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Ricardo Terto nada de braçada em seu primeiro romance
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Ricardo Terto nada de braçada em seu primeiro romance – 04/08/2026 – Ilustrada

Ricardo Terto é um equilibrista. Em “A Fortaleza dos Homens-Borracha”, seu primeiro romance, se equilibra com perdão entre a discussão de temas sociais profundos e a fluidez de um gibi da Era de Prata —o período, entre os anos 1950 e o início dos 1970, em que os quadrinhos receberam possante influência da ficção científica e seus personagens passaram de arquétipos invencíveis a versões mais complexas e humanizadas de si mesmas.

A seriedade daquilo que é discutido no romance não lhe subtrai a elegância, tampouco o ritmo. Fosse alguém menos habilidoso, ou com a mão mais pesada, seria fácil incorrer nos três pecados mais ou menos recorrentes da literatura brasileira contemporânea: a solenidade afetada, o moralismo de ocasião e o didatismo.

“A Fortaleza dos Homens-Borracha” é construído porquê um mosaico de vinhetas, ou esquetes breves, sobre personagens da periferia de São Paulo, cujas vidas se encontram na interseção de episódios de traumatismo e violência. O fio condutor da história é uma reflexão sobre memória e luto, com tons farsescos de um filme de proeza idoso e aconchegante da Sessão da Tarde.

Há um texto de Antonio Candido em que ele recupera uma classificação interessante feita pelo crítico Almeida Salles. Para Salles, os escritores brasileiros se dividem em dois grupos majoritários: os “estratégicos” e os “táticos”. O primeiro é a turma que confia “menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso, mas seguro, dos recursos da sua arte”. Já o segundo é habituado a edificar “no primeiro movimento da inspiração”.

Pensando nessa tipologia, dá pra pregar que Terto pertence ao primeiro grupo. Em “A Fortaleza dos Homens-Borracha” não há uma vírgula a mais, uma termo que sobra, uma sílaba fora de lugar. É uma escrita precisa, sem gordura. Talvez não seja evidente numa primeira leitura, mas o humor é um negócio importante, talvez fundamental, ao longo do romance.

O ritmo da construção das cenas, a voz do narrador, enfim, tudo obedece à regularidade das sentenças que expressam a humanidade e a perdão dos personagens e de seus arcos. Por exemplo: “Passou um bom perfuminho também, porque, embora Silvia não queira ver ele nem pintado de ouro, ninguém nega simpatia pra alguém cheiroso.”

Ou quando descreve, através de repetições e enumerações, um bairro gentrificado e habitado por uma classe subida vagamente progressista de São Paulo. “Aquele bairro era bonito porquê um traçado de bairro, bonito, com grafites do Cartola tomando moca e poemas colados em árvores, bonito, com padarias muito iluminadas e sorveterias que se chamam gelaterias e têm sabores porquê paçoca, bonito, calçadas muito varridas e vegetalidade muito regadas cercando bares temáticos, bonito.”

A escrita de Terto opera num registro irônico muito pessoal: ela não é cáustica, não está a serviço da demolição do que quer que seja, mas, ao contrário, ilumina as nossas hipocrisias e contradições e, por contraste, celebra nossas imperfeições.

Quando vemos a filete “seja marginal, seja herói”, um clichê estético nos círculos bem-pensantes da mediocracia paulista e carioca, porquê um item decorativo da morada de um professor universitário, a observamos menos pelo que ela diz sobre ele, o professor, e mais sobre o efeito que produz na faxineira, que precisa se virar fazendo serviços de limpeza através de um aplicativo de serviços domésticos.

Em “A Fortaleza”, a reparo social coexiste em simetria com o humor de um escritor-esgrimista. O texto de Terto é o análogo literário ao que David Simon, o responsável de “The Wire”, imprimiu há anos na TV norte-americana: há uma tese sociológica e uma posição política discernível à intervalo, o que é meio que a poste vertebral da obra, mas, ao mesmo tempo, você se vê imerso numa construção de mundo não unicamente habilidosa, mas complexa, rica e, numa termo: humana.

Se você acompanha a literatura brasileira contemporânea com alguma atenção, provavelmente já conhecia a habilidade de Terto com narrativas curtas, contos e crônicas, especificamente. A boa notícia é que, também em seu romance de estreia, o sujeito exibe o mesmo domínio da escrita e também zero de braçada.

Folha

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