Livro sobre a Mostra de SP narra perrengues e sucessos – 13/10/2026 – Ilustrada
“Antes que Eu Me Esqueça” não é um calendário sobre a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, embora traga informações e bastidores para deleitar muito aos cinéfilos. Supra disso, o livro é um relato carinhoso e uma enunciação de paixão.
A Mostra está entrelaçada à vida de Renata de Almeida. Ela trabalhou na organização desde a 13ª edição, em 1989, e em seguida iniciou um relacionamento com Leon Cakoff, instituidor e diretor do evento.
A narrativa do livro, com um capítulo devotado a cada edição desde portanto, deixa evidente porquê o evento conduziu a jornada pessoal da autora, que passou a dividir a direção com o marido. O promanação de seus dois filhos e a morte de Cakoff em 2011, de cancro, aos 63 anos, são relatos emotivos, que ela relaciona com a dedicação ao trabalho.
Um exaltação aparentemente inexaurível acompanha sua tarefa de garimpar os melhores filmes do mundo e recrutar seus realizadores para viajar até São Paulo. Ela não arrefece nem diante de perrengues, que não foram poucos.
Financiamento para a cultura já é difícil de obter, mas a Mostra teve problemas agravantes, porquê Projecto Collor, dificuldades de liberar filmes na alfândega, cancelamentos de convidados em cima da hora e, evidente, a pandemia.
Tudo parece valer a pena com a consolidação de meio século de história, diante de um público leal. E, para Almeida, ficam as amizades construídas com dezenas de grandes cineastas.
Nos dias do evento, passou a ser geral encontrar diretores e atores na região da avenida Paulista. Fortuitamente, o jornalista que escreveu oriente texto ajudou o diretor iraniano Abbas Kiarostami a pedir moca e pão de queijo na rua Augusta.
Nesses 50 anos, muitos cineastas retornaram a São Paulo. Uma vez que Kiarostami, Manoel de Oliveira e Jia Zhangke. Emir Kusturica veio, trouxe filmes ao evento e, depois, retornou para um show de sua orquestra de pop cigano, Kusturica & The No-Smoking Orchestra.
Wim Wenders demorou para vir, mas em 2008 tomou conta. Selecionou 14 títulos para a programação, conversou com o público, distribuiu bom humor e trouxe seu filme mais recente à era, “Palermo Shooting”. Assim, uma “família Mostra” foi se formando.
E é desse contato que nascem muitas histórias saborosas que recheiam o livro. Uma vez que a vinda de Quentin Tarantino, em 1992, com “Cães de Aluguel”. Pouco espargido cá, passou muitos dias em São Paulo e assistiu a uma maratona de filmes. Emendava uma sessão na outra, e seus vizinhos de poltrona não podiam prever o porvir do cinéfilo sentado ao lado.
Outra boa história se deu na saída de um grande jantar, num restaurante paulistano. O ano era 1995, e o sítio ficou referto de táxis, com os convidados estrangeiros perdidos, sem saber porquê mourejar com os motoristas.
Logo a atriz francesa Anne Parillaud quis saber quem era o valoroso funcionário da Mostra que corria para todos os lados, ajudando os convidados a entrarem nos táxis, traduzindo as conversas. Era Walter Salles. Naquele ano, ele fazia segmento do júri. E é dele o prefácio de “Antes que Eu Me Esqueça”.
Essas histórias que a autora enumera já valem a leitura de suas memórias. Mas há um outro lado no livro que pode atrair bastante quem mexe com mercado cultural, até além do cinema. O leitor vai seguir a evolução dos métodos e ferramentas usados para erigir um evento tão grande.
Nos capítulos iniciais, os mecanismos para assestar a agenda dos convidados e a chegada das cópias dos filmes ao Brasil eram tarefas trabalhosas. Almeida relata coisas que não devem ser muito simples para o entendimento das gerações mais novas.
Sem internet, sem celular, a Mostra começou numa era em que essas negociações dependiam de telex, até o festejado surgimento do fax. Falar com produtores orientais significa trocar telefonemas caros e de difícil conexão às quatro horas da madrugada!
Almeida e Cakoff precisavam ir pessoalmente aos grandes festivais de cinema do mundo para negociar a vinda dos filmes que os interessavam. Evidente que, para quem está incumbido da missão, é um prazer enorme fazer uma viagem dessas. Mas, falando estritamente de negócios e prazos, hoje isso se resolve facilmente em conferências de vídeo.
Ao longo dos anos, o cinema, o mundo e as pessoas mudaram. Hoje, uma investigação do dedo de poucos minutos pode fornecer todas as informações possíveis a saudação de um novo filme.
A autora conta que, durante muito tempo, eles só conseguiram imprimir o catálogo já durante o evento em curso. Assim, frequentadores às vezes entravam na sala sabendo somente se tratar de um filme polonês ou húngaro, zero mais do que isso.
Na Mostra “raiz”, pelo menos em seus primeiros 20 ou 30 anos, entrar na sala para ver um filme chegava a ser uma aposta no escuro. E zero pode ser melhor para um cinéfilo do que desenredar um predilecto pessoal ou até mesmo uma obra-prima quando ele menos espera.





