Milei pode ter sido um erro na largada de Flávio Bolsonaro – 04/08/2026 – Wilson Gomes
Talvez Flávio Bolsonaro ainda não tenha calculado o tamanho do erro cometido na largada de sua campanha. Para repor à base bolsonarista o prazer de ouvir Lula e Alexandre de Moraes sendo xingados, trouxe a São Paulo Javier Milei, entregou-lhe o palco da convenção do PL e deixou que o prateado fizesse o serviço.
Milei chamou o presidente da República de ladrão e presidiário e tratou um ministro do Supremo porquê “lixo careca”. A plateia vibrou. Resta saber quem, além dela, foi conquistado.
A eleição presidencial tem tudo para ser um campeonato de repudiação, vencido não pelo candidato mais querido, mas por quem provocar menos aversão. Flávio e Lula lideram a lista daqueles em quem os eleitores afirmam que não votariam de jeito nenhum.
Numa disputa assim, a tarefa não é entusiasmar quem já lhe pertence, mas deixar de assustar quem ainda poderia aceitá-lo. Ou, dito de maneira mais crua, trata-se de diminuir o interino dos que tapam o nariz para votar em alguém de que não gostam exclusivamente porque têm verdadeiro horror ao seu concorrente.
Foi justamente nesse terreno que Flávio resolveu pisar com os dois pés. Para o núcleo duro do bolsonarismo, Milei ofereceu uma noite de catarse. Depois de anos de cautelas jurídicas e discursos defensivos, alguém voltou a um grande palco da direita para esculhambar Lula e Moraes com a desinibição dos velhos tempos.
O problema é que a base que se divertiu já estava com Flávio. Os votos de que ele precisa estão entre os que podem até não ter simpatia por Lula nem crédito no Supremo, mas consideram, no mínimo, de mau sabor que um presidente prateado venha ao país insultar autoridades brasileiras durante o lançamento de uma candidatura. Um patriota porquê Flávio devia entender mais de nacionalismo.
Secção desse eleitorado repreensão Lula, com razão, quando ele indica e apoia favoritos em eleições alheias. Não é fácil convencê-lo de que a intromissão deixa de ser imprópria quando o visitante é de direita, o candidato favorecido é Bolsonaro e os insultos agradam à plateia.
E, convenhamos, não é um bom momento para um candidato presidencial brasiliano ser visto de mãos dadas com Milei. Flávio não trouxe exclusivamente o histrionismo do prateado, mas o personagem inteiro, com suas crises, sua repudiação e suas contradições.
Poucos dias depois de proclamar a liberdade em São Paulo, o líder que transformou em marca registrada e em assinatura institucional o grito de guerra “viva la libertad, carajo” assinou um decreto que autoriza o Estado prateado a impedir a ingressão ou cancelar a residência de estrangeiros que dirijam “mensagens de ódio” contra argentinos por pretexto de sua nacionalidade, incitem violência ou ultrajem símbolos nacionais. Trata-se, evidente, do velho “exposição de ódio” da esquerda, com outra roupa.
O contexto torna o destinatário político pouco misterioso: os brasileiros são um meta. Depois da Despensa, deu-se, de vestuário, o “cancelamento” internacional da Argentina nas redes sociais. Ele começou com a exibição do mau comportamento dos jogadores da seleção e do racismo da torcida, mas acabou contaminando a imagem do próprio país.
Nas cordas diante da opinião pública, Milei se aproveitou da ressaca pátrio com a rota da seleção para aderir à tese de uma conspiração geopolítica dirigida contra a Argentina, que teria os brasileiros porquê protagonistas.
Declarou que “o lugar de onde vieram mais ataques foi o Brasil” e acusou os governos do Brasil e do México e o Partido Democrata americano de financiarem uma campanha mundial contra seu país. Zero foi demonstrado, mas pouco importa.
Logo veio o decreto —e vimos o mais libertário dos líderes mundiais da extrema direita contradizer o núcleo do que propagava. Num texto digno dos identitários progressistas, a identidade coletiva pátrio é declarada vítima de mensagens de ódio e o braço poderoso do Estado é convocado a policiar posts.
O presidente que atravessa fronteiras para insultar chefes de Estado ergue uma fronteira contra estrangeiros que insultem seu país ou o acusem de racismo. ¿Y dónde quedó la libertad, carajo?
Flávio imaginou que Milei lhe emprestaria ousadia, projeção internacional e a força transgressora de que o bolsonarismo tem saudade. Pode ter importado, junto com isso, a indisposição dos brasileiros com quem vem de fora insultar suas autoridades e a incongruência de um libertário que, incapaz de suportar as gozações depois a rota no campo e nas redes, recorre ao braço poderoso do Estado para punir torcedores. Não parece uma largada muito auspiciosa.
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