Chico Buarque e o desprezo pela autobiografia na MPB – 19/06/2026 – Gustavo Alonso
Chico Buarque, o gênio da raça da música brasileira, comemora 82 anos nesta sexta-feira. Além da obra magnânima no campo da música, Chico se destaca no campo literário. Ele já escreveu romances, peças de teatro, novelas, contos, verso e literatura infantil. Mas quando escreverá uma autobiografia?
Alguns podem proferir que Chico já escreveu sobre si e os seus familiares em obras uma vez que “O Irmão Teutónico”, no qual romanceia a vida de um fruto de seu pai fora do matrimónio. Há meias-verdades e muita imaginação na história lindamente contada no livro.
Um de seus últimos livros, “Bambino a Roma”, conta sua puerícia em solo italiano, acompanhando toda a família em período de estudos de Sérgio Buarque de Holanda na Europa. Mas também aí Chico se escora na literatura para não se ter com suas questões. Bem em memórias infantis, ele se esquiva de racontar períodos mais importantes de sua vida.
A autobiografia é um gênero consolidado no mercado literário pátrio. Mas, na música brasileira, pouquíssimos gênios da música brasileira se aventuraram a submergir dentro de si e se expor com sinceridade, construindo um texto com valor literário no mesmo nível de suas canções.
Caetano Veloso escreveu “Verdade Tropical” em 1997, um impressionante relato autobiográfico lindamente escrito. Nesta obra acompanhamos o baiano desde seu promanação até 1972, quando voltou do exílio, decretando o termo do tropicalismo. Caetano nos deve a prosseguimento de suas memórias.
Gilberto Gil publicou em 2013 o fraco “Gilberto Muito Perto”, em parceria com a jornalista Regina Zappa. Impressiona uma vez que, em 400 páginas de uma obra que tinha tudo para se tornar um guia autobiográfico do baiano, Gil e Zappa conseguem fazer um relato sem zero de inovador, somente pisando em territórios confortáveis e muitas fotos sem relevância maior. Um desperdício.
Djavan, que acaba de completar 50 anos de curso, é outro gênio da música brasileira que parece não estar muito a termo de racontar sua versão para a posteridade. Por sua vez, João Bosco completa 80 anos de idade em 13 de julho, e tampouco escreveu suas memórias. Roberto Carlos, que há anos promete uma autobiografia, não parece de vestimenta comprometido com a teoria.
Por que será que nossos gênios da música têm tanto susto de uma autobiografia sincera? Homens sensíveis, gênios da vocábulo, teriam todo o potencial para confrontar-se com o pretérito, brindando-nos com relatos interessantes para o entendimento da música e da história do Brasil durante suas longas trajetórias.
De todos os gênios citados, Chico é o que mais tem intimidade com a vocábulo escrita em formato de livro. No entanto, parece ter no compositor uma vontade de ser reconhecido somente uma vez que romancista. Fica parecendo que a autobiografia é um gênero menor, que bom mesmo é redigir um romance original, desconstruído, inovador.
Chico já foi homenageado com todos os prêmios possíveis por seus livros. Ele já ganhou três prêmios Jabuti e o Prêmio Camões, principal troféu literário da língua portuguesa, pelo conjunto da obra. Falta um assento na Liceu Brasileira de Letras, mas isso ele nem quer.
O motivo é familiar. Nos anos 1940, seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, assinou um manifesto comprometendo-se a nunca integrar a ABL em protesto contra a eleição de Getúlio Vargas. Chico considera esse compromisso uma legado familiar e já declarou que não tem interesse em ocupar uma cadeira na instituição.
Nossos ídolos fogem da autobiografia, e não por cansaço da idade. Todos estão ainda bastante ativos. Caetano, Gil, Djavan, João Bosco e Roberto Carlos seguem fazendo turnês celebrativas da curso, infatigáveis senhores de idade. Menos afeito à roda-viva dos shows, Chico continua ativo na literatura. Seria pedir demais um tempinho para redigir suas memórias?
Chico Buarque não está sozinho em seu desprezo pela autobiografia. Até nisso, ele é representativo de seus pares. Uma geração de gênios que parece fugir de si mesma. Uma pena. O Brasil da posteridade merecia ler suas memórias.
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