Biografia de Jorge Luis Borges mergulha em enigmas mentais – 26/10/2026 – Ilustrada
O longo documentário sobre Jorge Luis Borges, dirigido por Mariano Llinás, com muro de cinco horas e meia, surge da encomenda de uma instalação nos Estados Unidos. Uma encomenda devastadora, uma vez que adivinhação o cineasta logo no início, tal sua extensão.
Ao mesmo tempo, isso será visto por ele uma vez que uma limitação, embora a instalação seja detentora de uma enorme coleção de objetos, manuscritos e tudo mais do jornalista. Para essa tarefa, Llinás se debruçará no montão na companhia do estudioso Ernesto Montequín.
Conforme enfatiza o cineasta, Montequín é o Sherlock Holmes da história, enquanto ele é o doutor Watson.
Não é fácil fazer um filme sobre um jornalista que viveu para a escrita e é um dos grandes inventores da literatura no século 20. Borges é todo mental. E secção da biografia filmada terá de buscar nos escritos, correções e revisões um tanto do seu sigilo. Há textos que somem e reaparecem, conforme a edição, mas o precípuo é saber o que determinou essas idas e vindas.
Uma vez que a marco são os documentos da instalação americana, por vezes a logro é inevitável. Assim, uma missiva do responsável Macedonio Fernández a um jovem Borges revela sua profecia de que o rapaz seria o grande nome da literatura argentina no horizonte. Os comentários a saudação são quase sumários, quando se sabe da valor do veterano para Borges.
Em outros momentos, o filme procura lugares importantes na juventude do jornalista. Bruxelas, naturalmente, onde morou com a família no início da Primeira Guerra. Mas também o bordel onde Borges tentou sua primeira proeza sexual —fracassada.
Com interesse mais ou menos desigual, o filme não vasqueiro envereda para o interesse um tanto fetichista que faz secção da assombro dos fãs por uma personalidade. Assim, traz a reparo sobre Paul Auster fotografando o piso de um determinado lugar, dizendo que Borges havia pisado naquele pavimento.
Alguns momentos são interessantes por detalharem um tanto sobre a vida pessoal do jornalista, uma vez que o desastroso enlace emendado pela mãe com Elsa, uma senhora que zero tinha em geral com ele. O objetivo era encontrar alguém que cuidasse do fruto quando ela morresse, mas deu tudo inverídico. E as partes do quotidiano de Elsa lidas por Montequín e Llinás são de amarga crueldade e revelam, indiretamente que seja, um tanto sobre Borges.
Outros momentos lançam hipóteses sobre a obra do jornalista. Por exemplo, uma página deixada de lado traz o nome de quatro personagens que, supõem os estudiosos, seriam os heróis do único romance que Borges pensou em grafar.
Ele era avesso a essa teoria, diga-se. E o romance nunca foi por diante. No entanto, eis a hipótese —esse grupo de amigos, que luta contra a estranha invasão de uma cidade, não seria a base do grupo que se opõe secretamente a uma invasão em, justamente, “Invasión”, o filme de Hugo Santiago, de 1969, escrito em parceria por Borges e Adolfo Bioy Casares?
Entre parênteses —Santiago vem de Paris para um testemunho. É uma ótima figura, mas o testemunho é nulo.
O precípuo da vida mundana de Jorge Luis Borges é o fracasso com as mulheres pelas quais se apaixonou e a amizade com Bioy Casares, que seria o seu parceiro em inúmeros trabalhos —inclusive a geração de Bustos Domecq, o jornalista imaginário que assinava seus textos em geral.
Um ponto muito discutido é a subida de Borges à categoria de notoriedade —portanto, de entrevistado. O momento mais hilariante do filme talvez seja a conversa com o repórter que lhe vem perguntar o que acha do tenista prateado Guillermo Villas, logo famosíssimo. Borges responde somente que não tem a menor teoria de quem seja. Não se preocupa com essas coisas. Não vê televisão, zero disso.
A entrevista é ótima, apesar do estuporado do repórter, ou justamente por isso. Quando ele pergunta a Borges, por término, o que pensa das pessoas que lotaram um estádio para ver Guillermo Vilas, a resposta é genial. “Neste país zero mais me espanta depois que 9 milhões de pessoas votaram no peronismo.”
Apesar do humor, esse é o tempo do Borges quase teratológico, uma vez que o define o filme. O Borges que aceita uma homenagem do ditador chileno Augusto Pinochet e, por conta disso, perde o prêmio Nobel. O Borges que elogia os militares, que aceita um invitação para almoço de escritores com o ditador Jorge Rafael Videla.
O final dessa temporada, um ano antes da morte de Borges, é muito digno. Ele assiste a uma sessão do célebre Julgamento das Juntas, retomado pelo filme “Argentina, 1985”. Borges não aparece no filme, mas uma foto o mostra numa das primeiras filas, visivelmente transtornado —ou comovido, conforme o olhar.
As revelações que ouviu mudaram a posição de Borges. Mas, antes disso, e o filme o mostra com detalhes, um cumprimento de Videla teria sido o torcida da mudança de perspectiva do jornalista: o contato com a mão de Videla lhe revelaria um varão grosseiro e primitivo. A revelação de torturas e assassinatos seria somente uma confirmação.
Os últimos anos de Borges lhe reservariam, na Islândia, uma magnífica surpresa —o encontro com Maria Kodama, que a mãe não conhecia, nem recomendava. Foi possivelmente a única vez que Borges contrariou a mãe. Mas o roupa é que esses últimos anos longe da solidão foram seus anos mais felizes —é ao menos o que transparece do filme.
Apesar dos altos e baixos, suas mais de cinco horas se justificam em boa secção. Falham quando Llinás toma o meio do palco, mas quem já leu Borges na vida não ficará menos seduzido por isso.





