Em livros, futebol é espaço de diálogo entre pais e filhos – 11/06/2026 – Ilustrada
É um clichê nos lares brasileiros a figura do pai torcedor, do qual maior libido é colocar a camisa de seu time de futebol no rebento.
Às vésperas da Despensa do Mundo, uma grande seleção de livros sobre futebol chega ao mercado brasílio, e três deles coincidem ao tratar desse chavão clássico: “As Regras”, de Lilian Sais, “Onar ‘82”, de José Roberto de Castro Neves, e “Ontem Vi Meu Pai Chorar”, de Luiza Romão.
O primeiro, um tanto entre autobiografia e autoficção, fala do luto em uma família que assistiu reunida a diversas Copas. O segundo é uma fantasia dentro de um romance, e o epicentro da história são os heróis injustiçados da Despensa de 1982, uma vez que Zico, Sócrates e Telê Santana. Já o terceiro, obra infantojuvenil ilustrada por Silvia Nastari, segmento do primeiro pranto de um pai diante da filha, provocado por uma rota de seu time.
“O futebol é um desses bens culturais brasileiros que são passados de geração para geração. Em uma sociedade patrilinear, essa teoria de linhagem é muito voltada aos homens”, explica Romão, que está desenvolvendo um doutorado sobre futebol. Mas cada um dos livros subverte as expectativas dos pais torcedores à sua maneira.
Neves imagina um rebento gay que admira o esporte, mas não se emociona uma vez que o pai, comentarista futebolístico profissional. Já Romão e Sais escrevem sobre filhas. A narradora de “Ontem Vi Meu Pai Chorar” joga futebol em um tempo em que mulheres eram proibidas de fazer isso. E a protagonista de “As Regras” desafia o pai ao escolher torcer para o time da mãe, um gesto inspirado na própria autora.
“Escolhi o time da minha mãe porque era uma maneira de expressar que ela, sendo mulher, sabia mais de futebol do que meu pai, um varão”, conta.
Nessas diferentes dinâmicas, o futebol ora é união e ora separação. Em “Onar ’82”, um rebento ausente do pai o presenteia com um livro no qual adota a linguagem do esporte para ser mais muito percebido.
Para esses personagens, a Despensa de 1982 é importante não pelo desempenho do Brasil —que saiu derrotado para a Itália—, mas pelo que viveram juntos quando o pai, adoentado, não pôde deter o evento e teve que observar aos jogos de morada, com o rebento.
Na morada de Sais, o pai usava o futebol para falar da vida. O título do livro “As Regras”, porém, não se refere exatamente ao esporte. A autora lembra que, quando teve sua primeira mênstruo, não conseguiu relatar ao pai. O que fizeram, portanto, foi observar a mais uma partida de futebol juntos.
Romão diz permanecer impressionada com uma vez que o futebol pode ser “reduto de uma masculinidade muito enrijecida” ao mesmo tempo em que é um dos poucos espaços onde a maioria dos homens se emociona.
“Em uma sociedade em que a masculinidade se constrói a partir do sufocamento das emoções e homens aprendem que não podem chorar, é também geral ver essas figuras muito viris se desfazendo em lágrimas nos estádios.”
“Ontem Vi Meu Pai Chorar” é fruto das reflexões de Romão sobre uma vez que o futebol poderia se tornar um espaço de ensino afetiva. Sua obra promove o encontro de dois tabus —o de homens que não choram e o de mulheres que não jogam futebol, ambos superados pela narradora e seu pai quando ouvem um jogo juntos.
Nos livros, a memória afetiva de observar a jogos com companhias amadas se sobrepõe aos dissabores da rota. Mas isso não quer expressar que os autores estejam abertos ao fracasso.
Quando fala da Despensa de 2026, Neves hesita sobre seu exaltação, mas confessa que, quando o jogo começa, é inevitável torcer. Protetor do pretérito, diz ainda que zero será uma vez que a “mística” Despensa de 1982 —impulsionada, segundo ele, pelo termo iminente da ditadura.
Já Sais, que afirma ter se ausente emocionalmente da seleção, parece mais oportunidade para o horizonte. “Quero ser convencida de que o futebol pode ser o que eu achava que era quando mais jovem.”
Romão diz que essa descrença no time brasílio masculino é resultado de um estágio avançado do “capitalismo esportivo”. Segundo ela, a indústria que produz superestrelas do esporte estimula o solidão entre jogadores e torcedores.
O que todos ecoam, supra de tudo, é a imprevisibilidade do que está por vir. O futebol, uma vez que diz Neves, é o campo das impossibilidades, em que o “imponderável” torna o jogo mais encantador.





