'Minha Melhor Amiga' leva 4 milhões ao cinema e vira desculpa perfeita para 'encontrão' de amigos
Diferentes grupos de amigos têm se reunido para observar a “Minha Melhor Amiga” nos cinemas.
Reprodução/TikTok
Assisti a “Minha Melhor Amiga” com nove amigos na semana passada. Nove. Ocupamos quase toda a fileira G de uma sala abarrotada de gente, num cinema de shopping no Recife.
Éramos uma pequenina excursão que, depois de um malabarismo danado para conciliar agendas, finalmente aconteceu.
Nossa patota se formou em momentos e lugares diferentes da vida: três deles conheci numa pelada de vôlei, um dentro da sala de lição e os outros cinco pelos corredores do escola. Não nos reuníamos todos assim havia muito, muito tempo.
Ao fundo, da esquerda para a direita: Gabriel, Maria Clara, João Samico, Júlia, Beatriz. Avante, Vinicius, Juliana, Felipe (eu), Leonardo e Hanna.
Pilha pessoal
Nas poltronas ao nosso volta, percebi outras “panelinhas” uma vez que a nossa: de formações e idades diversas (meus amigos estão na moradia dos 25-30 anos, enquanto a maioria dos outros grupos era formados por amigas mulheres que pareciam estar na moradia dos 40, 50).
Teriam elas também pelejado para conseguir fazer sobrevir aquele encontro?
Agora no g1
Filme já é uma das maiores bilheterias do cinema vernáculo
Dirigido por Susana Garcia e estrelado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o longa brasiliano já alcançou um grande feito: em somente três semanas em papeleta, entrou para o top 15 dos filmes nacionais de maior público de todos os tempos, segundo o jornal O Mundo. A bilheteria ultrapassa 4 milhões de espectadores.
Mônica Martelli e Ingrid Guimarães em cena de ‘Minha melhor amiga’
Divulgação
Nas redes, os “encontrões” de amigos (uma vez que o meu) parecem ter virado secção do fenômeno. Pelo menos é o que sugerem os posts que viralizaram desde a estreia do longa, em 3 de setembro.
Um deles, da criadora de teor Ana Louise Gadelha, flagrou seis senhorinhas indo juntas ao cinema em Fortaleza, no Ceará, para observar ao filme. “Pretérito com o lacre e a amizade das divas”, escreveu a blogueira. Nos comentários, uma seguidora acrescentou: “Na sessão que eu fui hoje tinham 2 grupos de senhoras, a coisa mais linda”. O vídeo passa de 4,4 milhões de visualizações.
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E não é difícil encontrar, espalhadas por aí, outras publicações nessa mesma risca: “Essa é a sensação de ir observar ‘Minha Melhor Amiga’ com a sua melhor amiga” ou “Oriente é um sinal para você observar ‘Minha Melhor Amiga’ com suas amigas”.
Post de uma pessoa que foi observar a “Minha Melhor Amiga” no cinema acompanhada de amigas.
Reprodução/TikTok/@vasconcelos
Glosa de uma internauta que conta ter ido ao cinema observar a “Minha Melhor Amiga” com outras sete amigas.
Reprodução/TikTok/Patrícia Pinho
Mônica, Ingrid e Susana Garcia estão de olho no movimento
E não é só sensação de quem está de fora. Ao g1, Mônica Martelli disse que ela e Ingrid Guimarães também têm escoltado de perto a reação do público.
“São grupos e grupos de mulheres, amigas, mães e filhas, cinemas fechados para amigos, casais, ônibus fretados com turmas, indo observar ao filme.”
Susana Garcia, diretora do filme e mana de Mônica, concorda. “Mulheres de todas as idades, adolescentes, ginecologistas, psicanalistas, todas falando sobre o filme e sobre a preço dos temas que ele traz. É a força da comédia para tratar de assuntos sérios”, defendeu ao g1.
Mônica Martelli e Susana Garcia juntas. Atriz e diretora de “Minha Melhor Amiga” são irmãs.
Reprodução/Instagram/Mônica Martelli
Perrengues chiques e reais
“Minha Melhor Amiga” acompanha Júlia e Clara, duas mulheres na moradia dos 50 anos que decidem viajar para a Europa depois de se despedirem das filhas, que vão para um intercâmbio.
O roteiro passa por temas uma vez que independência financeira feminina, vida amorosa depois dos 50, menopausa, libido, divórcio, maternidade… em uma sequência de cenas-esquetes inspiradas em causos e sufocos vividos pelas próprias atrizes. Vale aí a máxima de Ariano Suassuna de que tudo que é ruim de passar é bom de racontar.
Estão lá os “perrengues chiques” das viagens feitas por elas para Portugal e Espanha e até uma homenagem a Paulo Gustavo, um dos melhores amigos de Ingrid e Mônica. A morte do ator, em 2021, aproximou ainda mais as duas.
Em entrevistas, elas já falaram sobre uma vez que ter uma à outra naquele momento foi importante para transpor o luto e também para perceber ainda mais o valor do tempo que tinham juntas.
Sobre isso, transpor tempos difíceis, a atriz e escritora Maria Ribeiro costuma proferir que os amigos podem ocupar um espaço até maior que o da família. “Às vezes você não tem uma família ótima, e você não é obrigado a conviver com essas pessoas”, defendeu em podcasts.
Maria também é amiga de Mônica. As duas apresentaram juntas o “Saia Justa”, do GNT, por quatro anos. Em um dos aniversários de Martelli, Ribeiro chegou a redigir sobre a falta que sentiu de dar um amplexo na amiga pessoalmente: “Mas o amplexo está cá, em forma de post, e segue igual, resiste ao tempo, que é um paixão pra sempre”.
Maria Ribeiro e Mônica Martelli são amigas e já apresentaram juntas o “Saia Justa”, do GNT.
Reprodução/Instagram/@mariaaribeiro
‘Vamos marcar, sim, com certeza’
Esses desencontros, naturais da vida, também estão no filme. Júlia e Clara, as personagens, guardam segredos, dizem coisas que machucam uma à outra e chegam até a se alongar brevemente.
Talvez por isso o roteiro esteja “batendo” tanto nas pessoas, porque retrata uma amizade enxurrada de falhas, defeitos, desacertos: a única amizade verosímil. Até mesmo quando não há brigas, somente com a intervalo que a vida adulta vai impondo, de mansinho.
Sobre esse solidão que vai acontecendo quase sem a gente perceber, o colunista Pranav Jain escreveu no The Times of India. Na juventude, ele diz, a amizade prospera por conta do excesso de tempo. Depois, quando se “vira” adulto, as amizades vão se esfarelando à medida que o “vamos nos ver hoje?” dá lugar ao “desculpa, amiga, a correria tá muito grande”.
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É uma perda curiosa porque não exige necessariamente um rompimento. As coisas só vão esfriando, ficando para depois, para nunca mais.
E silenciosa porque, segundo ele, para as desilusões amorosas e os términos românticos, há uma renca de músicas, filmes, poemas e até simpatias que ajudam a dar conta. Mas quem ensina o que fazer quando você perde um colega que um dia conheceu a sua vida inteirinha?
Em tempos em que passou a “pegar muito” se gabar de ser ou ter um colega de “baixa manutenção”, não é vasqueiro que os vínculos sobrevivam somente por espiadinhas nos stories: acompanhando de longe uma viagem, o boysinho novo, a mudança de tarefa, de cidade.
Minha Melhor Amiga
Divulgação
“Minha Melhor Amiga” talvez seja essa desculpa perfeita: para mandar aquele WhatsApp para o colega que você tenta ver há tempos e nunca consegue. Para forçar esse encontro no meio do caos da semana com alguém que você sabe que pode deixar tudo mais ligeiro. É preciso fazer esse tempo viver.
Jain chamou isso de magnanimidade irracional. “A amizade sempre dependeu dessa disposição de desperdiçar tempo juntos de forma magnífica e de permanecer disponível, mesmo sem agenda”.
Cartela resenha sátira g1
Arte/g1
Fonte G1





