A imagem de Fabio Cannavaro erguendo a taça da Despensa do Mundo de 2006 sintetizava uma Itália no auge, campeã mundial e dona do melhor jogador do planeta, vencedor dos prêmios da Fifa e da Esfera de Ouro da revista France Football, depois de derrotar justamente a França na decisão por pênaltis.
Capitão da última versão que merece a epíteto de “squadra azzurra”, uma vez que os jornais italianos gostam de se referir à seleção pátrio, o jogador à idade na Juventus —contratado pelo Real Madrid logo depois do Mundial— simbolizava a identidade italiana, com resguardo organizada, emprego tática e jogo controlado.
Duas décadas depois, a Itália é quase irreconhecível atualmente. Nesta quarta-feira (25), a equipe liderada pelo técnico Gennaro Gattuso, ex-jogador do Milan e vencedor do mundo ao lado de Cannavaro, luta para evitar o prolongamento de uma agonia que, ainda sem que os italianos soubessem, teve início em 2014, na última aparição do país em uma Despensa do Mundo.
Ausente dos Mundiais de 2018 e 2022, a Itália está novamente na repescagem tentando evitar o fiasco de não conseguir se qualificar para a ampliada Despensa do Mundo de 2026, agora com 48 seleções.
O primeiro duelo é passar pela Irlanda do Setentrião, a partir das 16h45 (de Brasília), no estádio Atleti Azzurri d’Italia, em Bergamo. Quem passar encara no dia 31 o vencedor do confronto entre País de Gales e Bósnia e Herzegovina, que acontece no Cardiff City Stadium, em Cardiff, capital galesa. Só um deles vai à Despensa.
Em 2018, a Itália caiu na repescagem diante da Suécia. Depois, em 2022, foi surpreendida pela Macedônia do Setentrião.
Para quem viveu de perto o auge do futebol italiano, os fracassos recentes não são obra do contingência, mas resultado de mudanças estruturais que redesenharam o futebol europeu, principalmente o Campeonato Italiano, com consequências diretas na seleção do país.
Vencedor da antiga Despensa da Uefa (atual Liga Europa) na temporada 1997/98 pela Inter de Milão, Zé Elias vê nessa transformação um dos principais fatores para a queda de protagonismo da escol italiana.
Segundo ele, no pretérito, havia um limite mais rígido de atletas estrangeiros, o que obrigava os italianos a atuarem em superior nível e formava uma base sólida nos clubes. “Todos os clubes tinham uma base potente. Aí, entravam quatro, cinco estrangeiros no supremo, que elevavam ainda mais o nível”, afirmou à Folha.
A partir de 1995, esse cenário mudou. A franqueza para estrangeiros se ampliou —principalmente depois o Caso Bosman, que permitiu a livre circulação de jogadores da União Europeia— e alterou o perfil da liga. “Teve idade em que a Inter foi campeã sem ter um italiano em campo. Isso impacta diretamente a formação”, disse o ex- volante, atualmente comentarista dos canais ESPN.
Para o ex-jogador, a menor presença de jogadores locais reduz o desenvolvimento na base e explica a falta de grandes nomes formados “em moradia” no futebol italiano.
Se a última Itália campeã do mundo, há 20 anos, tinha o Milan, a Inter de Milão e a Juventus uma vez que base de seu elenco, será mais dificil reproduzir isso agora justamente pela perfil dos clubes.
De combinação com dados do site Ogol, especializado em dados estatísticos do futebol mundial, os elencos atuais das três principais equipes da Itália são formados, em sua maioria, por estrangeiros.
Com 33 jogadores em seu grupo, a Juventus tem 13 italianos (39,4%). No Milan, a presença é ainda menor, com nove italianos (30%) de um totalidade de 30 jogadores. Com mais opções em seu plantel, a Inter de Milão é o clube que mais se aproxima de um estabilidade, mas ainda com maior presença estrangeira. São 17 atletas da Itália (43,6%) e 22 do exterior.
Para Zé Elias, isso afeta a identidade da seleção italiana. “Você não tem mais aquela identidade clara. O jogador italiano vai para outras ligas, absorve outros estilos, e isso se reflete na seleção”, disse.
“Hoje você ainda consegue ver identidade na Espanha, um pouco na França. Na Itália é mais difícil. O time continua competitivo taticamente, faz o que o treinador pede, mas falta qualidade, personalidade nos grandes jogos”, acrescenta.
Regastar essa identidade foi a missão que Gattuso assumiu em maio de 2025, quando foi contratado para o lugar de Luciano Spalleti, deposto depois uma itinerário por 3 a 0 para a Noruega.
Com pouco mais de 12 anos de curso uma vez que treinador, mas já com passagens pelo banco de reservas de equipes uma vez que Milan, Napoli e Valencia, o treinador de 48 anos encara o jogo desta quinta-feira, contra a Irlanda do Setentrião, uma vez que o maior duelo que já enfrentou.
“Ainda sou jovem uma vez que treinador, mas tenho muito pelo que lutar. Nascente é o jogo mais importante da minha curso. Sinto uma vez que se tivesse um país nas costas”, disse.





