Cassandra Rios terá romances eróticos lésbicos reeditados – 21/08/2026 – Ilustrada
É difícil imaginar que a primeira escritora brasileira a vender mais de 1 milhão de exemplares tenha derrubado no esquecimento. Mas foi o que aconteceu com Cassandra Rios —e o que a editora Relicário quer desfazer.
A editora firmou um contrato com o espólio da autora, conhecida pelos romances eróticos com protagonistas lésbicas, para republicar sua obra. Sem previsão de chegada ao mercado, devem ser publicados, a princípio, “Um Escorpião na Balança”, de 1965, e “A Santa Vaca”, publicado em 1984.
O primeiro a ser reeditado narra a história de uma mulher que abandona o nubente por outra mulher. À tendência de Rios, o êxtase do libido realizado logo se torna um drama sobre insulto emocional.
Até agora, os livros de Rios eram ponto de sebo, com valores que podem chegar aos três dígitos. Desde a morte da escritora, em 2002, as reedições de sua obra foram esparsas. Em 2005, a editora Brasiliense relançou três títulos —”As Traças”, “Delito de Honra” e “Uma Mulher Dissemelhante”—, todos esgotados, e, há dez anos, o grupo Azul Editorial reeditou “Eu Sou uma Lésbica”, publicado em 1980, também já esgotado.
Nascida Odete Rios em 1932, a paulistana publicou seu primeiro livro aos 16 anos, já sob o pseudônimo pelo qual ficaria conhecida. A obra foi rejeitada por todas as editoras que a receberam, mas Rios estava obstinada e foi trabalhar num escritório de advocacia para juntar o moeda necessário para sua publicação.
A família não gostou. À idade, uma boa moça deveria matrimoniar e ter filhos. O dissabor foi tanto que a mãe ofereceu remunerar pela publicação do livro. A autora topou, com a exigência de que ela não o lesse.
A revestimento da obra é dramática. Sobre o fundo, tomado por uma enorme cabeça masculina em tons de cinza, uma mulher loira, com um vestido plissado branco, agarra o quadril de outra, de cabelos negros curtos, vestido verdemar e pérolas no pescoço.
O título, “A Voluptuosidade do Perversão”, portanto, não deixa dúvidas da picância, e o teor prega a aposta. A estreia de Rios narra o envolvimento amoroso de duas vizinhas, ambas adolescentes. A amizade vira romance tórrido, com recta a dezenas de páginas carregadas de descrições de sexo.
Segundo Maíra Nassif, fundadora da Relicário, além de Rios ter posto as relações homossexuais sob um holofote inédito na literatura brasileira, ela via a mulher porquê ser desejante, não exclusivamente porquê objeto de libido.
O romance chegou às livrarias em 1948 e foi um sucesso estrondoso de vendas —a ponto de produzir uma demanda pelo trabalho de Rios, que pôde viver de sua escrita, coisa rara para a idade.
As vendas não impediram que a autora fosse claro de increpação. Numa entrevista a Jô Soares, em 1990, quando o talk show do apresentador ainda era exibido pelo meio SBT, a escritora relembrou a sua pena por atentado ao pudor, ocorrida em 1952. A romancista tinha portanto só 20 anos.
A pena de Cassandra Rios veio na esteira da publicação de “Eudemônia”, ainda no governo de Getúlio Vargas. A cena é recuperada no documentário “Cassandra Rios – A Safo de Perdizes”, feito por Hanna Korich e lançado em 2013.
A ditadura militar instaurada a partir de 1964 voltaria a reprimir Rios. Ao todo, a escritora teve 36 de seus romances censurados. Ela chegou a assinar um manifesto de escritores, movimento liderado por Lygia Fagundes Telles em 1977, mas teve seu nome retirado pelos colegas. “Fui posta de lado. Eu, a escritora mais censurada do Brasil”, disse a autora, na conversa com Jô Soares.
Para Joice Nunes, que fará a coordenação editorial da reedição, a retirada de seu nome foi um ato de injustiça e silenciamento.
Rios era bastante reservada em sua vida pessoal, mas não escondia sua sexualidade de ninguém. Ela era frequentemente vista com mulheres em restaurantes e levava namoradas para sua lar, no núcleo da capital paulista.
No documentário, a estrela da pornochanchada Nicole Puzzi, que atuou na adaptação cinematográfica de dois dos livros de Rios, lembra que havia patente tabu em ser vista com a escritora. “Ela sofreu as consequências de redigir um livro sobre sexo”, diz.
Havia, ainda, o vestimenta de Rios ser vista porquê uma autora popularesca. “Junta-se a isso o texto de subida voltagem erótica e já estigmatizado pela increpação. Ele chegou em sua idade duplamente estigmatizado”, diz Maíra Nassif, da Relicário.
Mas Rios foi, sem incerteza, pioneira em suas temáticas. Ela escreveu o primeiro final feliz numa relação entre mulheres e foi vanguarda na despatologização da homossexualidade. “Ela vai fazer isso muito antes de a homossexualidade ser retirada da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde”, diz Ana Júlia Prado, mestranda em literatura na Universidade Estadual de Campinas, no interno paulista, e perito na escritora.
Em “Eudemônia”, por exemplo, Rios retrata uma mulher lésbica que é internada num manicômio por sua orientação sexual, mas que insiste que não é doente.
A autora tem em generalidade com sua obra o termo trágico. Ela sofreu as consequências do estigma imposto pela ditadura e, mesmo posteriormente a democratização, não conseguiu retomar o sucesso de mercado que marcou sua curso.
Ela morreu aos 69 anos, vítima de um cancro no útero. Teve de vender seus carros e pertences e pediu moeda a amigos para remunerar as suas contas hospitalares.
Para Nunes, há patente siso de justiça na reedição de Rios. A Relicário planeja fazer uma “reinserção sátira”, segundo Nassif, e rechear as edições com prefácios de convidados e paratextos que contextualizem a obra e a autora.
Nunes traça um paralelo com movimentos atuais para criminalizar a Paragem LGBT em São Paulo e o momento em que Rios foi censurada. “O lema ‘pátria, família e liberdade’ daquela idade voltou com força. É um gesto grandioso de resistência essa autora voltar nesse momento. Ela foi censurada lá, mas cá ela não vai ser.”





