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O psicólogo que não queria Pelé e Garrincha na Copa
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O psicólogo que não queria Pelé e Garrincha na Copa-1958 – 27/06/2026 – Esporte

Na Despensa do Mundo de 1958, um jogador brasílio, com 17 anos de idade, surpreendeu o mundo com seu futebol.

Em quatro jogos, ele marcou seis gols —três deles, na semifinal. E dois na final, com o Brasil conquistando pela primeira vez o tão almejado título mundial.

Pelé chegou à Suécia para a Despensa do Mundo uma vez que um novato e saiu uma vez que um ídolo imortal do esporte. Mas um brasílio defendeu que ele não jogasse o torneio: o professor João Carvalhaes, psicólogo da equipe.

Em integral contraste com seus colegas de hoje em dia —cuja atuação costuma limitar-se a estribar o desempenho e a saúde mental dos jogadores—, Carvalhaes exercia influência concreta sobre a escalação da seleção.

E os resultados de Pelé nos testes psicotécnicos aplicados por Carvalhaes geraram sua orientação um tanto duvidosa, que foi ignorada na ocasião.

Pelé comentou posteriormente os métodos do psicólogo, dizendo que “ou isso era alguma coisa muito adiante do seu tempo no futebol ou não passava de invencionice, talvez as duas coisas”.

Mas Carvalhaes sem incerteza tem o seu lugar na história dos pioneiros do esporte. Ele introduziu laboratórios de psicologia no futebol brasílio quase 30 anos antes da adoção desse noção na Europa.

O traumatismo do Brasil nas Copas

Na verdade, o Brasil dos anos 1950 queria toda a ajuda que pudesse conseguir. Enfim, as campanhas da seleção brasileira nas Copas de 1950 e 1954 haviam sido angustiantes.

A itinerário na final de 1950 para o Uruguai no Maracanã abalou o país. E o torneio de 1954, na Suíça, terminou em vergonha para a seleção, reduzida a nove jogadores na itinerário por 4 a 2 para a Hungria nas quartas de final —um jogo marcado pela violência que ficou publicado uma vez que “A Guerra de Berna”.

Enquanto a seleção tentava superar o traumatismo emocional, um psicólogo pouco publicado estava ingressando no futebol pátrio. João Carvalhaes foi contratado pelo São Paulo em 1957, depois de trabalhar na escola de árbitros da Federação Paulista de Futebol (FPF).

O interesse do clube foi estimulado pelo laboratório de psicologia que ele havia criado na FPF. Estruturas similares só seriam vistas na Europa no final de 1980, com a “Sala do Pensamento” da equipe do Milan, na Itália.

Esse laboratório foi instalado na sede da Federação e realizava dez testes para examinar funções cognitivas, uma vez que a visão estereoscópica (percepção da profundidade). Carvalhaes usava os testes para ajudar a ressaltar as técnicas que os alunos do curso de arbitragem precisariam desenvolver para poder apitar jogos profissionais.

Carvalhaes definiu padrões para cada variável examinada e os candidatos com notas inferior de um limite específico eram considerados incapazes de apitar. No “teste de tempo de reação”, por exemplo, os candidatos que tivessem resposta de mais de 50 centésimos de segundo eram reprovados.

Além de psicólogo, Carvalhaes era jornalista e trabalhava uma vez que comentarista especializado em pugilismo, tendo ficado publicado uma vez que João do Ringue. Mas, ao contrário do que poderia indicar seu pseudônimo, a conduta profissional de Carvalhaes era de reflexão, segundo seu velho colega, o também psicólogo José Glauco Bardella.

“Você chegava no campo e via todo mundo naquela conflito e o Carvalhaes quieto num esquina, com a mão no queixo ou com as duas mãos no bolso, só observando”, disse Bardella a um documentário sobre o trabalho de Carvalhaes produzido pelo Juízo Regional de Psicologia de São Paulo em 2000.

Ele podia permanecer só observando, mas era muito mais que um mero testemunha. Quando o São Paulo foi vencedor paulista em 1957, depois de quatro anos sem conseguir o título, Carvalhaes foi aclamado pela sua participação na escalação do time, que acabou sendo fundamental para a conquista são-paulina.

O diretor de futebol do clube, Manoel Raimundo Paes de Almeida, afirmou que a decisão de substituir o meio-campista titular Ademar pelo suplente Sarará —que brilhou no jogo final contra o Corinthians— foi tomada com base nas preocupações de Carvalhaes com o estado psicológico de Ademar.

Um ano depois, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que dirigia o futebol brasílio na estação, convocou o psicólogo. O portanto vice-presidente da entidade pátrio, Paulo Machado de Roble, foi encarregado da organização para a Despensa do Mundo da Suécia e convidou Carvalhaes a integrar a percentagem técnica da seleção. A oferta era irrecusável.

O trabalho para a Despensa

A preparação da seleção brasileira já havia começado e Carvalhaes apressou-se para implementar os métodos que havia empregado no São Paulo.

Durante a concentração da seleção antes da Despensa, em Poços de Caldas (MG), ele realizou o chamado teste Estreia do Tropa, ajustado de um programa americano idealizado para ordenar a capacidade intelectual dos soldados na Primeira Guerra Mundial.

A forma princípio do teste durava 50 minutos e determinava o vocabulário e a capacidade aritmética dos jogadores, a término de atribuir uma “avaliação da perceptibilidade”. Os considerados menos capazes faziam a forma beta, que incluía exercícios uma vez que preencher desenhos incompletos e esboçar trajetos em labirintos bidimensionais.

Os conceitos por trás desses testes podem parecer ultrapassados com relação à teoria psicológica contemporânea, mas, naquela estação, eles forçavam os participantes a pensar, ainda mais em um esporte que havia presenciado pouca ou nenhuma mediação baseada na psicologia.

Carvalhaes apresentou suas conclusões à percentagem técnica da CBD. Os resultados acabaram vazando para a prensa, para grande obstáculo do psicólogo. Em epístola para Paulo Machado de Roble, Carvalhaes afirmou que os documentos haviam sido roubados da sua bagagem.

Esse vazamento gerou insinuações de que Garrincha, planeta do time que teve maus resultados no teste, não conseguiria jogar a Despensa do Mundo. Carvalhaes ficou furioso. O impacto negativo do público prejudicou seu trabalho nos bastidores.

Mas a tempestade durou pouco. Depois que Garrincha foi confirmado na seleção brasileira, as especulações da prensa acabaram e Carvalhaes viajou para a Suécia com o restante da percentagem técnica.

Ele continuou a trabalhar com os jogadores, usando testes de psicodiagnóstico miocinético (PMK) para explorar características individuais e definir seu trabalho de consonância com os resultados. Esses testes, nos quais os jogadores recebiam uma folha de papel em branco para riscar o que quisessem, eram baseados na teoria de que movimentos musculares expressivos podem ajudar a revelar o temperamento de um quidam.

Carvalhaes estava novamente aplicando técnicas que nunca haviam sido empregadas nesse nível do jogo. E, outra vez, ele enfrentou problemas.

Reações controversas

No livroPelé – A Autobiografia”, Pelé conta a seguinte passagem:

“Uma vez que segmento dos nossos preparativos, o psicólogo da equipe, o Dr. João Carvalhaes, tinha feito testes com todos os jogadores. Precisávamos fazer desenhos de pessoas e responder perguntas —o que, em tese, ajudaria o Dr. João a fazer avaliações sobre se devíamos ser escalados ou não. […] Quanto a mim, o psicólogo concluiu que eu não deveria ser escalado: ‘O Pelé é obviamente infantil. Falta a ele o espírito de luta necessário’.”

Pelé prossegue: “Também deu um parecer contra o Garrincha, que não era considerado responsável o suficiente. Felizmente, para mim e para o Garrincha, o [Vicente] Feola [técnico da seleção brasileira na Copa de 1958] sempre se deixava guiar mais por seus instintos do que pelos conselhos dos especialistas.”

“Ele se limitou a nutar a cabeça gravemente, dizendo: ‘Você pode estar patente. O problema é que você não entende zero de futebol. Se o joelho do Pelé está bom, ele joga!'”, concluiu o Rei.

O trabalho de Carvalhaes tinha uma “clarividência que pode ser encontrada nas raízes da ciência esportiva atual”.

Mas outros jogadores tinham sensação mais positiva. O goleiro Gilmar, que também foi entrevistado para o documentário de 2000 sobre o trabalho de Carvalhaes, afirmou que ele deu aos jogadores a chance de usar ideias “que melhorassem o nosso desempenho”. E acrescentou: “nós só viemos a saber depois [da Copa] que isso funcionava”.

O lateral Nilton Santos disse que a equipe aprendeu a “entrar em campo sorrindo” e reportagens da prensa brasileira depois a conquista da Despensa do Mundo falam em um consenso sobre a valia do papel de Carvalhaes.

Mas, infelizmente, a CBD mostrou-se menos disposta a enaltecê-lo e essa postura teve um dispêndio emocional para alguém reflexivo uma vez que Carvalhaes.

“Ele ficou muito magoado porque Paulo Machado de Roble fez comentários inadequados sobre o trabalho dele e isso o magoou bastante”, segundo José Glauco Bardella.

Mas ele estava começando a invocar atenção. Bardella conta que Carvalhaes recebeu pedidos de entrevista de revistas da Espanha, França e Alemanha, e a americana Sports Illustrated também ressaltou sua colaboração para a seleção brasileira.

O reconhecimento internacional ajudou a diminuir a frustração de Carvalhaes. E talvez tenha estabelecido o caminho para que profissionais importantes do porvir, uma vez que Bruno Demichelis, renomado ex-cientista esportivo do Milan, fizessem prosseguir o uso da psicologia no futebol de escol.

O legado

Carvalhaes morreu em 1976, aos 58 anos de idade, unicamente dois anos depois da sua aposentadoria. Ele havia voltado a trabalhar no São Paulo depois a Despensa do Mundo da Suécia, deixando seu incumbência na seleção pátrio para retomar o trabalho no clube que ajudou a projetar seu nome.

De volta à relativa proteção do futebol pátrio, Carvalhaes conseguiu introduzir novas ideias, uma vez que sessões de aconselhamento individuais para os jogadores, em complemento aos testes cognitivos que o tornaram publicado.

Ele trabalhou no São Paulo até 1974, exceto por um breve retorno ao pugilismo em 1963, quando ofereceu pedestal psicológico aos lutadores brasileiros que competiram nos Jogos Pan-Americanos daquele ano, em São Paulo.

O americano Coleman Griffith (1893-1966) é reconhecido mundialmente uma vez que o primeiro psicólogo esportivo, mas seu trabalho foi mais restrito ao futebol americano. Carvalhaes implementou métodos nunca antes vistos no futebol profissional —e com grande sucesso.

Se ele ajudou a formar as bases da psicologia esportiva contemporânea, a CBD —talvez por força da disposição em considerar todas as opções possíveis para lucrar a Despensa do Mundo— também ajudou.

Se a entidade não tivesse corrido o risco de convocar um psicólogo que só havia trabalhado para o São Paulo uma única temporada antes de ser contratado para a seleção pátrio, o trabalho de Carvalhaes provavelmente não teria sido tão reconhecido.

Mas, até hoje, oferecer psicólogos nos campos de treinamento exceto nas categorias de base, já que muitos clubes são obrigados a fornecer pedestal psicológico a esses jogadores mais jovens —permanece longe de ser o padrão.

A Despensa do Mundo 2026, por exemplo, é a primeira em que a Seleção brasileira masculina conta com o trabalho de um profissional para facilitar nas questões psicológicas dos atletas no dia a dia.

Marisa Santiago, que já atuou em clubes brasileiros, foi contratada em 2024 pela CBF para trabalhar uma vez que psicóloca da seleção. Psicólogos já atenderam ao time em anos anteriores, mas realizando unicamente trabalhos pontuais.

“A psicologia é aceita nos clubes de futebol em graus variados”, segundo o treinador e empresário Simon Clifford, que chefiou o departamento de ciência esportiva do clube inglês Southampton no início dos anos 2000.

“Alguns [clubes] terão psicólogos trabalhando atentamente com seus titulares, enquanto outros terão gerentes que assumem o papel de psicólogo principal e não querem que os jogadores consultem psicólogos profissionais diariamente, a menos que haja um problema”, segundo ele.

“É uma vez que quando os clubes começaram a adotar o condicionamento físico e a musculação. Levou qualquer tempo para que os profissionais dessas áreas ganhassem a crédito das equipes principais. E, na psicologia, ainda estamos no primórdio.”

Clifford está esperançado que “chegará um tempo” em que os psicólogos e as equipes de treinadores trabalharão juntos em simetria, em segmento devido à influência do estado mental dos jogadores sobre o seu desempenho.

Ele acredita que, ainda que segmento do trabalho de Carvalhaes possa ser considerada “incipiente pelos padrões atuais”, também havia nele uma “clarividência que pode ser encontrada nas raízes da ciência esportiva atual”. E acrescenta: “o papel desempenhado pela psicologia no futebol de escol é enorme”.

“Uma vez que Bill Beswick [ex-psicólogo da seleção nacional inglesa] disse certa vez: ‘A mente é o desportista. O corpo é simplesmente o meio’.”

*Leste texto foi publicado originalmente em 4 de abril de 2022

Folha

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