Como ‘Aquela que Restou’ de Rene Karabash chegou a prêmios – 15/10/2026 – Ilustrada
A escritora búlgara Rene Karabash passou anos procurando uma boa história. Um dia, encontrou inspiração do outro lado dos Bálcãs, na Albânia.
Deparou-se com fotografias de virgens juradas, nome oferecido às mulheres que fazem um voto de pejo e passam a viver socialmente uma vez que homens em suas aldeias. Eram imagens de “mulheres andróginas” que “pareciam homens idosos”, diz.
Tinha encontrado a história. “Decidi usar aquela situação radical para explorar as leis do patriarcado”, conta. “Queria falar sobre uma vez que o masculino e o feminino se refletem nos nossos corpos.”
O resultado foi seu romance de estreia, “Aquela que Restou”, de 2018. O livro tocou leitores na Bulgária, onde Karabash recebeu o prêmio Elias Canetti, um dos mais prestigiosos do país.
Neste ano, a tradução para o inglês foi finalista do Prêmio Booker Internacional. Em meio a todas essas loas, o livro sai agora em português pela Ercolano, traduzido por Amélia Bonfim e Rada Gankova.
Karabash narra a história da jovem Bekia e suas tentativas de satisfazer o pai, que preferia ter tido um fruto varão. Ela procura adotar os comportamentos socialmente esperados de um menino, mas sem sucesso.
A situação se complica com o matrimónio que a família arranja para ela. Para evitar o orientação imposto pelas tradições do vilarejo, Bekia decide fazer um voto de pejo e tornar-se uma “ostáinitsa”, ou seja, uma virgem jurada.
É uma prática antiga na região dos Bálcãs que permite que mulheres passem a ser tratadas uma vez que homens e gozem de direitos semelhantes a eles.
Não se trata necessariamente de uma transição física, mas de assumir um papel social masculino, com os direitos e as responsabilidades associados ao varão naquela sociedade, uma vez que o de chefiar o lar.
Elas também passam a poder carregar armas e usar relógios de pulso, explica Karabash. “É um jeito de as mulheres, que não têm muitos direitos nessa sociedade, conquistarem alguma liberdade.”
A prática não é generalidade e especialistas estimam que hoje existam exclusivamente algumas dezenas de virgens juradas na Albânia. Mas a possibilidade entusiasmou Karabash, pois permitiu que ela explorasse, na literatura, temas que lhe interessavam há anos.
Um deles era, inclusive, pessoal. A autora cresceu em um vilarejo búlgaro com tradições conservadoras, em uma família na qual era conhecida a enorme frustração de seu avô, que não teve filhos homens.
O livro esmiúça o que significa ser varão, mulher ou transgredir essas categorias naquela sociedade. Há também um debate sobre a sexualidade uma vez que fenômeno social, já que Bekia está, além de tudo, apaixonada por uma amiga.
Karabash, no entanto, não quer que o livro seja reduzido ao rótulo de “queer”. Não que o termo em si a incomode. Ela própria se define uma vez que uma mulher queer, durante a entrevista. “Mas essa é exclusivamente uma segmento de uma história maior”, diz.
Na sociedade que retrata, palavras uma vez que “gay” e “lésbica” talvez fizessem pouco sentido, afirma Karabash. Sugere que o mais importante está na discussão sobre as dinâmicas familiares, aquilo que está sob a pele de Bekia. Qualificar o livro uma vez que “queer”, diz, reforçaria a teoria de que esses personagens habitam outros mundos. “Prefiro proferir que somos todos iguais.”
Nessa chave, a escritora afirma perceber semelhanças entre sua cultura e a brasileira. Baseia-se na leitura de Clarice Lispector e, mormente, de Itamar Vieira Junior, do qual trabalho elogia. “Há um pouco de parecido. Eu me sinto muito próxima quando leio. É uma vez que se ele estivesse contando as histórias do meu vilarejo.”
Karabash diz que, mais do que o gênero e a sexualidade em si, uma das questões fundamentais de seu romance é o quão longe as pessoas se dispõem a ir em situações extremas.
A decisão de Bekia de se tornar uma virgem jurada é tomada nessa estado. A jovem sabe que, ao assumir o papel social de varão, está condenando sua família a um ciclo de vinganças no vilarejo, mas vai em frente.
“Estamos dispostos a sacrificar os mais próximos da gente para nos salvar”, diz. “Mas estamos nos salvando mesmo, quando os sacrificamos?”
No percurso do romance, a própria decisão de se tornar virgem jurada vai se transformando em uma cabo, em vez de entregar a liberdade com que Bekia sonhava. A performance da masculinidade a machuca e isola cada vez mais, conferindo camadas de dificuldade à trama.
Karabash destrincha essa dor em um texto incomum, com parágrafos que começam com letras minúsculas e frases que se repetem, quase uma vez que mantras.
“O livro me veio nessa voz”, diz, em tom parecido com o da própria narradora. “Eu exclusivamente recebi a informação. Gerar é um processo transcendental. Eu aceito ser o ducto pelo qual o poder criativo flui. Recebo essa núcleo pura.”
Karabash afirma também que o livro publicado foi, na verdade, seu primeiro rascunho. Escreveu o que veio a ela, ajustou algumas passagens e enviou ao editor —que, diz, mudou exclusivamente duas palavras.
O processo que a autora descreve é bastante inusitado. Escritores geralmente passam meses ou anos burilando os textos, que depois seguem por uma esteira de editores, preparadores e revisores. Muitas vezes o que sai no livro está distante da primeira versão.
No seu caso, diz, o romance já nasceu pronto. “Não digo isso porque seja o meu livro, mas acho que está perfeito. Se eu removesse algumas palavras, tudo entraria em colapso. Seria outra coisa.”
A técnica requer alguma paciência. Karabash diz que faz quatro anos que trabalha em uma teoria para um segundo romance, mas ainda não começou a redigir. Espera até que o texto lhe desça em sua própria voz. “O caminho criativo é igual ao místico. Depende do quão conectado consigo mesmo você está.”
Seu próximo livro deve se passar em um monastério e ter uma vez que protagonista uma refugiada síria. A tensão da história está, em segmento, na presença de uma mulher em um espaço proibido.
Karabash queria visitar o lugar por si própria, mas não pode. Tudo muito. “Minha protagonista vai no meu lugar.”




