Por volta das 9h de uma terça-feira, quem passasse pela rua Mentor Ramalho, no bairro do Bixiga, na região meão de São Paulo, provavelmente ouviria o som de luvas batendo em um saco de areia, seguido por incentivos incansáveis de um professor.
“Mais rápido. Mão no rosto. Jab [soco]. Direto. Quatro retos. Gancho. Bora, sem parar. Rápido e potente”, repetia Wellinton Souza.
Zero incomum para uma lição de boxe. Exceto pelo vestimenta de que, ao lado de Wellinton, quem repetia “estou cansada” e “não aguento mais” era uma mulher de 73 anos que usava meias de compressão e um aplique de coque grisalho no cabelo.
Com uniforme e luvas azuis, dona Azul, porquê é conhecida a sergipana Maria Alaíde, fazia um de seus treinos semanais, que acontecem toda terça e quinta há mais de um ano no lugar.
Ela faz secção de uma iniciativa da Amuv (Associação de Mulheres Unidos Venceremos) e da Moradia Rabi Ananias para estimular a socialização e melhorar a autoestima de mulheres idosas do bairro.
“Apesar de ser um bairro meão e muito movimentado, a gente tem uma população grande de idosos, que não é enxergada porque não está transitando pelas ruas”, diz Wellinton.
O professor, convidado pela Amuv para formular um projeto direcionado aos idosos, fez um levantamento informal com movimentos sociais da região para entender as necessidades dessa população. A solidão e a falta de movimento apareceram porquê questões centrais.
Wellinton divulgou o projeto em espaços porquê o Núcleo de Convívio de Idosos da Paróquia Nossa Senhora da Achiropita. Foi lá que dona Azul aderiu à teoria.
“Mudou tudo na minha vida”, diz a sergipana, que em mais de 70 anos de vida nunca imaginou que aprenderia a dar um soco. “Sou outra mulher, parece que tenho 15 anos. Tenho mais força, mais coragem, mais ânimo.”
Batizado de Geração Nocaute, o projeto recebe no sumo 15 alunas por vez devido à limitação de espaço e verba. O professor faz o serviço de perdão, e as alunas também não pagam zero. A Moradia Rabi Ananias, meio cultural do bairro, cede o espaço.
Encerrado o treino, Azul começa o dia de trabalho. Porquê cuidadora de idosos, auxilia uma mulher de 77 anos. Apesar da rotina extenuante, diz se cansar menos desde que começou as aulas.
Ou por outra, conta, em seguida seis meses de treino sumiram os sintomas de artrite e artrose e as dores que sentia nos joelhos, ombros e mãos. “Nas mãos, os dedos estavam ficando tortos. Já não estão mais. Tem um defeitozinho, mas é menos”, diz.
Wellinton afirma observar benefícios em todas as alunas. “Muitas tinham problemas comuns da idade. Artrose, artrite, dificuldade para agachar, levantar o braço, andejar.”
O boxe, explica o professor, exige movimentos que fogem do oriundo: andejar com as pernas afastadas, recuar, usar mais o lado esquerdo. Isso força o cérebro a memorizar sequências e obriga quem é destro a acionar o lado que normalmente ignora.
O resultado é nítido, ele diz. As alunas ganharam coordenação motriz e estabilidade, além de conforto nas dores. “Trabalhando distensão, postura e movimentos conscientes, elas passaram a entender o próprio corpo”, afirma.
O boxe praticado por idosos tem potencial para melhorar também o condicionamento cardiovascular, a desembaraço e a força muscular, diz o profissional de instrução física Rondinei Silva Lima, coordenador do Grupo de Interesse em Atividade Física e Longevidade da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).
“O processo de envelhecimento vem com a subtracção de todas essas aptidões. O boxe traz ganhos em todas elas e costuma ser considerado uma atividade bastante completa”, afirma. Lima diz, ainda, que trabalha o esporte com pacientes com doença de Parkinson em diferentes estágios.
Além dos benefícios físicos, o profissional destaca o impacto do boxe na saúde mental. As aulas coletivas combatem o isolamento social, geral no envelhecimento, e geram tino de pertencimento.
“Elas [alunas de boxe] se sentem lutadoras. E quando a pessoa melhora o condicionamento, consegue ir ao supermercado sozinha, fazer as coisas em moradia sem ajuda. Tudo isso melhora o psicológico”, diz.
A autoestima das alunas aumentou ainda mais depois que elas participaram de um campeonato para alunos de boxe, em fevereiro. A intenção era que elas se sentissem mais confiantes em relação ao que tinham aprendido até logo.
Antes da competição elas fizeram uma série de exames com um médico pessoal. Segundo Lima, o ideal é passar pela avaliação de um profissional de instrução física ou gerontologia antes de iniciar a treinar. O maior risco, diz o educador físico, é cardiovascular.
“O boxe empolga, e quando a pessoa se empolga, ela costuma fazer com subida intensidade. A frequência cardíaca sobe, a pressão também”, afirma.
Leste era o susto de Wellinton no dia do campeonato —de que ouvir 300 pessoas torcendo por ela fosse emoção demais para Azul. Mesmo com susto, ela entrou no ringue e encontrou ânimo.
“Pensei: Vou meter o pau, se ela quebrar a minha face eu vou quebrar a face dela”, brinca. As oponentes, que eram atletas profissionais, não chegaram a testilhar as alunas de Wellinton e somente se defenderam.
Azul diz que se movimentar dessa forma a deixou mais esperançado em todas as áreas da vida. “Não adianta permanecer dentro de moradia fazendo crochê. Não, minha filha, não pode parar, não. Se parar, morre.”





