Nem a escrita nem o tom das respostas deixam mentir. Quem escreve à reportagem, à mão, é Robert Crumb. “Eu tenho reputação de recluso? Você tem certeza disso? Escute, se eu fosse realmente um recluso, não estaria respondendo a estas perguntas. Na verdade, sou até bastante sociável. Tenho muitos amigos, ok?”, dizem as letras de forma, em grafite, muito coladas umas às outras.
Tão rabugenta porquê bem-humorada, a resposta vem do responsável que, desde os anos 1960, revirou a linguagem do quadrinho americano para expor não somente suas paranoias e taras mais sujas, porquê satirizar a sociedade de consumo sem piedade, porquê mostram os trabalhos de “Tempos Modernos”, coletânea recém-lançada pela editora Veneta.
A questão era porquê Crumb, hoje aos 82 anos, revê toda essa obra confessional e sem pudores, enquanto mantém, sim, uma aversão à exposição pública.
Enfim, o responsável, nascido na Filadélfia numa família pobre e disfuncional, refugia-se do sonho americano desde 1991 na comuna medieval de Sauve, no sul da França, a respeito de 750 km de Paris.
Não tem rede social, não usa internet, não vai com frequência a grandes eventos —quando veio à Flip, em 2010, mal saía do hotel— nem dá muitas entrevistas. “Não frequento bares ou cafés. Não vou a ‘baladas’. Não paladar de multidões. Não suporto música pop subida”, ele afirma, completando a lista.
Ao mesmo tempo, o responsável já abriu muito de sua intimidade para o mundo porquê estrela do documentário “Crumb”, de Terry Zwigoff, de 1994. Tampouco fecha as portas a jovens entusiastas que despertem nele a memória daquele rapaz franzino que, há quase 60 anos, vendia pelas ruas de San Francisco os primeiros números da “Zap Comix”, um marco do underground.
“Eu viajo, faço aparições públicas, estive em todos os lugares nestes últimos seis meses. Estou ficando em mansão por um tempo agora.”
Ele se refere aos eventos de divulgação da biografia “Crumb: A Cartoonist’s Life”, escrita pelo pesquisador Dan Nadel —um desses fãs obstinados que conseguiram se aproximar do artista para tentar decifrá-lo. O livro, fruto de um trabalho de sete anos, chegará ao Brasil pela editora Todavia, com tradução de Érico Assis, mas ainda sem previsão de lançamento.
Para alguns, Crumb é o artista mais influente de sua geração, o rabino que soube transcrever viagens de LSD, fantasias, neuroses e tabus da América em HQs estreladas por personagens porquê o gato Fritz, o guru Mr. Procedente e, muitas vezes, pelo próprio responsável.
Para outros, é um inimigo do feminismo, pervertido e passadista —só porque poderia passar o resto da vida ouvindo sua coleção de blues com milhares de 78 rpm dos anos 1920 e 1930, uma das poucas coisas que, porquê ele já disse, desperta nele qualquer paixão pela humanidade.
“Certamente deixei minha marca e uma grande rima de arte! Segmento disso me envergonha um pouco, segmento é impressionante até para mim”, afirma. “O que me envergonha mais, porém, é ler entrevistas antigas que dei ao longo das décadas, as muitas coisas estúpidas que disse, opiniões que disparei. Isso me faz perceber: somente desenhe e pare de dar entrevistas, porquê esta, por exemplo. Tomou um dia inteiro da minha vida.”
E isso porque o artista decidiu responder somente à metade das questões enviadas pela reportagem por email, esquivando-se de comentar, por exemplo, sua visão sátira da cultura “woke”, as acusações de racismo e machismo em sua obra e mesmo seus projetos futuros.
O ponto, para Crumb, é que não há incoerência. “Ser confessional e transparente no trabalho não é a mesma coisa que ser sociável, de gostar de transpor e passear.”
Fechado em seu estúdio, ele consegue, ainda hoje, se autoanalisar e mondar tantas angústias no papel, num ilustração tão hachurado e realista quanto cartunesco, conciliando Walt Disney, o estilo borrachento de um “Popeye” e as nojeiras da revista “Mad”.
Os trabalhos mais recentes de “Tempos Modernos”, dos últimos dez anos, exibem ainda um pincel mais sengo ao grotesco das coisas porquê elas são, tamanho o detalhismo, por exemplo, do topete do presidente Donald Trump numa história de título autoexplicativo: “Alimento ruim e penteado ruim destroem a cultura humana”.
“A tempo otimista do meu trabalho durou somente alguns anos, de 1965 a 1968. Depois disso, começa a permanecer sombrio e pessimista. Meu estilo de ilustração tornou-se mais realista ao longo dos anos à medida que lidava mais com a verdade humana cotidiana”, diz. “Talvez seja hora de eu voltar para aquele estilo mais cartunesco. Era mais fácil, levava muito menos tempo.”
Organizada pelo editor Rogério de Campos com a ajuda de Crumb e de sua agente, Lora Fountain, “Tempos Modernos” reúne exemplares desses diferentes períodos, incluindo colaborações com jornais ecologistas e anticapitalistas. Em generalidade, os trabalhos abordam sua suspeição da tecnologia, das modas e do sucesso.
Algumas delas são assinadas ao lado da mulher, Aline Kominsky-Crumb —uma artista underground pioneira— ou da filha do par, Sophie, também quadrinista.
Numa das mais antigas, de 1977, ele narra a cobertura de um simpósio sobre exploração espacial. “Saí cambaleando pela porta, com a cabeça girando depois de oito horas de mentiras, conversa fiada, propaganda e loucura que tinha concluído de suportar.”
Meio século depois, Crumb responde sobre o tema com minudência —preenche uma página falando de “antigravidade” e de tentativas de “engenharia reversa de discos voadores”—, mas sua visão apocalíptica mudou pouco.
“Virou um hobby para os obscenamente ricos” diz. “Agora temos uma classe de indivíduos que acreditam ser semideuses. Eles acreditam que sua riqueza sozinha lhes dá o recta de deliberar nosso direcção. Ouçam muito, boa gente! Levante é um estado de coisas muito perigoso!”
Ao comentar as bizarrices hoje produzidas por perceptibilidade sintético, ele adota o mesmo tom alarmista. “Estamos construindo enormes ‘data centers’ que exigem vastas quantidades de vontade e chuva para evitar que esses cérebros mecânicos superaqueçam e derretam!”
Muito do volume foi tirado também da revista “Weirdo”. Criada pelo artista em 1981, a publicação refletiu o clima punk da era e foi o lar de Mode O’Day, uma mulher obstinada a fazer segmento da panelinha artística de Novidade York. Foi na Grande Maçã que a curso de Crumb começou a deslanchar, ainda porquê assistente do quadrinista Harvey Kurtzman, mas logo ele quis intervalo da embrulhada de lá.
Dissemelhante de outras criações do responsável, Mode O’Day é muito menos conhecida do público brasílico, daí seu destaque em “Tempos Modernos”. Ela faz uma dupla inusitada com Doggo, um cão antropomórfico hippie, descrito porquê um “delinquente sexual” —um título não vasqueiro oferecido ao próprio Crumb.
Enfim, por trás do magrelo com óculos fundo de garrafa, sempre morou um tarado por mulheres fortes, que não hesitou em representá-las com coxas, nádegas e seios fartos.
Seu gosto sexual já foi tema, no país, de álbuns porquê “Meus Problemas com as Mulheres” e “A Mente Suja de Robert Crumb”, mas, no novo volume, ele aparece com uma ração de autocrítica —sobretudo nos trabalhos assinados com a esposa.
Os cartuns resumem muito uma relação que durou de 1978 até a morte de Aline, há pouco mais de três anos. Na biografia, Dan Nadel descreve a artista porquê uma parceira completa e protetora do marido, que soube edificar uma comunidade, em Sauve, que hoje ajuda a filha do par a cuidar do viúvo octogenário que mal sabe falar gálico.
Os cartuns mostram um par com o mesmo humor autodepreciativo e a mesma liberdade sexual, ainda que Crumb, mais velho, agora condene seus impulsos libidinosos do pretérito. Não à toa, é Aline quem tira sarro dos leitores numa cena em que ele, hipnotizado pela “bunda musculosa” da mulher, monta nela e brinca de cavalinho.
Mas eles não escondem suas discordâncias, porquê a reverência da Covid, conforme Crumb se recusa a tomar a vacina, ataca a mídia e o consenso científico.
Questionado, o responsável diz que é irônico que ele concorde em um pouco com figuras porquê Jair Bolsonaro, que desdenhou da vacina durante seu procuração porquê presidente do Brasil. Reforça, no entanto, que não é negacionista, fã de Trump ou do movimento conspiratório QAnon, e que, na França, muitos intelectuais de esquerda desconfiaram dos imunizantes.
Seu problema, diz, é com uma indústria farmacêutica “notória por sua falta de integridade”, que só tem olhos para os lucros.
Não por casualidade, a história que encerra “Tempos Modernos” fala da dificuldade do par com o moeda, depois a galeria de Crumb vender uma arte original de sua HQ “Gênesis”, de 2009 —uma adaptação leal ao texto bíblico— por US$ 2,9 milhões. Assustados com o montante, eles vão detrás de um consultor financeiro, que recomenda, curiosamente, investir em gigantes do agronegócio, farmacêuticas e afins.
“E os anos 1960, o LSD e tudo o que vivemos? Foi para zero?”, questiona Aline. No termo da mesma página, marido e mulher sobem ao terraço da mansão para observar os pássaros. “As melhores coisas da vida são de perdão. Não há solução!”, conclui Crumb nessa HQ de raras tintas coloridas.
Não é dissemelhante do que escreve nesta entrevista a lápis e borracha. “Ok, eu tiro sarro de mim mesmo, da minha paranoia, mas acredito nas coisas que digo. Minhas preocupações são totalmente genuínas. Mas, sabe, ao fazer quadrinhos, você tem que manter o entretenimento, tem que ver o contra-senso, a tolice principal de tudo isso. ‘Tudo é vaidade’, porquê diz tão sabiamente o livro de Eclesiastes no Macróbio Testamento. Amém, irmão.”
