Odorico Leal: Precarização dos artistas vem de antes da IA – 31/10/2026 – Ilustrada
No raconto que funciona uma vez que espinha dorsal da coletânea “Sonhos da Pessoa Física”, um grupo de artistas —escritores, ilustradores, tradutores, gente que trabalha fazendo livros— passa a lucrar um auxílio do governo por ter perdido renda para a lucidez sintético.
São os chamados “Luds”, gracejo com a vocábulo “ludita”, as pessoas que caminham na contramão da tecnologia. Uma vez que quase tudo na jovem literatura de Odorico Leal, é uma piada autodepreciativa com coisa séria, uma melancolia rebuçado e erudita enxurro de piscadelas.
Não, ele não acha que um cenário assim é o rumo inevitável das artes. “Luds” é, justamente, um treino artístico —mais especulativo que fatalista.
“Minha inclinação foi ortografar um pequeno pesadelo”, diz o responsável em seu apartamento na zona oeste de São Paulo. “Esse é o pior cenário verosímil para o nosso nicho.”
Odorico, nascido na piauiense Picos há 43 anos, se consagrou uma vez que um contista respeitado já na sua obra de estreia, em 2024. “Nostalgias Canibais”, editado pela Âyiné, ganhou prêmios e elogios da sátira. Agora, em “Sonhos da Pessoa Física”, ele ajusta melhor seu jogo de cintura na Todavia.
“Meu estilo fica numa risca tênue entre o coloquial literário médio e o pomposo”, define. “Assim, se eu errar, se eu puser um pronome oblíquo a mais, uma vocábulo um pouco mais elevada, eu caio no pomposo.”
Doutor em literatura brasileira, ele lembra que a história dessa arte oscila num pêndulo entre dois extremos, “a retórica e a oralidade”. “Por muito tempo, o texto bacharelesco era tido no Brasil uma vez que um bom texto. E a história da prosa brasileira no século 20 é a da depuração e renovação dessa linguagem, do linguagem brasiliano.”
É nesse balanço que ele trabalha —e demorou para se lastrar recta na corda bamba. Lembra que mandou a versão original de seus primeiros contos para a editora Maria Emilia Bender, bambambã que trabalhou por décadas na Companhia das Letras e na revista Piauí.
“Duas semanas depois, ela me escreveu dizendo que tinha lido 20 páginas e não suportou mais continuar. Estava muito enfático”, lembra. “Ela usou uma vocábulo que eu até cito nos agradecimentos: ficou muito gongórico.”
Gongórico se refere a um estilo do barroco espanhol do século 17, recheado de metáforas que hoje passam uma vez que afetadas. Depois daquilo, Odorico modulou melhor seu texto, com pitadas de humor e coloquialismo que já usava nas crônicas que escrevia sem compromisso —hoje, ele tem um espaço regular na revista Quatro Cinco Um.
“Foi uma resposta brutal e, ao mesmo tempo, a melhor resposta que eu poderia ter, porque me abriu os olhos. A melhor coisa é receber uma bela de uma cacetada antes de publicar, e não depois de publicado.”
Apurar estilo leva tempo, mesmo, mas Odorico hoje tem um projeto literário sazonado. “Sonhos da Pessoa Física” abre com um raconto saboroso sobre uma dupla de escritores brasileiros que sonham em ser reconhecidos uma vez que escritores argentinos. Em seguida, o jocoso “História da Formosura” acompanha um varão que se entende uma vez que a pessoa mais linda do mundo, até quebrar a rostro.
O núcleo nervoso do livro, porém, está em “Luds” e “A Forma Mais Humana”, nascente uma espécie de apêndice da mesma história narrado pela lucidez sintético que roubou o trabalho dos personagens.
Cá, a utensílio Vinci é apresentada uma vez que uma entidade todo-poderosa, capaz de sentenciar sobre morte e vida de toda a humanidade, uma vez que tanto se ventilou recentemente. Escolher o tom usado por uma narração de IA foi um duelo para o responsável.
O editor de Odorico sugeriu um toque mais robótico ao texto, mas ele foi por outro caminho. “Achei interessante imaginar essa superinteligência uma vez que uma uma espécie de Deus, mas um deus helênico. Os deuses gregos são profundamente caprichosos, meio insuportáveis. Logo quis dar ao Vinci um toque mimado, arrogante.”
Essa é uma secção do livro que Odorico classifica uma vez que “francamente fantasiosa”, nem sequer especulativa. “Essa teoria do ex-funcionário da Anthropic de que daqui a dez anos vamos ser extintos é completamente absurda. Estamos em um momento de discussão e de disseminação de falsas certezas.”
Evitou a todo dispêndio que seu texto fosse contaminado por esse “tom triunfalista das big techs”, o que não quer manifestar que subestima a maneira uma vez que a IA pode prejudicar artistas uma vez que seus Luds.
“Mas a precarização da classe artística já é um tema há muito tempo”, afirma ele. “A lucidez sintético vem uma vez que aquela última pá de terreno, para desestabilizar de vez essas identidades.”
É um choque a que ele já se acostumou uma vez que tradutor —verteu ao português autores uma vez que Toni Morrison e Hisham Matar. Hoje, quando você pensa na vocábulo “tradutor”, se lembra mais rápido de uma pessoa ou de um serviço da internet? Imagina se essa incerteza se expande para todos os ofícios?
Odorico ainda argumenta que uma máquina não escreveria um pouco uma vez que “Solenoide”, obra-prima gargantuesca do romeno Mircea Cartarescu. Mas o problema não é a grande e indiscutível arte e, sim, o trabalho do dia a dia, que paga a conta dos artistas.
O problema é o “suficientemente bom”, diz o responsável. No caso das traduções, o público julga aquilo que a IA oferece uma vez que suficientemente bom. “E o que é suficientemente bom é maravilhosamente profíquo.”





