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'Ocupação' celebra Helena Ignez como 'antimusa' radical 27/07/2026
Celebridades Cultura

‘Ocupação’ celebra Helena Ignez como ‘antimusa’ radical – 27/07/2026 – Ilustrada

Por décadas, ela foi a musa do cinema novo e marginal. Ora uma jovem tímida e melancólica que se apaixona por um padre no interno mineiro, ora uma fera oxigenada de vestido vermelho pequeno que subjuga os homens ao seu volta.

Aos 87 anos, Helena Ignez, estrela de “O Padre e a Moça” e “Copacabana Mon Amour”, é descrita na “Ocupação” do Itaú Cultural em São Paulo porquê “antimusa” —recusando-se a ser reduzida a viúva do cineasta Rogério Sganzerla ou ex-mulher de Glauber Rocha.

“Há a musa que se esgota, paralisada, eterna, e há outra, ativa. Realmente, eu seria a antimusa. Mas hoje vejo a musa com carinho também. Talvez eu inspire mesmo as pessoas”, diz a atriz, em conversa por telefone, de Fortaleza.

Enfim, enquanto os paulistanos agora podem ver os rastros desse trajectória longevo —entre fotos de seus trabalhos, cenas de filmes, documentos e itens pessoais—, Ignez não se deixa cristalizar.

Está, desde abril, trabalhando a peça “Termo de Partida”, na pele de Nell, mãe do protagonista de Marco Nanini. É um reencontro com o ator recifense, que iniciou profissionalmente nos palcos ao lado dela, em 1968, num papel coadjuvante em “Salomé”, enquanto Ignez vivia a jovem sensual que pede a cabeça de João Batista.

Posteriormente se apresentar em Brasília e na capital cearense, a baiana passou unicamente dois dias em São Paulo. Logo partiu para Recife e se prepara para, em agosto, levar o trabalho ao Rio de Janeiro.

Também monta o curta “Des-criação” com seu genro André Guerreiro Lopes e prepara novidade montagem de “Savannah Bay”, de Marguerite Duras, para outubro.

Repetindo o que fizeram em 1999, Ignez será Madeleine, uma atriz idosa que reconstitui suas memórias com a ajuda de uma jovem, papel de Djin Sganzerla, sua filha caçula. No lugar de Rogério, morto em 2004, aos 57 anos, a direção caberá, dessa vez, a Guerreiro Lopes, e promete misturar elementos do cinema de Georges Méliès.

Ignez diz ter recusado ainda um invitação da Cinemateca de Los Angeles para poder lastrar esses projetos que vão se somar à já farta programação desta que é a primeira “Ocupação” dedicada a uma cineasta mulher.

A exposição acontece 16 anos depois o Itaú Cultural ter homenageado Rogério Sganzerla, companheiro de Ignez por mais de três décadas. Foi em seus filmes que a atriz teve suas performances mais viscerais, porquê a feminista Ângela Músculos e Osso, de “A Mulher de Todos”, e a mulher do personagem de Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, em “Sem Essa, Aranha”.

Esse último é um dos sete filmes da Belair, produtora articulada por Ignez com Sganzerla e Julio Bressane, rodado no Brasil em 1970 e finalizado no exílio em Londres depois perseguição da ditadura. Alguns deles não existem mais na íntegra, porquê “Carnaval na Limo”, ou não foram concluídos, porquê “A Miss e o Dinossauro”, cujos fragmentos inspiraram um curta de 2005, dirigido por Ignez.

“Rogério sempre foi maravilhoso comigo porque nunca deu corda ao meu ego. Sempre trouxe para uma verdade interno”, diz a atriz. “Uma vez perguntaram do que ele mais tinha se enamorado [em mim]. Ele falou: ‘a coragem’.”

Juntos, criaram obras radicais em que a liberdade da linguagem cênica e corporal permitia cenas de Ignez gritando, declamando, rebolando, regurgitando e interagindo com o povo pelas ruas.

Aliás, é de “A Família do Fragor”, dessa mesma idade, a cena projetada numa cortinado de miçangas, na ingressão da mostra. Com seus fartos cachos louros, a Helena Ignez de cinco décadas detrás mira fixamente a câmera, antes de vomitar sangue às golfadas; num piscar de olhos, a cena se repete, agora com a atriz já octogenária.

“Os jovens garçons que me atendem em hotéis pelo Brasil [na excursão de ‘Fim de Partida’] me chamam de senhorita”, diz a atriz, às risadas. “É uma experiência maravilhosa.”

Em paralelo às atividades presenciais, o streaming Itaú Cultural Play, gratuito, faz uma retrospectiva da sua curso com mais de 20 títulos, em cópias de boa qualidade. O mais idoso deles é o curta experimental “Recinto”, o primeiro trabalho dirigido por Glauber Rocha.

Estrelado e produzido por Ignez com prêmio de concurso de miss, o filme é de 1959, ano em que ela se casou com o baiano, ambos aos 20 anos.

Na mostra, “Recinto” —uma espécie de balé vanguardista, anterior à “estética da penúria”— é projetado sobre um tabuleiro no núcleo devotado à formação de Ignez, nascida na escol de Salvador, e no qual se destacam algumas raridades, porquê uma caderneta escolar e colunas sociais assinadas por ela num jornal sob o pseudônimo de “Krista”.

Há ainda uma espécie de álbum de família, com fotos de sua puerícia, do casório com Glauber, com quem teve a filha Paloma Rocha, e do seu círculo íntimo ao longo das décadas.

Vizinha a esta seção está aquela sobre suas origens nos palcos porquê secção da pioneira Escola de Teatro da Universidade Federalista da Bahia, fundada em 1956. “Tive uma formação tão maravilhosa que é de agradecer a Deus; aquele momento de Salvador, com [o diretor e cenógrafo Eros] Martim Gonçalves e Lina Bo Bardi, foi um pessoal de altíssimo nível”, diz.

Mas o cinema já estava entranhado em seu imaginário, diz ela, lembrando a devoção por Marilyn Monroe. “A minha grande referência poética e real é a Marilyn, uma musa trágica que, aos 36 anos, já não estava mais entre nós. Talvez eu, aos 87, seja o contrário dela”, diz. “Era maravilhosa, de um olhar totalmente invulgar. Me iluminou desde o meu primeiro trabalho na Bahia, ‘Nossa Cidade’, do Thornton Wilder.”

O curso foi divisor de águas, dando-lhe chegada a Brecht, Stanislávski e à dança expressiva com Yanka Rudzka. “Eu danço todos os dias, só se eu estiver muito ruim eu não danço”, diz.

Esse estofo se refletiu já em suas participações em peças porquê “A História de Tobias e Sara” e “A Ópera dos Três Tostões”, de Brecht, além de seu primeiro longa, “A Grande Feira”, de 1961. Neste mesmo ano, desquitou-se de Glauber e foi para o Rio em procura de liberdade, fazendo sucesso em “O Assalto ao Trem Pagador”, de 1962, e aproximando-se do cinema novo.

Pensada para o papel que ficou para Yoná Magalhães em “Deus e o Diabo na Terreno do Sol”, de Glauber, faz em 1964 “O Grito da Terreno”, de Olney São Paulo, um drama social hoje menos lembrado —que está no streaming.

A versão contida de “O Padre e a Moça”, de 1966, seria a mais notável do período —ainda que Ignez tenha péssimas memórias da experiência no set—, ao lado da Luciana de “Rosto a Rosto”, de 1967, de um Bressane pré-experimental.

Depois, Sganzerla se aproximou de Ignez no Rio, quando mostrou um item que fizera sobre o filme de Joaquim Pedro de Andrade —também na “Ocupação”. A partir daí, os dois fariam juntos “O Bandido da Luz Vermelha” em 1968.

Paralelamente, trabalhou em TV, novelas e teatro entre Rio e São Paulo, colaborando com nomes porquê Ziembinski, Paulo Gracindo e Oduvaldo Vianna Fruto.

O ponto de ruptura seria com o músico “Hair”, de 1969, que, apesar do sucesso em seu retrato da vida hippie, já não a satisfazia porquê artista. “O ‘Hair’ significou esse momento em que preferi a arte, os filmes de Rogério e Bressane, mesmo com todos os riscos que pudesse ter”, diz.

“Ao mesmo tempo, a peça teve uma influência enorme em mim, já que depois eu me tornaria Hare Krishna”, afirma ela, que virou monja hinduísta nos anos 1980. Daí seu currículo ter menos trabalhos depois o período intenso da Belair, e só voltar a engrenar a partir da dezena de 1990, quando também começa a guiar filmes —porquê “Luz nas Trevas”, uma espécie de prolongamento a “O Bandido da Luz Vermelha”— e a montar novos espetáculos.

A mostra exibe leque e punhal de sua prática de tai chi chuan, além de sua relação com a psicodelia em trabalhos recentes.

“A cannabis é um remedinho para as mentes sofridas e nervosas”, diz a atriz. “As primeiras impressões que tive com a psicodelia foram extremamente fortes: ‘Eu não entendo zero, sou uma folha que cai de uma árvore’.”

Em meio a tantos títulos já célebres, o Itaú destaca ainda “América do Sol”, filme rodado por Léo Duarte em 2000 e só finalizado agora, do qual Ignez sequer lembrava de ter participado. Ela faz uma ponta porquê Sônia Silk de “Copacabana Mon Amour”, aquela que, aos berros, diz ter “pavor à vetustez” —personagem que Ignez ainda carrega, embora mais zen.

“A morte é uma coisa muito interessante e a vida não é fácil, né? Ela tem que ser mantida com alegria, que é a prova dos nove.”

Folha

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