Vamos supor que você queira disputar uma eleição presidencial numa situação em que quase metade do eleitorado diz que não votaria em você em hipótese alguma. O país está ávido por mudança, mas esta é a sétima vez que você concorre ao mesmo missão.
É verdade que seu rival tem repudiação semelhante. Mas há uma diferença importante: é você quem governa o país. É de você que se cobram os problemas que continuam sem solução e as coisas que as pessoas acham que um governo deveria entregar. Para piorar, há mais brasileiros avaliando negativamente a sua gestão do que aprovando-a.
Por outro lado, você tem um público leal, em torno de 30% do eleitorado, e pode somar mais uns 15% com simpatizantes. É um cacife eleitoral suficiente para você não ceder o seu lugar para outro companheiro, caso não queira, apesar da fadiga de material e do enfado com mais uma campanha.
Diante dessas condições, qual seria o caminho mais seguro para perder a eleição?
Um bom primórdio seria convencer-se de que você vai lucrar a eleição porque é o mais merecedor —considerada a sua história, o seu legado em outros mandatos e os seus valores. Ou de que o rival não merece ser eleito porque não reúne qualidades comparáveis com as suas. Estabelecido isso, dedique a campanha a mostrar sua trajetória e tutelar seu legado, forçando o seu sufragista a olhar para trás, sem se importar com o que ele sente no presente nem com o que teme do horizonte.
Não busque entender quem já disse que não gosta de você. Desconsidere suas razões se elas não refletirem os seus valores, suas prioridades ou a agenda do seu grupo. Parta do pressuposto de que os eleitores têm que aceitá-lo porquê é.
Não busque entender o mundo ao volta. Limite-se às suas crenças sobre o que as pessoas precisam e o que consideram urgente. Acredite que zero há mais que você possa aprender com outros pontos de vista, outras situações existenciais ou, até, com quem adota valores muito diferentes dos seus. Cerque-se de amigos que pensam exatamente porquê você, afaste-se dos que o desafiam e, sobretudo, nunca teste as suas ideias no atrito com pessoas que pensam diferentemente ou não gostam de você.
Desconsidere quem prefere o seu rival e adota perspectivas opostas às suas. Numa eleição polarizada, com dois candidatos sustentados por eleitorados enormes, não vale a pena se rebaixar a ponto de ouvir e respeitar essas pequenas faixas de cidadãos que ainda poderiam mudar de lado. Posto que sua oferta eleitoral é moral e intelectualmente superior, quem não a reconhece certamente padece de qualquer defeito de informação, perceptibilidade ou caráter. Chame-os de feios, sujos e malvados —não trará votos, mas será um bom-humor para os seus.
Fale dos assuntos que todos já reconhecem porquê seus: programas sociais, pobreza, desigualdade, minorias, justiça social. Quanto aos temas que não fazem secção do repertório tradicional do seu campo, não se atormente. Mudanças no mundo do trabalho, produtividade, política industrial, contas públicas, propagação econômico, empreendedorismo ou desesperança juvenil podem esperar.
Evite assuntos em que seu grupo costuma ter respostas menos convincentes: segurança pública, violência urbana, prevaricação ou o desgaste político e moral do Supremo. Não se preocupe em desenredar quais são realmente os principais problemas nacionais na cabeça dos eleitores. Tente distraí-los com os seus temas prediletos. É importante que você suponha que todos os cidadãos compartilham o repertório e a linguagem do seu grupo ideológico.
Por termo, faça você mesmo sua notícia eleitoral. Não dê muita preço a pesquisas qualitativas, profissionais especializados ou estratégias diferentes para públicos diferentes. Se você já conhece o país, compreende o povo, domina a política e sabe do que os cidadãos precisam, por que alguém haveria de saber melhor do que você a mensagem capaz de convencê-los?
Creio que esse seja um manual confiável para o fracasso eleitoral. Mas é também uma prelecção para quem precisa convencionar o passo. Não se ganham eleições unicamente porque se acredita ser o mais merecedor, nem os eleitores têm obrigação de votar em quem julgamos melhor.
Se é preciso virar um jogo que se está perdendo, o sufragista decisivo é justamente aquele que não fala sua língua, não compartilha suas prioridades nem sequer gosta de você. É provável desprezá-lo, corrigi-lo ou tentar, arrogantemente, educá-lo.
Só não convém olvidar que será preciso entendê-lo antes de tentar convencê-lo e respeitá-lo antes de tentar mudar o seu voto.
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