Filme revê obra insubstituível de Fernando Coni Campos 08/04/2026

Filme revê obra insubstituível de Fernando Coni Campos – 08/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A primeira e insubstituível vantagem de “Cada um Vive Porquê Sonha” é colocar na roda, outra vez, a obra de Fernando Coni Campos. Muitos, porquê eu, passaram suplantado por ela. Outros, porquê Julio Bressane, Helena Ignez e o crítico Jairo Ferreira, o reconheceram desde sempre. Jean-Claude Bernardet e Cacá Diegues fizeram autocrítica depois compreender melhor o legado de Coni Campos.

A obra desse cineasta brasiliano precisa ser revista com urgência. Sua base, de certa forma, é reencontrar a inocência do cinema no exato momento em que ela parecia ter sido perdida. Coni Campos buscava uma forma de encontrar histórias, de encená-las, de trazer a trova —logo, a liberdade— onde imperava a rigidez. Chamá-lo de diretor experimental já é uma limitação. Pode até ser isso, mas não só.

Neste filme, os diretores Luis Abramo e Pedro Rossi buscaram alguns guias. O principal deles é Antonio Pitanga, ator mediano do cinema brasiliano e também um belo diretor. Cabe a Pitanga, encarnando Coni Campos, notabilizar o filme popular —aquele que o homenageado buscava— do filme de volume.

O popular, segundo o filme, é aquele feito de grave para cima, isto é, sem pressupor um palato popular, mas sisudo ao que vem da população. Já o filme de volume é feito de cima para grave, porquê que impondo um palato ao público.

Coni Campos resumia melhor essa experiência com uma parábola: a do mecânico que, com incrível habilidade, conseguia “tirar as nuvens” que atormentavam os olhos das pessoas. Porém, depois saber o que eram a catarata, as cirurgias, os nervos e os bisturis, não conseguia mais operar ninguém. Ou seja, saber demais pode bloquear a percepção.

A proeza cinematográfica de Coni Campos começa no coração de uma procura que pretende chegar a um reencontro com as origens: o seu “Viagem ao Término do Mundo”, que Bernardet e Diegue reconhecem não terem entendido logo de face. O filme-ensaio, na contracorrente do cinema da idade, apresenta um ritmo fragmentário e referto de interrupções, porquê as “Memórias Póstumas” de Machado de Assis, confrontação feita por Bressane.

“Viagem” talvez resuma a formação de Coni Campos, contador de histórias —que aprendeu com senhoras que o cercavam), leitor e cineasta. Dela vem a procura por formas capazes de retratar o varão brasiliano, em privativo o preto —nessa leitura, os pobres—, o que aparece em “Uma Nega Chamada Teresa” e com toda força em “Ladrões de Cinema”.

Desse último é preciso apresentar um resumo: uma equipe de cinema dos EUA tem o seu equipamento roubado no Rio de Janeiro por favelados, que levam o material para o morro e decidem fazer um filme sobre a Inconfidência Mineira. E fazem. Mas o seu filme é roubado pelos mesmos cineastas que eles haviam roubado no início.

Existe aí a astúcia do fraco, mas também sua arte. E depois a astúcia do rico, e seu poder. Eles estão nesse confronto, enquanto Tiradentes vai para a forca e os versos de alguns poetas clássicos brasileiros viram samba.

Isso vinha também de outra segmento da formação de Coni Campos: a recusa de permanecer em um escola católico, opondo, assim, sonhos e escolhas pessoais aos preceitos do cristianismo. A recusa expressava também o libido de escutar a sua própria voz e de encontrar uma linguagem pessoal para se expressar.

Nessa jornada ele levou com privativo apreço à teoria de liberdade. Não por contingência, sua obra acontece toda no período ditatorial. Não por contingência termina, em 1983, com “O Mágico e o Procurador”, história do representante que prende um mágico: o confronto entre ordem e libertação, o repressor e a imaginação.

Cineastas porquê Walter Lima Júnior e Ana Carolina avaliam que a morte prematura de Coni Campos, em 1988, de certa forma impediu a expansão de sua procura e até a compreensão de sua obra.

Hoje é mais fácil perceber o alcance de “Ladrões de Cinema”, não só pelo humor, mas pela relação profunda com a arte e o sentimento preto. Alguma coisa que Pitanga deixa simples, ao lembrar em sua própria formação, nomes porquê Malcolm X e Patrice Lumumba.

Para o preto, tratou-se, sempre, de encontrar uma novidade forma para sua história —e novos sentidos, simples. Para Coni Campos, de afirmar-se contador contra o muito narrar. Era artista de uma arte que definia porquê noturna: aquela que começa quando as luzes se apagam e que cada sujeito só encontra para sonhar com as imagens que vê.

“Cada um Vive Porquê Sonha” esquadrinha essa obra e vida muito ricas, com esforço e excitação: as dificuldades com a ditadura, a incompreensão, a originalidade, a incompletude. E mesmo as dificuldades para a existência e divulgação de uma série de filmes feitos, todos, sob regime ditatorial.

O trabalho solitário e exigente de Coni Campos, de visível modo, procurava recriar a própria inocência. É porquê se o mágico de 1983, de “O Mágico e o Procurador”, quisesse reencontrar as mágicas que George Méliès fazia quando o cinema mal havia nascido.

Folha

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