O pregão recente de que tanto a OpenAI quanto a Anthropic preparam a primeira oferta pública de ações traz a corrida da lucidez sintético a uma novidade tempo.
Em vez de uma disputa por quem tem o melhor padrão de IA, a luta agora também é para mostrar aos investidores quem é capaz de sustentar um negócio lucrativo. E, na hora de fazer essa conta, segundo especialistas do mercado, um elemento entre tantos deve lucrar relevância: o resultado com clientes corporativos, critério que coloca na estádio dois modelos de negócios distintos.
De um lado, a OpenAI, quase um sinônimo de IA perante o público e líder entre as pessoas comuns, com quase 1 bilhão de usuários ativos (dos quais, todavia, só 5% pagam para utilizar o chatbot). Já a Anthropic focou estratégia em ocupar primeiro desenvolvedores de software e clientes corporativos —um projecto que, em meio à corrida para o primeiro IPO, parece fazer a companhia lucrar tração.
Segundo Paulo Carvão, ex-executivo da IBM e pesquisador na Universidade Harvard, tal cenário faz os investidores serem confrontados com uma questão crucial na economia da IA: a sustentabilidade dos negócios vai vir da graduação de consumo ou da receita empresarial?
“Os mercados públicos [de capital] têm menos tolerância a empresas que não sejam lucrativas. Entra esse debate do padrão de negócios. E a OpenAI tem um caminho grande até a lucratividade, enquanto a Anthropic está começando a esboçar essa possibilidade, ainda que de forma transitória”, diz ele.
Segundo dados da plataforma de pagamentos Ramp, que monitora gastos com cartão de crédito, em abril o número de empresas americanas que usam os serviços de IA da Anthropic (34%) superou pela primeira vez as que usam os da OpenAI (32%).
A OpenAI, comandada por Sam Altman questiona os dados, dizendo que a plataforma não capta contratos multimilionários. Já a Ramp argumenta que, na base, consegue monitorar 1% do PIB americano —e que os números são consistentes com as informações de receita que as duas empresas divulgam.
De traje. A empresa de Altman anunciou ter atingido uma receita anualizada de tapume de US$ 20 bilhões em 2025, diante de US$ 6 bilhões no ano anterior. Já a da Anthropic disparou de tapume de US$ 10 bilhões no término do ano pretérito para US$ 47 bilhões em maio deste ano, ultrapassando a rival.
Mas esses dados são fim de disputa e já geraram atritos entre as empresas, e a companhia comandada por Sam Altman tem dito que a rival infla os números de receita. A Anthropic, é evidente, rebate, dizendo que usa práticas de contabilidade estabelecidas no mercado.
Mesmo enquanto se debate os critérios contábeis das duas, é patente que tanto a dona do Claude quanto a do ChatGPT têm uma previsão de perdas. Ao mesmo tempo em que teve aquela receita de US$ 20 bilhões, a OpenAI tem compromissos com investimentos de US$ 600 bilhões em infraestrutura computacional. Já a Anthropic avisou a investidores que, no segundo trimestre deste ano, deve registrar lucro operacional pela primeira vez em sua história.
A notícia foi vista porquê um ótimo sinal e colocaria a dona do Claude avante na corrida. Mas a própria empresa reconhece, nos bastidores, que vai ser difícil manter essa lucratividade ao longo do ano, oferecido o volume de gastos que precisa fazer com chips, datacenters e treinamento de modelos.
De todo modo, Anthropic espera se tornar uma empresa lucrativa até o término desta dezena; e a previsão da OpenAI é por volta de 2030. É evidente, todos os números divulgados pelas duas companhias serão finalmente submetidos a escrutínio público na sinceridade de capital —e o mercado vai poder determinar melhor o que há de sólido nas promessas.
Ainda assim, o diferencial para a Anthropic lucrar tração às vésperas dos dois IPOs são justamente as vendas para as empresas e desenvolvedores, que respondem por 85% da receita da companhia. Segundo o pesquisador Paulo Carvão, clientes empresariais geram de três a cinco vezes mais receita por token —unidade básica de processamento na IA— do que os consumidores comuns.
“O padrão de uso desses clientes é mais previsível e seus contratos tendem a ser mais duradouros”, diz ele, destacando que oito das dez maiores companhias da lista da Fortune usam o Claude. “Essa é a base de um negócio lucrativo.”
Mas a OpenAI reage e tenta mostrar que é verosímil transmutar sucesso com usuários comuns em vendas corporativas. No ano pretérito, as vendas do tipo eram 30% de sua receita, hoje são 40% —e a previsão é que cheguem a 50% até o término deste ano. A aposta é usar sua enorme base de usuários porquê arma.
Ou por outra, a Anthropic tem a desvantagem de enfrentar um risco político maior, porque tem vivido às rusgas com o governo Donald Trump. No último capítulo da romance, semana passada, a empresa foi obrigada a retirar do ar seus modelos Fable 5 e Mythos 5, em seguida uma ordem da Mansão Branca que proibiu o uso por estrangeiros, sob a argumento de que havia riscos à segurança vernáculo. A empresa contesta a decisão.
A corrida das duas rivais, diante dessa diferença de estratégia e apresentação dos números, é para ver quem vai fazer primeiro o IPO. Até cá, o boom da IA foi financiado pelo mercado privado de capitais. Com a passagem ao mercado público, diz Paulo Carvão, pela primeira vez os investidores poderão ter entrada a números transparentes e julgar se receitas, custos e perspectiva de incremento são suficientes para julgar as avaliações dessas companhias até cá —que se aproximam da mansão do trilhão de dólares.
De todo modo, quem transpor na frente tem a chance de estabelecer uma narrativa e influenciar sob quais métricas o mercado de IA passará a ser medido —deixando uma régua para o julgamento do rival que vier depois.





