Cartas inéditas de Euclides da Cunha abordam viagens e ABL – 22/09/2026 – Ilustrada
Os comentários eram cifrados, porém diretos. “Retirei-me daí rapidamente (…) por ver a forma estranha com que tratas tua mulher e filhos”, diz a epístola de dezembro de 1906.
O responsável da missiva é o quinteiro Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha, que se dirigia ao rebento, o repórter Euclides da Cunha, que morreria assassinado anos depois pelo amante da mulher.
“Pensei que o trato que tens tido com os homens inteligentes desta terreno, as viagens que tens feito e sobretudo os meus conselhos tivessem modificado a tua maneira de viver; mas, encontrei os mesmos destemperos, a mesma desordem de outrora”, continua a epístola.
“Embora não tratasse diretamente da traição da nora Anna, o pai, nas entrelinhas, revelava sua preocupação com o rebento, dizendo que já estava na hora de ele permanecer mais em vivenda, pois perambulava muito e o ponto já era divulgado na vizinhança”, diz o pesquisador Leopoldo M. Bernucci, que, ao lado de Felipe Pereira Rissato, enfrentou a árdua tarefa de submergir na correspondência do responsável de “Os Sertões”.
Iniciado em 2009, o trabalhou resultou na compilação de 1.608 cartas enviadas e recebidas por Euclides durante um período de 26 anos, de 1883 a 1909, das quais 918 eram inéditas em livro. O ávido projeto originou a publicação do dedo “Diálogo Epistolar de Euclides da Cunha”, disponibilizado pela Editora Unesp.
Se a literatura é o tema mais recorrente nas missivas, o material vem escoltado também de observações paralelas sobre ciência, política, história e questões pessoais.
“Entre os assuntos mais frequentes, está a ordenado preocupação de Euclides com sua instabilidade e a insatisfação no trabalho, além da frágil saúde, da perigosa instabilidade do regime republicano e das manobras políticas, no seu caso e de amigos e colegas, para se obter um lugar na Ateneu Brasileira de Letras”, aponta Bernucci, professor na Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos.
Intenso, impaciente e profundamente ideologista, Euclides era um intelectual inquieto, acumulando as profissões de engenheiro, militar, jornalista e pesquisador, em que unia rigor técnico e sensibilidade humana. A estudo da correspondência inédita permitiu a inclusão de novos dados para a biografia do repórter.
Por exemplo, o livro revela as complicações logísticas e o risco de vida que Euclides correu durante a sua viagem à região amazônica do Purus.
“Havia preocupantes tensões entre Euclides e o comandante da Comisión Peruana, Pedro Alejandro Buenaño, com a qual a percentagem brasileira viajou, digladiando-se por aquele longínquo e vasto território. Nas cartas inéditas e nas já publicadas, ficaram registradas as fortes discussões entre os dois chefes, que estão permeadas de desacordos substanciais e uma claríssima falta de consenso sobre certas resoluções a serem tomadas.”
Em uma notícia, Buenaño denuncia a escravidão de peruanos mantidos sob a tutela de brasileiros em seringais da região. “Em outra, Euclides relata uma revolta de soldados, deixados à extremo do rio. Também houve mortes por doenças tropicais, porquê malária”, conta Bernucci, lembrando ainda as cartas de teor sigiloso trocadas com o Barão do Rio Branco.
O portanto ministro das Relações Exteriores confiava no conhecimento de Euclides sobre cartografia e suas informações confidenciais o municiavam nas discussões que resultaram na anexação do atual estado do Acre, em 1903. “Rio Branco era atualizado sobre a reconfiguração daquela dimensão”, explica Bernucci. “São mensagens muito curtas, às vezes em forma telegráfica.”
A curso profissional, aliás, era aborrecida, com o repórter se queixando da sobrecarga e do tédio provocados pelo trabalho de engenheiro nômade que o obrigava a se sujeitar à enfadonha burocracia do funcionalismo público, exigindo centenas de cartas e ofícios.
A amplitude da correspondência permite ainda observar a diferença entre as falas do intelectual e as do cidadão geral. “Há o pensador ponderado, o estilista diligente, e também o missivista com o peito muitas vezes lhano, sem o controle emotivo imposto pela sua atividade cerebral e às vezes até descambado para o humor”, diz o pesquisador.
Com o repórter Plínio Barreto, por exemplo, a ironia está num jogo de palavras entre Paris e Purus. Já as cartas trocadas com o poeta Vicente de Roble revelam porquê ambos eram supersticiosos —porquê reforçou a Coelho Neto, Euclides reclamava de uma visão de uma mulher vestida de branco que o perseguia incessantemente.
Em uma missiva ao jornalista Domício da Gama, o repórter se queixa da reforma ortográfica de 1907 e, do jurisperito e crítico literário Alfredo Pujol, é meta de uma farra sobre seu novo estado “imortal”, depois de Euclides ter entrado para a ABL, em 1903. As disputas na liceu, aliás, ocupam muitas cartas, com Euclides e amigos negociando votos inclusive com Machado de Assis.
Curiosa é a inexistência de textos sobre o entrevero com Dilermando de Assis, amante da mulher de Euclides, Anna, e que o matou em uma troca de tiros, em 1909.
“Não há praticamente zero”, diz Bernucci. “Acredito que era uma forma de ele evadir dessa verdade. Unicamente o pai faz comentários velados, porquê se estivesse falando para um menino de 15 anos: ‘abre o olho, fica em vivenda, você tem percorrido demais’.”
A invenção de mais cartas é verosímil em locais não totalmente explorados, porquê o Registro do Estado de São Paulo, que guarda as missivas de Euclides quando engenheiro da Secretaria de Obras Públicas. “Seriam meses pesquisando por motivo da quantidade de material”, afirma o professor.
O material já catalogado resultaria em sete volumes impressos. “Por ora planejamos somente um, sobre o período do reconhecimento do Sobranceiro Purus. Dependendo da recepção, a editora pode pensar em mais”, afirma Jézio Gutierre, publisher da Instalação Editora Unesp.
É uma visão pragmática porquê a que Euclides tinha de si mesmo. Em uma epístola, assim se descreve: “Varão prático, massudo, enrijado nessa engenharia rude —não avalio as grandes abstrações dos sonhadores e as promessas enganadoras dos poetas”.





