Minha literatura é mais corajosa que eu, diz Airton Souza – 03/07/2026 – Ilustrada
O noticiarista paraense Airton Souza conta que o tema de seu segundo romance surgiu dois dias depois da morte de seu pai, em 2015. “Eu estava dormindo quando senti ele me tocar. Portanto veio essa frase: ‘o mar é longe’.”
O pai, o garimpeiro Raimundo Gonçalves, 60, era um varão violento com os filhos e com a esposa, principalmente quando bebia.
Nos anos 1980, a família do noticiarista migrou do Piauí para Marabá, no interno do Pará, em procura do sonho do mina —tema do primeiro romance de Souza, “Outono de Mesocarpo Estranha”, vencedor Prêmio Sesc de Literatura e finalista do prêmio Oceanos.
Em 2013, Júlio Cesar Souza, irmão de Airton, foi morto a tiros na cidade, em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Tinha 33 anos. “O Estado brasílico nunca deu qualquer resposta”, diz o responsável, em entrevista. “Não houve investigação efetiva, julgamento ou prisões.”
Seus pais nunca se recuperaram da morte precoce do rebento. Maria Barbosa, mãe do responsável e de outros sete irmãos, morreu um mês depois do marido, aos 51 anos.
Poeta desde a mocidade, Souza se refugiou na literatura. Seu livro é, de certa forma, uma releitura dessa tragédia familiar, mas com enredo e contornos distintos.
“A minha escrita é mais corajosa do que eu”, diz ele. “Enquanto meu corpo tenta fugir da verdade para sobreviver, minha literatura vai para dentro dela e diz: ‘A gente precisa pensar sobre isso, a gente precisa recontar essa história e refletir sobre ela’.”
Ao longo do livro, o título se repete uma vez que pergunta: “O mar é longe?”. Essa romaria rumo ao oceano é protagonizada por dois irmãos que veem no mar um refúgio contra as agressões de um pai violento e homofóbico.
A história começa na pequena cidade de Rosário, no Maranhão, às margens do rio Itaperucu, onde o pai tira o sustento uma vez que pescador. Até que um sorvedoiro termina em naufrágio. A família sobrevive, mas seu meio de vida vai para debaixo do Itaperucu.
O pai culpa o rebento mais velho, Balta, pelo sinistro com o embarcação. As agressões se tornam insustentáveis, e os irmãos resolvem fugir, deixando para trás a mãe —também ela vítima da violência do patriarca.
“Por que ele nunca falou de paixão com a gente? Espero que um dia o pai seja urbano igual aos animais”, diz o narrador, o irmão mais novo. “Acho que ele vai me matar”, responde Balta, incessantemente xingado de “veado”, “praga” e “marica”.
O caminho do mar é percorrido a pé em estradas vazias e perigosas no interno do Maranhão. O livro é devotado a esses muitos brasileiros, diz Airton: gays, lésbicas e transexuais que vão parar nas ruas fugindo do preconceito e da agressividade no seio familiar.
“Coloco sempre a culpa na pobreza extrema”, diz o noticiarista, criado na periferia de Marabá. “A pobreza é uma grande barreira para o conhecimento e para a legalização.”
Airton Souza já fazia literatura antes mesmo de se tornar leitor de livros. “Escrevia poemas no caderno da escola. Era um escola muito precário. Não tínhamos entrada a livros, eu não tinha nem noção do que significava a vocábulo literatura ou o que ela era capaz de fazer na vida de uma pessoa.”
Criado uma vez que uma “máquina de trabalho desde cedo”, ele foi feirante, camelô e operador do jogo do bicho. Decidiu tirar o tardada literário com mais de 30 anos. “Comecei a ler num ritmo frenético para restabelecer o tempo perdido. Leio cinco ou seis livros ao mesmo tempo”, diz.
Airton depois se formou em letras, fez mestrado e doutorado. Foi professor da rede pública e, hoje, é responsável por um programa de formação de professores em Itupiranga, cidade sobre 50 quilômetros de Marabá.
Já sua livraria privado tem quase 10 milénio livros, segundo ele, comprados pela internet ou em viagens para feiras literárias. O ror é compartilhado com amigos e parentes, porque o entrada a literatura ainda é um repto para os moradores da região. “Marabá tem quase 300 milénio habitantes, e nenhuma livraria ou sebo.”
Se para seus personagens o mar surge uma vez que promessa de salvação, para o responsável a literatura funciona uma vez que um “contraveneno contra a perversidade”. “Ela é um caminho para a ternura, o paixão e a cumplicidade.”





