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Beth Goulart interpreta Clarice Lispector; veja 16/06/2026 Mise en scène
Celebridades Cultura

Beth Goulart interpreta Clarice Lispector; veja – 16/06/2026 – Mise-en-scène

Em “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”, o duelo de transpor a densidade silenciosa da literatura para a extroversão inevitável do palco encontra uma solução inesperada: em vez de tentar explicar Clarice, o teatro a flagra no ato de se inventar. Beth Goulart, idealizadora do projeto, compreendeu que a autora de “Chuva Viva” não habitava a crônica biográfica, mas os vãos entre as palavras. Ao transformar a reclusão literária em material física, a montagem investiga o peso que o pensamento exerce sobre o corpo.

Trata-se de um trabalho autoral e profundamente pessoal de Beth Goulart: o encontro de uma atriz em seu maduração artístico com uma das mentes mais complexas da literatura. Desse encontro nasce uma confraria que transborda em emoção e pensamento. O espetáculo convida o público a refletir sobre geração, solidão, o divino e, sobretudo, o paixão, oferecendo um retrato da mulher por trás da mito, feita de contradições e de uma humanidade avassaladora.

Essa passagem da página para a voz ganhou contornos nítidos graças à interferência de Amir Haddad na supervisão de cena. Sabido por suas dinâmicas no teatro de rua, Haddad atuou uma vez que uma âncora à terreno, impedindo que a montagem naufragasse no isolamento hermético e estimulando a atriz a buscar o olho no olho com a plateia.

O resultado é uma tradução equilibrada entre transe e informação direta: Goulart não se esconde detrás da personagem, mas convida o público a testemunhar os mecanismos da própria atuação, quebrando a ilusão do fantasma literal para estabelecer um pacto de cumplicidade com o testemunha.

O roteiro se estrutura por meio de uma galeria de alter egos que funcionam uma vez que desdobramentos psíquicos da escritora, todos unificados pela investigação do paixão em suas diferentes gradações, do afeto cotidiano ao confronto com o sagrado. A Clarice biográfica serve de matriz para que surjam a Joana de “Perto do Coração Selvagem”, a Ana do história “Paixão”, a Lóri de “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e a Mulher Sem Nome, figura irônica de “Perdoando Deus”. O texto opta por uma montagem fragmentada, na qual a passagem entre a autora e suas criaturas se dá por meio de detalhes técnicos rigorosos.

Goulart adota a expressão peculiar da escritora — marcada pela língua presa, respiração curta e o cigarro entre os dedos —, mas abandona essas marcas físicas ao transmigrar para a ficção, limpando a voz e alterando a postura corporal. Esse trânsito se apoia em uma arquitetura de cena que valoriza o vazio.

A cenografia de Ronald Teixeira e Leobruno Gama reduz o mundo a um divã, uma cadeira e uma escrivaninha com uma máquina de ortografar portátil: móveis dispostos sobre uma caixa branca que emula o espaço mental da geração. Esse minimalismo é ampliado pelas projeções de Fabian e pela direção de cena de Guaraci Ribeiro, que inserem referências geográficas sem sobrecarregar o projecto visual.

A atmosfera ganha tridimensionalidade com a luz de Maneco Quinderé, que atua uma vez que elemento de galanteio entre o real e o ficcional, desenhando sombras capazes de modificar a percepção do tempo. Paralelamente, a trilha sonora original de Alfredo Sertã pontua os silêncios e serve de moldura para que a termo dita mantenha sua centralidade absoluta.

No termo, Beth Goulart não somente desvenda Clarice ao público: ela faz com que sintamos, por um momento, o mundo através dos olhos da escritora. Não há pretensão de esgotar um mito, mas sim de oferecer uma trégua — o privilégio de habitar, por alguns minutos, a solidão, o paixão e o silêncio que precedem suas palavras.

Três perguntas para…

… Beth Goulart

A literatura de Clarice é predominantemente interno, feita de silêncios e epifanias. Qual foi o maior duelo para transformar essa material essencialmente abstrata em ação física e jogo cênico?

Acredito que para recriar o envolvente propício para se viver esse silêncio é preciso estar no estado de silêncio interno, para se viver uma epifania em um estado de buraco na espírito para se compreender a dimensão dessa experiência. O espetáculo é muito sensorial e procuramos provocar no público essa buraco, através da música, da iluminação, da projeção e do ritmo da cena, que envolve e inspira esse envolvimento.

O roteiro costura a biografia de Clarice com suas criaturas ficcionais. Uma vez que foi o processo de edição e montagem desses textos para que eles operassem uma vez que uma risco dramatúrgica contínua e fluida?

Procurei na dramaturgia separar os temas de contrato com as personagens. Logo, antes de Joana, trato do processo criativo de Clarice; na personagem Ana, abordo a relevância das relações; em Lóri falo sobre o paixão; na mulher que passeia por Copacabana, discorro sobre Deus com a ironia e lucidez do história “Perdoando Deus” e, antes do final, falo sobre a compreensão da morte.

Na encenação, você adota marcas específicas da Clarice — expressão, respiração, o cigarro —, mas as abandona ao dar voz às personagens. Uma vez que foi desenhada essa engenharia corporal para que a transição parecesse uma extensão orgânica da mente dela?

No processo de preparação do espetáculo, durante seis meses fiz encontros com Rose Gonçalves, para trabalhar a voz de cada personagem e chegamos no sotaque de Clarice. Fui aos poucos entrando nos detalhes vocais e corporais de cada personagem, para que pudesse, ao entrar no espaço cênico, ter domínio de cada uma delas e poder transitar por elas de uma maneira orgânica e fluida. As marcações são uma partitura física, uma vez que uma coreografia cênica onde as personagens surgem e desaparecem, assim uma vez que os figurinos, a luz, os elementos e a música. Tudo segue um ritmo específico de contrato com a cena que é vivenciada por mim, todo espetáculo segue essa magia comandada pela tradutor e essa é uma linguagem cênica que caracteriza a minha direção.

Teatro Moise Safra – rua Professor Walter Lerner, 315 – Barra Fundíbulo, região oeste. Sexta, 20h. Sábado e domingo, 19h. Até 26/7. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 60 (meia-entrada) em sympla.com.br


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Folha

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