Como Filho do Piseiro fez batida virar símbolo do forró – 15/04/2026 – Ilustrada
As instruções são simples. Primeiro, você imita uma baleia com a boca. Depois, “joga a sílaba ‘bu’”. Foi mal o cantor Rebento do Piseiro, fenômeno atual do forró, explicou em um vídeo viral sobre porquê fazer a sonoridade da batida da caixa da bateria, em frequência médio grave, que marca a maneira porquê o gênero é feito hoje para ser tocado nos paredões de som.
Desde a viradela do ano, Rebento do Piseiro despontou porquê um dos artistas mais ouvidos do país no streaming. Mas além de suas músicas terem estourado, ele ficou famoso pela destreza com que reproduz essa sonoridade seca e cortante com a própria voz. O “buh” —que pode também ser “tuh” ou “puh”—, virou febre porquê onomatopeia, símbolo de uma estética que vem se consolidando no forró há anos.
“Quando estou cantando, boto isso na música e é o que a galera gosta”, diz Everton da Silva, o nome de batismo do cantor. “O povo pede ‘faz o médio’. É porquê em ‘uma rapariga é bom, três rapariga é bom demais, buh, buh’. Aí pronto, foi o que consolidou.”
Ele se refere à música “Raparigas”, seu maior sucesso, ao lado de um medley de forrós antigos puxado pela cantiga “Meu Pai Paga Minha Faculdade”. Durante a entrevista, Rebento do Piseiro reproduziu com a própria voz o som do médio grave sem cerimônia, porquê se o instrumento estivesse dentro dele.
A abordagem é parecida com a que ele dá ao próprio quina, em que viaja por notas agudíssimas numa dinâmica acelerada de vai e vem. “É um suingue que parece uma sanfona balançando”, diz. “Tenho um trabalho de diafragma muito bom, uma resistência pulmonar. A galera acha que é só fingir que estou cantando, mas tem técnica. Vou na métrica da orquestra, imaginando que sou o fole de uma sanfona.”
O “amazonense mais nordestino do Brasil”, porquê se define, por ser rebento de cearenses e pela afinidade com a música da região, passou uns seis anos cantando em festas e eventos de Manaus, às vezes por oito horas seguidas, antes de despontar para a glória. Ele diz que começou a fazer o som do “buh” depois de ver os vídeos do influenciador Xandinho Médio Humano, o Boca de Médio Grave.
Carismático, ele encaixava o “buh” no repertório da idade, subjugado pelo piseiro de teclado de Barões da Pisadinha e João Gomes, além de sertanejos, arrochas e bregas, no esquema de voz e violão, às vezes com playback no sintetizador. Tudo mudou, diz, quando começou a mirar um estilo específico de forró, informalmente chamado de forrozão, em que o som do médio grave é dominante há mais de uma dez.
“Foi quando ouvi falar em em Junior Vianna, Forró de Qualidade, Claudio Ney & Juliana”, afirma o cantor. “Quando escutei, me apaixonei por aquela levada, porque é muito acelerada, é suingada, uma coisa que vem de mim mesmo, um balanço, um negócio.”
Com os três artistas citados, Rebento do Piseiro faz uma radiografia de sua estética —e também uma risca do tempo desse forrozão. Do primeiro deles, pegou o estilo de quina vai e vem que emula a sanfona; do segundo, os agudos sustentados no diafragma; e da dupla, a repartição das sílabas de um jeito veloz que carrega influência das emboladas.
Em geral, todos usam o som do médio grave para fazer suas músicas soarem muito nos paredões. É uma história que começa nos primeiros anos deste século —e por miragem.
As competições de som automotivo já eram uma cultura no Nordeste quando o grupo Lagosta Bronzeada lançou o álbum “Ao Vivo em Ipaporanga”, gravado no interno do Ceará, no ano 2000, em que a mixagem foi mal feita, dando destaque exagerado a certas frequências médias e graves.
É o que diz Robson Cavalcante, ou Rob Som, operário de paredões e um dos maiores especialistas em som automotivo do Ceará. “Aquele CD tem uma caixa de bateria muito retumbante na frequência 277 hertz, que o pessoal gosta muito. Quando bota no paredão, arrepia a pele da gente. Era uma caixa muito ‘na rosto,’ mas não era proposital, era um erro.”
Naquela idade, ele diz, os sistemas de som tinham mais caixas graves. Com o propagação dos rachas de som automotivo, passou-se a adotar mais cornetas, responsáveis pelos agudos. Por volta de 2005, Rob Som já começou a explorar um som mais projecto e encorpado, incluindo caixas de médio grave e tweeters. “Mas ainda tinha excesso de grave”, diz. “Dóia, tremia os peitos da gente.”
Em 2007, ele e Lano Gama, proprietário do Lagosta Bronzeada, participaram de uma competição tocando aquele CD da orquestra, especificamente a tira “Pétalas Neon” —uma versão em português de “Hero”, de Mariah Carey. Eles botaram o sistema de som para tocar logo depois de outro coche que se destacou com os graves, tocando um funk carioca.
“Tinha umas 5.000 pessoas naquele evento. E o que comeu o som mesmo foi o médio grave, tocando o nosso forró”, diz Rob Som. “A gente engoliu —aquela vozona encorpada e enxurro, com a caixa de bateria arrepiando o corpo do rosto todinho.”
A propagação dessa batida também aconteceu de maneira casual. Logo pintor na loja de som automotivo de Rob Som, o pirateiro —quem vende CDs e pen-drives com as gravações do forró— divulgado porquê Black CDs passou a gravar vinhetas com seu nome e a mexer nas músicas antes de vendê-las. Rob Som deu as instruções a ele, em hertz e decibéis, que ensinavam a realçar a caixa da bateria de maneira precária no computador.
O técnico de som Jordy Kennet, citado nas músicas porquê Jordy Produções, já pegou esse mercado com o bonde andando. Hoje uma referência nas gravações e mixagens do forró feito para paredão, ele decidiu refinar o trabalho que era feito de maneira simples por pessoas porquê Black CDs.
“Eles não pegavam o áudio cru, não criavam o áudio, só remixavam e colocavam em realização no mercado”, diz Jordy. “Alguns ficavam bons, já em outros não dava claro. A minha teoria era justamente fabricar alguma coisa que não desse inverídico. Pensei em edificar do zero.”
Ele se inspirou em Romim Mahta, cantor que se apresenta com a orquestra Forró Estourado e foi pioneiro em produzir discos com o médio grave em destaque, na viradela para os anos 2010. Na idade, diz Jordy, esse tipo de som não era bem-visto na indústria, sobretudo entre profissionais de estúdio. “Eles não aderem muito a essa teoria por encontrar que foge dos padrões. É distorção, meio que só rola em paredão e tal.”
Se firmou naquela idade uma tradição que, de diferentes formas, segue até hoje. O mainstream forrozeiro, formado por artistas de alcance vernáculo, porquê eram os Aviões do Forró, por exemplo, aderiu a esse estilo de mixagem em produções paralelas aos trabalhos principais.
Saíam duas versões dos CDs —uma voltada para o rádio e consumo rendeiro, e outra com os médio graves realçados para os paredões. Hoje acontece alguma coisa parecido no streaming, com a mixagem mais comportada indo para serviços maiores, porquê o Spotify, enquanto a agressiva chega ao Sua Música, plataforma brasileira popular no Nordeste.
Jordy fez seu nome trabalhando tanto com artistas de obra voltada aos paredões quanto produzindo essas mixagens paralelas, mas de maneira solene. “Se eu queria aumentar só a caixa, não tinha esse recurso na idade”, diz. “Agora posso trazer o projeto para o estúdio. Gravo em multipista [com cada fonte sonora em faixas separadas] nos shows e também direto no estúdio, depois faço a mixagem com calma para poder aprimorar.”
Com a evolução das tecnologias, passou a ser verosímil mexer em frequências e instrumentos específicos na mixagem, e os sistemas de som passaram a ter caixas próprias para dar conta dessas sonoridades.
“O grande diferencial hoje é o som ser todo divididinho e ter a flexibilidade de tocar vários ritmos musicais sem nenhuma perda na qualidade”, afirma o técnico de som. Para ele e para Rob Som, hoje os paredões feitos no Ceará são adequados para tocar qualquer estilo músico, porquê o funk de Rio de Janeiro e São Paulo. Há exceções, porquê Goiás, em que se ouve a música eletrônica internacional e o destaque fica nos graves.
Há murado de 30 anos, diz Rob Som, quando ele começou a trabalhar com os paredões, havia uns dois ou três CNPJs desse tipo de empresa no Ceará, que se tornou polo de confecção desses sistemas de som. “Hoje temos 1.800 CNPJs cadastrados somente cá no estado.”
Atualmente, um paredão de som tem sua estrutura dividida entre as caixas de grave, as de médio grave, os tweeters e as cornetas. Cada um desses grupos pode ter dezenas de caixas, que também podem variar de tamanho.
Rob Som mostrou à reportagem um sistema de mais de quatro metros de profundidade que está construindo. Eram 70 caixas de médio grave para 24 de grave. O projeto saiu por R$ 5 milhões.
“O grave é responsável por aquela pancada que você sente no peito, onde fica o contrabaixo”, diz Jordy. “O médio é onde sai a voz, o som da caixa [da bateria], a guitarra e a batida seca de conga que tem no funk. A tuba traz a agressividade, a sujeira do som, que dá dor no ouvido. É onde está a segmento subida, gritada da voz, além do acordeom e um pouco da guitarra. Nos tweeters, saem o som do chimbal [da bateria], o ‘S’ da voz e eles dão luz ao som.”
Nessa arquitetura sonora, artistas pop nem sempre se destacam. A pisadinha feita no teclado, porquê no caso de João Gomes, não soa tão muito no paredão, eles afirmam. “Não tem gravação pior que a de Nathanzinho Lima”, diz Rob Som, citando um dos mais famosos cantores de forró atual.
Por outro lado, nomes porquê Rey Vaqueiro e Forró Medôin estão em subida nesse rodeio. “Quando um disco toca muito em um paredão, é uma espécie de de um trabalho orgânico —ele se espalha por si só”, afirma Jordy.
Com a subida do som do médio grave, até mesmo vídeos antigos de Junior Vianna, um dos cantores que se destacou na dez passada com a chamada “caixa cachorro” —outro sobrenome para o “buh”— voltaram a viralizar na internet.
No YouTube, muitas faixas miram essa estética com títulos porquê “caixa alterada”, “lenhada de médio grave”, “lapada de médio grave” e por aí vai. Também é verosímil encontrar clássicos antigos dos Aviões do Forró nessa mesma pegada, com os nomes de “relíquias” ou “baú” —alguns com a vinheta de Black CDs.
Ainda hoje, Jordy conta que faz versões alternativas de músicas de gigantes do forró para os paredões, a pedido desses artistas, e remunerado por eles. Mas as músicas são publicadas somente em seu próprio ducto, e não nas páginas oficiais dos cantores.
Considerado sujo e ofensivo demais para o mainstream, esse forró de paredão com o médio grave em destaque agora ganha visibilidade vernáculo através de Rebento do Piseiro.
É uma mudança de paradigma para Jordy, que no término da dez passou chegou a cogitar desistir. “Não de fazer o que faço, mas de fazer disco para paredão, porque parei para pensar que nunca veria um álbum meu com essa caixa alterada tocando na TV ou numa rádio”, afirma. “Só que Deus é tão bom, e eu tinha tanta persuasão, que pensei ‘vou persistir nisso, vai dar claro’. Hoje o Rebento do Piseiro é prova viva disso.”





