O cinema brasílio deste século viu a proliferação dos documentários, um pouco pelo sucesso crítico e mercantil de Eduardo Coutinho, um pouco pelas facilidades, ou menos dificuldades, de orçamento e editais.
Um filão compreensivelmente prolífico do gênero é o retrato biográfico de alguém ligado às artes, vivo ou morto, seja repórter, músico, cineasta ou coisa que o valha.
Passeando pelas memórias e escritos de Ignácio de Loyola Brandão, “Não Sei Viver Sem Palavras”, dirigido por seu fruto, André Brandão, é um filme muito mais quadro do que a obra do repórter. E, quando procura qualquer meandro, fica sempre ameaçado de transpor dos eixos.
Loyola é disposto numa cadeira no meio de uma terreiro ou na plataforma de uma estação ferroviária. Quando é filmado de frente, todo o fundo fica fora de foco, de negócio com a atual tendência de sonegar do testemunha boa segmento do espaço fílmico. Quando é filmado lateralmente, vemos o fundo perfeitamente.
Muitas fotos são mostradas no discurso do documentário biográfico. Belas fotos, históricas, contam muito do pretérito. A não ser quando é inserido um efeito que coloca movimento dentro delas. Ramal, indesejável deformação. Conta muito do mundo contemporâneo.
O filme é, em grande segmento, subordinado aos escritos de Loyola, às palavras sem as quais ele não sabe viver. Essas palavras podem nos levar a antigos filmes familiares em super-8, aos filmes que ele amava —de Fellini, Luiz Sérgio Person ou Anselmo Duarte—, ao promanação de seu fruto, às tenebrosas memórias da ditadura militar ou até a um passeio de coche por Araraquara, cidade onde nasceu.
O longa começa na abstração, com a captação, muito de perto, da correnteza de qualquer rio. Depois, uma catarata —porque “cinema é catarata”, dizia Humberto Mauro, numa teoria já muito repetida do cinema porquê um fluxo. Bons momentos são alcançados quando os escritos do responsável são narrados em voz off e ilustrados com imagens da natureza ou de filmes familiares.
Em conversas captadas ou recuperadas pelo fruto, Loyola fala de suas próprias obras. Do livro que escreveu a partir de uma temporada em Berlim, “O Virente Violentou o Muro”, de 1984. Da formação intelectual e dos enfrentamentos com a ditadura militar.
Fala de seus maiores sucessos, porquê o livro “Zero”, de 1975, censurado pelo regime militar e publicado só em 1979 no Brasil, ou “Não Verás País Nenhum”, de 1981, que se passa numa São Paulo do horizonte, onde coisas estranhas acontecem. Fala também de seu romance incompreendido, “Dentes ao Sol”, de 1976, seu preposto e o que menos vendeu.
Passa ainda por sua faceta de crítico de cinema. E pelas relações com seu pai e com seus filhos, e até mesmo pela possibilidade de “não repetir o pai”, conforme o fruto e diretor questiona, num interessante jogo entre pai e fruto.
Nos créditos finais, são mencionados os trechos usados de seus escritos, os filmes que tiveram trechos usados ou foram adaptados de suas obras, porquê “Anuska, Manequim e Mulher”, de Francisco Ramalho Jr., fundamentado num história do livro “Depois do Sol”. Poderiam ter mostrado “Bebel, a Pequena Propaganda”, de Maurice Capovilla, inspirado no seu primeiro romance, “Bebel que a Cidade Comeu”.
Loyola afirma que gostaria de ter sido diretor de cinema. Fazer sátira de cinema era caminhar um pouco na direção desse sonho. Calhou de ser repórter, mas na vida de um fundador, reunir frustrações é um tanto normal. Aquele que não as tem, quis pouco, provavelmente.
Uma teoria que fica perdida e merece ser resgatada é o entendimento de que a literatura é movida, entre outras coisas, por um perceptível libido de vingança. É interessante, porque o repórter pode tudo, inventa o mundo de negócio com seus desejos e pode projetar desafetos em alguns personagens.
No cinema, isso também pode ocorrer. E num filme feito por um fruto sobre o seu pai, não há porquê ignorar um perceptível libido de vingança. Não porque esse fruto não goste do pai, mas porque ao produzir o filme, ele detém, ou deveria paralisar, o controle sobre a imagem do pai.
O diretor é o fruto. O pai pode interromper um testemunho com um determinante “agora chega”. Mas o fruto escolhe o que vai mostrar e o que vai sonegar do testemunha. O fruto decide encher de música o filme, as notas brigando com a voz do pai. Os erros e acertos são de André Beltrão.
Se há uma fraqueza clara em “Não Sei Viver Sem Palavras”, é o indumento de ser convencional até nos excessos, porquê vários outros documentários biográficos que vimos nos últimos anos.
A força também é evidente: deixar transparecer o fascínio da arte de Ignácio de Loyola Brandão e sua tributo para a literatura brasileira do século 20.





