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Morte de Edgar Morin retoma a ousadia de pensar o
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Morte de Edgar Morin retoma a ousadia de pensar o novo – 30/05/2026 – Ilustrada

Edgar Morin, morto na última sexta-feira, foi um varão marcado pela curiosidade do saber, pela ousadia de pensar o novo e de produzir um mundo dissemelhante.

Atraído por muitas questões, foi um varão de muitas facetas. Foi um predecessor em muitas áreas, desde seu primeiro livro, aos 25 anos, em 1946, “O Ano Zero da Alemanha”. Com esse trabalho, o sociólogo francesismo —que escreveria ainda “A Sociologia: Do Microssocial ao Macroplanetário”, em 1984—, inaugura o que veio a se invocar a sociologia do presente. Pensamento que, no Brasil, atravessa a obra de Ana Clara Torres Ribeiro e tem celebridades nas ciências sociais uma vez que Alain Touraine, Michel Maffesoli, Zygmunt Bauman, Manuel Castells, Richard Sennett, Danilo Martuccelli e Saskia Sassen.

Entender a “complicação” do humano foi uma de suas paixões, presente em seu segundo livro, “O Varão e a Morte”, de 1951. E que continuou dez anos depois no livro “Introdução a uma Política do Varão”. Reflexões que só podem ser plenamente compreendidas quando atentamos para o indumento de que a sociologia francesa era marcada pelo estruturalismo, no qual o sujeito desaparecia.

Conforme a famosa frase de Claude Lévi-Strauss, as ciências sociais não servem para explicar o varão, mas para dissolver o varão nas estruturas. Teoria partilhada, entre outros, por Jacques Lacan, Louis Althusser e Michel Foucault, na primeira tempo. Era o pensamento dominante na quadra. Morin travou um grande debate em torno do papel do sujeito nas dinâmicas sociais da modernidade, o que trouxe perseguições e inimizades a ele.

Por outro lado, restaurar o papel do sujeito o conduziu a pensar a notícia, a cultura de volume, o papel do cinema e da música nos livros de 1956 —”O Cinema ou o Varão Imaginário”— e de 1962 —”Cultura de Volume no Século 20: O Espírito do Tempo”.

Ao mesmo tempo, embora pouco enfatizado, ele demonstra o protagonismo das mulheres, antes do feminismo dos anos 1960. Essa é a marca de seu livro de 1957, “As Estrelas: Mito e Sedução”. E essa tese do protagonismo feminino se consolida no seu primeiro estudo realizado uma vez que sociólogo do CNRS, o Meio Pátrio de Pesquisa Científica, numa comunidade da Bretanha, na França.

Ao final do estudo, Morin decidiu permanecer em campo enquanto os pesquisadores partiam, sob o argumento de que as pessoas falavam nos questionários o que os pesquisadores queriam ouvir, e ele queria escutar o que elas realmente pensavam. Suas entrevistas transcorriam em meio a jantares regados a vinho, obedecendo aos costumes locais. Suas observações e reflexões sistematizadas deram lugar ao livro “Commune en France: La Métamorphose de Plozévet” —ou comuna na França, a transmutação de Plozévet—, de 1967.

No ano seguinte, ocorrem as manifestações que vieram a ser conhecidas uma vez que o movimento de maio de 1968. E elas são analisadas num livro famoso que ele escreveu com seus companheiros da revista Socialisme ou Barbarie, Claude Lefort e Cornelius Castoriadis —”Maio de 68: A Brecha”. É uma reafirmação da sociologia do presente.

Essa abordagem retorna no livro do ano seguinte, “La Rumeur d’Orléans” —o boato de Orléans—, que analisa um caso real de histerismo coletiva relacionada ao antissemitismo, a partir de notícias falsas tratando do desaparecimento de mulheres em provadores de roupas em lojas pertencentes a comerciantes judeus. Essas mulheres seriam transportadas e vendidas a redes internacionais de tráfico de mulheres. Não havia qualquer denúncia nas delegacias.

Os rumores se alimentavam do antissemitismo medieval; as lojas vendiam roupas modernas para as mulheres —as minissaias, por exemplo—, portanto, para os mais conservadores, era um lugar de perdição. Nessa estrutura das mentiras, eram utilizados clichês típicos de cinema. Os rumores, na veras, eram manifestações do pânico e da angústia de pais em cidades grandes, onde conheciam o isolamento e o sentimento de estarem perdendo o controle de seus filhos.

Porém, o trabalho intelectual que se constitui na grande marca de Edgar Morin teve início na dezena de 1970 com “O Esfinge do Varão: Por uma Novidade Antropologia”, de 1973. Nele, Morin agudiza suas críticas ao estruturalismo que havia mutilado o ser humano, separando o varão de suas origens ecológicas, e denuncia o reducionismo característico da hiperespecialização da trajetória moderna da ciência, lançando as bases de sua obra maior, “O Método”.

Para Morin, o humano é uma trindade —que depois será ampliada. O humano é, simultaneamente, um ser biológico —é um bicho—; um ser social, criado e pai da sociedade, que só existe nela e por meio dela; e tem uma dimensão psíquica única, que nos dá a autoconsciência. O grande repto é vencer a disjunção que se faz entre as dimensões do humano, isolando todas elas. O humano é muitos num só. É um Homo sapiens, dotado de razão; um Homo ludens, aquele que brinca; um Homo economicus, que produz; e um Homo demens, possuído pela loucura, pela irracionalidade e pelo descomedimento. É tudo isso e não pode ser reduzido a uma só dimensão.

O livro “O Paradigma Perdido” marca o adentramento do filósofo na teoria da complicação. Esta é entendida uma vez que a tessitura de relações e agentes. Nas palavras de Edgar Morin, a complicação revela uma vez que as coisas estão ligadas, já que um pensamento multíplice é aquele que religa as partes do todo, sabendo que o todo é mais do que a soma de suas partes. Sinaliza uma teoria que será face a ele —o fenômeno da emergência, do novo.

Para o filósofo da complicação, um repto está posto —é preciso revolucionar nosso pensamento e a nossa forma de tirocínio. Desenvolveu, assim, a teoria da complicação, que tomou os seis volumes de “O Método”, publicados de 1977 a 2004 —”A Natureza da Natureza”; “A Vida da Vida”; “O Conhecimento do Conhecimento”; “As Ideias: Habitat, Vida, Costumes e Organização”; “A Humanidade da Humanidade: A Identidade Humana”; e “A Moral”.

O primeiro volume saiu nos Estados Unidos, pelo Salk Institute, onde ele estudou biologia, física, química e teoria dos sistemas, para melhor entender o mundo. Junto com o segundo volume, são seus dois melhores livros. O último foi escrito às pressas, sem o embasamento dos anteriores. Em grande segmento, porque Morin temia morrer antes de terminar.

Os temas de sua obra foram objeto de considerações complementares e textos de vulgarização. O primeiro desses livros foi publicado ainda em 1990, “Introdução ao Pensamento Multíplice”, no qual os três princípios fundamentais da complicação são apresentados de forma didática —o dialógico (o oposto pode ser concorrente ou complementar), a unidade recursiva (os efeitos e os produtos são, ao mesmo tempo, causadores e produtores daquilo que os gerou) e o hologramático (não só a segmento está no todo, mas o todo está inscrito em cada segmento).

O segundo caminho nasceu com seu livro de 1999, “A Cabeça Muito-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento”, no qual prega a urgência de romper com o reducionismo, com o pensamento linear, e isso só pode ser feito por meio de uma reforma do pensamento, que implica outra da instrução. Um invitação da Unesco será a oportunidade de exprimir, de forma mais didática, suas proposições que estarão no livro de 2000, “Os Sete Saberes Necessários à Ensino do Porvir”.

Educar para o horizonte exige, primeiro, ensinar o que é o ato de saber e uma vez que desenvolver a lucidez sátira, conhecendo os riscos do erro e da ilusão. Nossas ideias devem estar contextualizadas, interligadas com as partes do todo, e não isoladas. É necessário recolocar o varão no meio do interesse do conhecimento, pois somos um ser biológico, cósmico, psíquico, cultural e histórico. É principal saber a crise planetária que vivemos, pois hoje temos uma consciência melhor de que somos todos passageiros de um mesmo planeta.

É preciso ainda enfrentar as incertezas, educar para o inesperado, nas suas palavras. Ensinar os jovens a navegarem num mar de incertezas através de arquipélagos de certezas. Ensinar a compreensão das diferenças, com a postura de tolerância em face da alteridade. E, por término, desenvolver uma moral complexa —autonomia e responsabilidade individual, aderência à democracia e a solidariedade não unicamente com os humanos, mas com todos os seres vivos do planeta.

São os saberes necessários para os indivíduos aprenderem, interiorizarem e transformarem em atitudes para enfrentar um mundo cada vez mais repleto de incertezas, de ameaças e de desesperança. Em sua última entrevista, Morin disse “duvido da humanidade, mas acredito na humanidade”.

Folha

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