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Carta aberta a João Gomes 16/10/2026 Gustavo Alonso
Celebridades Cultura

Carta aberta a João Gomes – 16/10/2026 – Gustavo Alonso

Custoso João,

Escrevo esta epístola de Recife, onde moro, capital do estado onde você nasceu. Da pequena e mítica Serrita, no interno pernambucano, você foi alçado à quesito de superstar pátrio em muito pouco tempo. Mesmo sendo a pessoa simples que sempre foi, é inevitável que nomeada e sucesso tornem difícil saber quem se é nestes novos contextos.

Fico pensando em uma vez que eu era aos 24 anos, a idade que você tem agora. Hoje, aos 46, vejo que era anônimo e cuidava unicamente dos meus negócios, sem ninguém a me pressionar sobre manifestações públicas acerca dos destinos do país. Tento especular, mas acho difícil saber uma vez que agiria no seu lugar. Não sou casado nem tenho filhos, diferentemente de você. Não tenho bens, nem coche possuo. Você já é um grande artista, é rico, tem herdeiros, fãs e responsabilidades. Não tenho quesito de lhe dar prelecção de moral eleitoral nem de indicar caminhos corretos na sua vida.

Fiquei muito tocado com a forma uma vez que você vem sendo pressionado a se definir politicamente nestas eleições. O tom apocalíptico aflora de ambos os lados e você é pressionado a se posicionar. Mas não querem sua opinião; querem um cabo eleitoral.

Esta semana, seu parceiro de turnê, o genial sanfoneiro Mestrinho, publicou um vídeo impactante sobre uma vez que a cobrança política o abalou psicologicamente. Disse ele: “A gente tem que ter a opção de se posicionar ou não. A forma uma vez que vocês pressionam faz parecer que só há um caminho. Ou isso ou o cancelamento. Liberdade é supra de tudo ter a opção de escolha”.

João, as pessoas estão embrutecidas. Mesmo depois Mestrinho proferir que votará em Lula, o tom acintoso dos petistas continuou. Não querem saber dele, querem confirmação de suas certezas, no tom que desejam. O mesmo vale para os bolsonaristas, também truculentos.

Também me emocionei com o post da sua esposa, Ary Mirelle. Preocupada, ela escreveu: “Da última vez que João se posicionou em uma eleição, ele foi extremamente cancelado… Até hoje ele toma antidepressivos fortes, porque, se não tomar, ele nem consegue levantar para trabalhar. João tem depressão… Recebemos mensagens de pessoas ameaçando nossos filhos todos os dias. […] Ele não está contra nossa país, mas tem um traumatismo que faz ter pânico até hoje”.

Sei que ela se refere a setembro de 2022 quando, no Rock in Rio, você puxou um coro de “Fora, Bolsonaro”. Dias depois, sob imensa pressão, você se desculpou: “Errei e desrespeitei alguns fãs. Não pedestal qualquer bandeira… Sou um eterno novel”.

João, a democracia moderna criou o voto secreto exatamente para não termos a obrigação de nos posicionar publicamente. Os autoritários querem não unicamente seu voto; exigem sua confissão pública. Se você quiser tutorar um candidato, vá em frente. Mas se quiser que unicamente a urna veja seu voto, saiba que esse é o ideal democrático. E digo mais: sou daqueles que acham que o nulo também é voto. Você não precisa resolver entre o pior e o péssimo, que se retroalimentam.

Sei que pesa sobre seu silêncio a querela de que você seria um “traidor do Nordeste”. Mas, João, o Nordeste não é um oferecido pronto. Ele está em disputa. Com seu voto individual, você não é mais nem menos responsável do que qualquer outro nordestino. Não arque sozinho com esse peso.

Lembre-se: vários artistas nordestinos foram acusados de “trair o Nordeste” no pretérito. Veja o caso do maior de todos nós, Luiz Gonzaga. O rei do baião fez campanha para Getúlio, cantou para JK, gravou jingles para Lacerda e Jânio Quadros e apoiou o regime militar. Candidatos e regimes díspares e conflitantes. Gonzaga cometeu equívocos, mas permaneceu uma vez que o gigante músico do Nordeste.

Elba Ramalho e Fagner fizeram showmícios para Collor em 1989; Dominguinhos cantou jingles das vitoriosas campanhas de FHC. Estes e outros mitos do Nordeste também foram chamados de “traidores do Nordeste”. E continuaram sendo gigantes.

João, a roda-viva da nomeada pode engolir até os mais sensíveis, uma vez que você. Se for melhor para sua saúde, não se manifeste. É um recta seu. Ninguém sabe pelo que passamos quando encostamos a cabeça no travesseiro à noite.

João, sou historiador. Uma das coisas boas de ser historiador é ter a nitidez de que tudo passa. Tudo passará. E saiba, meu camarada: o talento sobrevive às intempéries momentâneas.

Um amplexo respeitoso,

Gustavo Alonso


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Folha

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