuenir se assemelha ao clima de uma sossegada conversa entre amigos na sala de moradia. A prosa é relaxada, dando a sentimento de que o narrador se acomoda em uma poltrona tenro, com a janela ensejo à profundidade da despensa das árvores.

Mas o que o texto relata cria desconforto, uma vez que se o leitor viajasse em um apertado trem de subúrbio (“Cidade Partida”) ou em uma estrada esburacada no Acre (“Chico Mendes: Violação e Pena”).

“O Zuenir escrevia ligeiro sem ser superficial”, afirma Viana. O ponto superior desse seu talento talvez apareça no capítulo de introdução de “1968”.

Ali, ele relata uma sarau na passagem de 1967 para 1968. O “réveillon da moradia da Helô” reuniu em uma mansão do bairro do Jardim Botânico gente da cultura e do numerário do Rio de Janeiro, o pessoal do teatro e do cinema, de um lado, e “grupos de jovens assessores lacerdistas”, de outro.

O incidente é narrado a princípio dentro do registro da cordialidade, da alegria de pertencimento que as relações pessoais criam. Zuenir reproduz no texto a satisfação de fazer secção de um grupo. Havia esperança também, na sarau —quem sabe o Brasil não caminhasse, nos meses seguintes, para qualquer tipo de introdução democrática?

O tom de pilar social, que de certa forma permanece até o termo do capítulo, não obscurece a tensão que contamina a sarau, e que cresce à medida que as pessoas se embriagam. Em patente momento, explode uma pancadaria generalizada. Na sala da moradia.

“Eu entrei no salão feito um trator, batendo em todo mundo e apanhando de todo mundo”, relata o produtor Luiz Carlos Barreto, no livro. “Não sei em quem bati, nem quem me bateu.” Sob a cordialidade, em um envolvente referto de notinhas para a pilar de Ibrahim Sued, a violência.

Há um momento análogo a esse, mas tratado com muito menos destaque, no filme de Viana. É quando ele narra o que diz ser “um ponto fora da curva” de Zuenir.

Zuenir havia sido ofendido por Hélio Fernandes, no final dos anos 1980, na Tribuna da Prensa. Fernandes, à era possessor do jornal, fazia isso a torto e a recta, criava inúmeros desafetos e era hostil com seus adversários, nas páginas da Tribuna. Em 1987, sobrou para Zuenir, que resolveu se vingar.

O horizonte responsável de “Cidade Partida” comprou uma lata de tinta marrom. Ele sabia que Fernandes costumava caminhar ao volta da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio. Zuenir esperou que o desafeto passasse pelo trecho habitual e atirou a tinta, cobrindo Fernandes com um melado luminoso e amarronzado.

O incidente aparece de forma breve, sem muito contexto nem maiores explicações, no filme. Segundo Viana, até nessa reação indignada Zuenir foi elegante. “Não era para fazer mal”, afirma. “Foi só para encher o saco” do Hélio Fernandes.

A reportagem quis saber se Viana imaginava uma vez que o próprio Zuenir trataria esse incidente, se fosse ele a guiar o filme.

“É verosímil que ele, uma vez que jornalista, fosse investigar mais a fundo o que foi aquilo”, diz o cineasta. “Se muito que, também, é uma coisa tão fora da curva da existência dele que dá para ele me perdoar.”

Folha

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