Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

'O Outro Lado das Redes' discute o poder de Zuckerberg
Celebridades Cultura

‘O Outro Lado das Redes’ discute o poder de Zuckerberg – 14/10/2026 – Ilustrada

Se há uma prelecção que o cinema de Hollywood nos oferece, é a de que não há premência de o testemunha entender tudo o que acontece na história. Pelo contrário. Enquanto ele se pergunta sobre certos aspectos de compreensão mais difícil, ou até incompreensíveis, a trama se desenvolve sem maiores preocupações; mas o que há de intrigante já interessou a quem vê o filme.

“O Outro Lado das Redes” é réplica quanto a isso. O que temos ali é a história de uma engenheira de dados do Facebook, Frances Haugen —papel de Mikey Madison— e do jornalista Jeff Horwitz —Jeremy Allen White— que, em determinado momento, se opõem a ninguém menos que Mark Zuckerberg —Jeremy Strong—, o poderoso possuidor do Facebook.

O que há de pessoal cá é que Frances não só trabalha no Facebook, porquê é entusiasta de suas atividades. Seu problema é a curiosidade. Quer saber por que tais e tais coisas acontecem. Por exemplo, por que uma antiga amiga, que era uma moça liberal, no espaço de quatro anos aderiu de coração à extrema direita, foi invadir o Capitólio em Washington?

Nisso aparece o repórter, tão por fora do mundo que não sabe nem porquê usar um GPS. O recurso é ótimo, porque permite que boa segmento dos espectadores se sinta um pouco superior ao jornalista. E também se dispõe a admitir, porquê ele, as explicações técnicas que recebe ao longo da trama.

A engenheira percebe que o Facebook prioriza a subida lucratividade em relação à segurança dos dados de seus usuários. Uma série de operações a leva a concluir que convém ao Facebook deixar que o ódio transite livremente pela rede: ele engaja muito mais do que outras formulações.

A trama se desenvolve essencialmente de 2019 a 2022. Um longo trajeto, que envolve um suspense guardado. A cada progressão nas investigações, Frances e Horowitz deparam-se com perigos. Frances, sobretudo, porque trabalha na empresa e, anônima, é manadeira preciosa para o jornalista.

Ao mesmo tempo, vemos uma equipe de especialistas em formação de imagem espremendo Zuckerberg, preparando-o para eventuais debates sobre o tema. Tentam impedir, por exemplo, que sua imagem pareça arrogante —embora esta seja uma boa termo para definir sua postura.

Tentam apertá-lo de todos os modos, e, no término, o que ele defende mesmo é a velha teoria de que não é preciso repreensão, a liberdade tem que ser totalidade e os usuários são pessoas racionais que saberão escolher. E o faz sem deixar a arrogância de lado —um filme precisa de vilões.

Outro ponto interessante de Zuckerberg é a premência de satisfazer os investidores. No que dá lucro, não se mexe, sob pena de bancarrota ou, ao menos, de deposição do superintendente.

Os dois pontos essenciais que o filme pretende abordar conseguem transmitir ao testemunha, dentro da linhagem liberal do cinema americano. Primeiro, quanto maior a liberdade presumida do usuário, menor sua liberdade efetiva e maior o controle que a rede pode trenar sobre ele. E não é só uma questão de lucro, porquê pretende Zuckerberg, mas também de poder, de controle sobre os hábitos e sensações do usuário.

Contra o filme, pode-se esgrimir que Aaron Sorkin serve-se de um meio prestidigitador por primazia —o cinema— para denunciar o prestidigitação da política e dos negócios nos Estados Unidos.

Pode ser. Mas admita-se que, assim, ele garante para si um público liberal —ou de esquerda— e vincula-se a questões justas e universais —porquê admitir que os algoritmos controlem nossa vontade? Ao mesmo tempo, reafirma o jornalismo porquê um lugar de verdade num mundo regido, é o que se depreende, pela fantasia e pela ilusão criada pelas redes.

Aaron Sorkin —que foi roteirista de “A Rede Social”, de 2010, pelo qual ganhou um Oscar— desta vez trata dos fundamentos desse negócio e, tanto no roteiro porquê na direção, opta pela eficiência em lugar da exuberância. E será difícil expressar que se sai mal.

Numa questão de natureza intelectual, imprime um ritmo rápido, nervoso, de modo a não deixar que o testemunha seja apanhado pelo tédio em que a compreensão perfeita do enredo poderia mergulhá-lo. Nós, espectadores, por vezes preferimos também crer mais do que compreender.

Sorkin tem na atriz Mikey Madison um pedestal notável. Ela foi muito hostilizada no Brasil —nas redes sociais, justamente— por ter ganhado o Oscar de melhor atriz no ano em que também concorria Fernanda Torres.

Houve quem dissesse que deram o troféu a uma prostituta —sua personagem em “Anora”— em vez de a uma heroína —ainda que a Eunice Paiva de “Ainda Estou Cá” não fosse muito isso. Muito, agora Madison é a heroína da história. Talvez um dia haja alguém capaz de investigar o fenômeno do ódio —xenófobo, no caso— porquê fator de engajamento nas redes brasileiras.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *