Denise Milan abre mostra com pedras no Museu de Arte Sacra – 20/08/2026 – Ilustrada
Tinha uma pedra no meio do caminho. Mas a artista Denise Milan não queria desviar dessa pedra e seguir o caminho. A pedra é o caminho. Em sua novidade mostra, “Elementares”, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, as pedras são também a origem.
As paredes de uma das três salas da exposição são tomadas de impressões nas quais pequenas rochas se tornam bidimensionais e são expandidas para uma tela de 1,5 metro de fundura.
O resultado são imagens que remetem à concepção. Em várias cores e minérios, cada uma das imagens das pedras consiste num núcleo, envolvido por uma série de camadas de outros elementos. Em “Rudimentar IV”, o núcleo, rosa-coral e parecido com um cavalo-marinho, é envolvido por camadas de tons acobreados e cinza-grafite, até chegar à categoria mais superficial, de um lilás espinhoso. Outras dessas imagens parecem mais humanas, remetendo a figuras de fetos ou de santos.
Milan prefere o scanner à retrato para registrar esses minérios, porque, assim, a mediação humana se torna mínima. Para ela, os minerais devem ser tanto matéria-prima quanto narradores de uma história própria.
Pode parecer que a mostra, ancorada numa compreensão profunda das propriedades da material, destoe do resto do montão do museu, um macróbio mosteiro colonial construído no século 18. Mas a proposta de Milan é que há alguma coisa de sacro na natureza em si.
“A sacralidade da natureza pertence a todo mundo. Não é a minha religião, a tua religião, a religião dele. Os elementais trazem um solo que unifica, que é generalidade a todos os seres humanos”, afirma a artista.
Esse princípio fica evidente na obra “Cosmos”. Reservada do testemunha numa sala fechada, a pedra de murado de 30 centímetros de comprimento é visível por meio de uma lente, que amplifica seus detalhes, mesmo à intervalo.
O geodo de ametista tem duas camadas, uma externa de basalto e a interna, de ametista. A categoria cinzenta superficial é fina, porquê se fosse uma casaca de ovo. O interno da pedra é povoado pelas formações pontiagudas de ametista, em tons de roxo mais claros, perto da casca, e mais escuros perto do núcleo.
O geodo é criado a partir de bolhas de ar que se formam no magma. Milan as define porquê “um lugar de conflitos”. O quartzo e o basalto tentam entrar nessa bolha. Quem entrar, sobrevive. “É o ‘ser ou não ser’, de Shakespeare”, diz Milan.
No caso de “Cosmos”, quem entrou na bolha de ar foi o quartzo. Mas, dentro dessa caverninha violeta, habitam pingos de basalto.
A interferência de Milan na pedra foi mínima. O trabalho artístico é o de encontrar a material e ser capaz de entender qual é a narrativa ali. Em “Cosmos”, Milan aponta para os registros das tentativas do quartzo de adentrar a bolha de ar.
Na base da pedra, dois dedinhos de casca cinza se sobressaem, porquê se rumassem em direção ao coração do minério. São, segundo a artista, movimentos ousados, que conferem personalidade a essa pedra.
A curso de Milan é calcada nos pedregulhos desde os anos 1980. Em 1986, Milan expôs “Luzes” no Museu de Arte Moderna, o MAM, em São Paulo, uma série de obras com objetos porquê televisões, ventiladores e lâmpadas e luzes incandescentes.
Depois dessa mostra, durante uma visitante a seu ateliê, alguém propôs que ela trabalhasse com cristais. Eles eram, por fim, grandes condutores de luz. “Eu mesma não conseguia mexer nos cristais porque eles eram tão perfeitos que eu não tinha por onde entrar”, diz.
Assim porquê o pingo de basalto achou uma forma de habitar a caverna de ametista, Milan encontrou seu caminho das pedras. Sem desafiar a sublimidade que tanto a atraiu para os cristais, ela entendeu que sua interferência seria, antes de mais zero, o olhar.
O marco inicial de seu trabalho com cristais é 1988, quando expôs “Garden of Lights” no MoMA PS1, em Novidade York, a invitação de Laurie Anderson. Posicionados numa sala escura, Milan orquestrou seus cristais sobre estruturas luminosas de ferro.
Daí em diante, as pedras se tornaram a material primordial da artista. Numa de suas obras mais célebres, “Gruta de Maquiné”, exibida na 21ª Bienal de São Paulo, ela povoou uma fissura no solo com cristais e luzes.
Noutra, em 2006, exibiu seus “Entes Pétreos”, estruturas verticalizadas de ametista que remetem a pessoas.
O que rege o trabalho de Milan, e aparece escancarado em “Elementares”, é o que ela labareda de drama da material. Mas o drama, ela diz, “não é a polaridade. O drama não se resolve pela oposição. Ele se resolve pela simultaneidade”. Uma vez que um pingo de basalto que habita um mundo de ametista.





