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Emmanuel Carrère vira febre entre os brasileiros 10/06/2026
Celebridades Cultura

Emmanuel Carrère vira febre entre os brasileiros – 10/06/2026 – Marcelo Rubens Paiva

Emmanuel Carrère é mais um responsável de autoficção a fazer sucesso por cá. E muito.

“Um Romance Russo”, um dos primeiros livros dele publicados no Brasil, em 2008, esgotou, virou raridade e ganhou novidade edição em 2024. A princípio, narra uma viagem trivial à Rússia. Mas acaba revelando um sigilo de família: o avô do responsável colaborou com os nazistas e se suspeita que foi executado pela Resistência Francesa.

A mãe de Carrère, Hélène Carrère d’Encausse, uma das maiores especialistas francesas em história da Rússia e da União Soviética, ficou furiosa. Parou de falar com ele. Morreu em 2023. Ela é a protagonista de “Kolkhoze”, o livro novo, que será lançado no Brasil em setembro pelo responsável, nos 40 anos da Companhia das Letras.

Foi “Ioga”, publicado cá em 2023, que transformou Carrère num fenômeno entre os brasileiros. Também deu problema. Numa primeira versão, ele escreveu sobre fantasias sexuais da ex-mulher, a jornalista Hélène Devynck, que já tinha recorrido à Justiça no divórcio para impedi-lo de redigir sobre ela. Outro nome associado à autoficção, o norueguês Karl Ove Knausgård, enfrentou processo movido por um tio ao expor conflitos familiares na série “Minha Luta”.

Autoficção mistura memória e invenção. Personagens são alterados. O narrador é o próprio responsável. Experiências reais passam pelo filtro da literatura. A fronteira entre indumentária e ficção fica borrada. Não surpreende que o gênero hábito terminar nos tribunais.

O gênero se parece muito com aquilo que sempre chamei de autobiografia. E escrevi quatro delas: “Feliz Ano Velho”, “Garotos em Fúria”, “Ainda Estou Cá” e “O Novo Agora”. Até hoje, sigo imune a processos. Mas será que também sou responsável de autoficção? Preciso contratar uma secretária de advogados? Enfim, em qualquer obra de arte, a experiência vivida é transformada. Memória e imaginação andam juntas.

Em “Um Romance Russo”, Carrère vai a Kotelnitch, uma cidade perdida no interno da Rússia, para filmar um documentário sobre András Toma, soldado húngaro tomado na Segunda Guerra Mundial e internado durante décadas num hospital psiquiátrico, porque ninguém entendia a língua que falava.

O jornalista convive com moradores simples, gente que bebe, governanta, sofre e sonha numa Rússia pós-soviética em colapso. Gasta uma riqueza em ligações telefônicas, porque sente saudades da namorada que ficou em Paris. É uma autoficção em estado puro.

Em “Ioga”, ele participa de um retiro de reflexão e descreve cada treino com minudência. Até receber a notícia da morte de um colega no atentado contra a revista Charlie Hebdo, de 2015.

A depressão o derruba. Ele é internado. Depois toma uma decisão improvável: vai para uma ilhota do Mediterrâneo repleta de refugiados sírios e afegãos para ensinar gaulês. Ou seja, se aproxima dos conterrâneos daqueles que assassinaram seu colega. Autoficção.

“Limonov”, de 2013, também será relançado no Brasil. Carrère escreve uma biografia. O personagem é um aventureiro ucraniano que atravessa a cena underground soviética, passa por Novidade York, ganha notoriedade em Paris e retorna à Rússia durante a dissolução do predomínio soviético.

Já “O Contendedor”, construído a partir da história de um facínora, é uma perturbadora reportagem em forma de livro. “O Bigode” e “A Colônia de Férias” pertencem ao território da fantasia. Todos serão relançados.

Carrère pode ser considerado um dos maiores escritores franceses em atividade. Sua obra é inquieta e versátil. Escreve romances, reportagens, biografias, memórias e roteiros —é coautor, com Olivier Assayas, do roteiro de “O Mago do Kremlin”, recém-lançado.

Seu livro mais recente publicado no Brasil, “V13 – O Julgamento dos Atentados de Paris”, reúne textos escritos para a revista L’Obs durante o julgamento dos responsáveis pelos atentados de novembro de 2015. Terroristas ligados ao Estado Islâmico, muitos deles jovens franco-belgas, atacaram simultaneamente a mansão de shows Bataclan, bares e os periferia do Stade de France. Cento e trinta mortos.

Carrère acompanhou o julgamento para observar o inimigo de perto. Queria compreender os autores da barbárie, ouvir feridos. Queria entender de onde vinha tanto ódio. Ao longo dos depoimentos, conclui que muitos jihadistas são fruto de uma sociedade que os rejeitou. Jovens humilhados, marginalizados, criados numa Europa que produz exclusão, racismo e ressentimento.

Isso não absolve ninguém. Mas ajuda a explicar.

Reduzir tudo a um confronto entre cultura e barbárie talvez seja inútil e intelectualmente raso. Carrère procura as contradições. Entender antes de julgar.

Talvez aí esteja uma das razões para escrevermos. Entender.


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Folha

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