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'Poet core': livros nas passarelas e como objetos fashion
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‘Poet core’: livros nas passarelas e como objetos fashion – 26/06/2026 – Ilustrada

“Nunca viaje sem seu quotidiano. Devemos sempre ter alguma coisa sensacional para ler no trem”, diz uma frase frequentemente atribuída a Oscar Wilde, jornalista que transformou a própria imagem em segmento de sua obra e ajudou a definir o dandismo literário do término do século 19. Se estivesse vivo hoje, talvez acrescentasse uma reparo: certifique-se de que alguém veja a cobertura.

Se com o “book stylist” —o misterioso curador que põe livros nas mãos de celebridades e modelos quando esses são fotografados—, livros passaram a ser utilizados porquê sinalizadores de repertório poético, agora a tendência e o estilo mais uma vez se interseccionam com eles. O estilista de livros, aparentemente, antecipou alguma coisa mais grande.

Isso tem se manifestado com força nas passarelas. Em janeiro, na Semana de Tendência de Paris, Yohji Yamamoto exibiu casacos negros amplos e camadas desalinhadas que remetiam a uma figura intelectual quase monástica. Na mesma temporada, a Lemaire mostrou sobretudos fluidos, cachecóis longos e bolsas de pele carregadas junto ao corpo, evocando a imagem do jornalista em deslocamento.

Esta é a “poet core”, ou “book core”, conforme apelidaram a sátira especializada e as mídias sociais, para descrever uma estética inspirada no jornalista e no leitor que temos em nosso imaginário. Tricôs amplos, alfaiataria relaxada, tecidos porquê pelo, tweed, veludo e algodão encorpado e uma ar que sugere introspecção têm servido de resposta ao nosso cotidiano apressado e encharcado por imagens.

Trata-se do mais recente desdobramento de um fenômeno cada vez mais visível. A Dior, por exemplo, tem transformado a literatura em matéria-prima para a construção de seus desfiles. Em 2025, a grife recorreu a “Orlando”, romance de Virginia Woolf publicado em 1928, para erigir uma coleção assinada por Maria Grazia Chiuri marcada por reflexões sobre identidade, tempo e transformação.

No mesmo ano, já sob a direção criativa de Jonathan Anderson na risca masculina, a marca apresentou bolsas inspiradas em capas de livros clássicos, incluindo uma reprodução da primeira edição de “Drácula”, de Bram Stoker, além de versões dedicadas a “Ulysses”, de James Joyce, “A Sangue Indiferente”, de Truman Capote, “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire, e “Ligações Perigosas”, de Pierre Choderlos de Laclos.

A subida da “poet core” coincide com outras iniciativas que recolocam a literatura no meio da cultura visual. Em abril, o Miu Miu Literary Club, vinculado à grife de Miuccia Prada, realizou sua edição mais recente em Milão, reunindo escritoras, artistas e intelectuais em torno da leitura de obras de Simone de Beauvoir e Fumiko Enchi. A atriz Sarah Jessica Parker, estrela de “Sex and the City”, integrou o júri do Booker Prize de 2025 e, dois anos antes, firmou parceria com a Zando para ter seu próprio selo na editora, assim cruzando suas paixões por tendência e literatura. Reese Witherspoon fez de seu clube do livro uma engrenagem que impulsiona vendas e adaptações audiovisuais.

A pop star Dua Lipa, espectadora assídua de desfiles e rosto de campanhas de Chanel, Versace e Bulgari, entrevista autores —porquê Olga Tokarczuk, Ocean Vuong e Margaret Atwood— e divulga leituras por meio do clube do livro da sua plataforma de teor Service95. Dakota Johnson também tem sua própria comunidade de leitores.

“Objetos culturais sempre foram marcadores de identidade e status”, diz Ana Carolina Pereira de Souza, coordenadora do curso de tecnologia em design de tendência do Senac. Segundo ela, o livro ocupa uma posição particularmente poderosa porque comunica conhecimento, sensibilidade, autenticidade e capital cultural.

A pesquisadora observa ainda que o interesse recente pela literatura aparece em tendências ligadas a decoração, autocuidado e produção de teor do dedo. “Quando uma tendência se expande para múltiplas esferas da vida cotidiana, ela deixa de ser exclusivamente uma tendência passageira e passa a expressar uma mudança mais profunda de imaginário social”, afirma.

A leitura da perito ajuda a explicar por que bibliotecas, livrarias independentes, cafés e mesas de estudo passaram a ocupar lugar mediano na iconografia das redes sociais. O livro não aparece exclusivamente porquê alguma coisa a ser lido. Ele ajuda a imaginar uma narrativa sobre quem somos ou gostaríamos de ser.

Para o pesquisador de tendência Álamo Bandeira, da Universidade Federalista de Pernambuco, a valorização recente da figura do leitor também revela uma mudança nos códigos de eminência social. Se em outros momentos o consumo de luxo dependia sobretudo da exibição de bens materiais, hoje o repertório cultural passou a funcionar porquê uma forma de prestígio. “A tendência sempre operou por mecanismos de diferenciação. O que muda são os códigos. Em um cenário de hiperconsumo e excesso de informação, provar privança com livros, arte e conhecimento passa a ser uma forma de sinalizar pertencimento e sofisticação”, afirma.

André Alves, psicanalista, jornalista e pesquisador de comportamento e consumo, afirma que o processo está ligado à crescente valia do chamado capital cultural. Em um envolvente do dedo no qual conexões sociais, curtidas e seguidores se tornaram abundantes, repertório e sabor adquiriram novo valor.

“O livro é uma forma de sinalizar que eu trabalho meu repertório pessoal”, diz. Alves observa que a leitura ocupa uma posição ambígua: continua sendo uma experiência íntima, mas também se tornou matéria-prima para exibição pública. “A implosão da privacidade que experimentamos com a subida das mídias sociais joga o nosso sabor na roda.”

Isso não significa necessariamente superficialidade. Para ele, existe alguma coisa genuíno na procura contemporânea por atividades que exijam concentração e outro ritmo de atenção. Na era do “scrolling” infinito, a leitura surge porquê experiência associada à desaceleração e ao foco. Ao mesmo tempo, exibir livros pode funcionar porquê mostra de disciplina, conhecimento ou sofisticação.

A perito em marketing editorial, Dany Sakugawa, argumenta que essa dimensão simbólica sempre existiu. Grandes bibliotecas particulares já funcionavam porquê símbolos de status muito antes das redes sociais. O que mudou foi a graduação. “Se sempre dissemos que você é o que você come, não deveria surpreender que as pessoas também sejam, ou queiram parecer ser, o que leem”, afirma.

Segundo ela, as redes ampliaram a força da recomendação pessoal e transformaram leitores, autores e celebridades em curadores. O mercado editorial também passou a considerar com mais atenção o potencial visual dos livros. Edições especiais, acabamentos sofisticados, bordas coloridas e kits enviados a influenciadores refletem um cenário em que o objeto precisa funcionar tanto na estante quanto no feed.

A relação entre literatura e imagem pública tampouco é uma invenção do século 21. Em 1966, Truman Capote reuniu socialites, artistas, milionários e estrelas do cinema em Novidade York para o que ficaria divulgado porquê “Black and White Ball”, em homenagem a Katharine Graham, logo publisher do jornal The Washington Post. Décadas antes, Oscar Wilde já compreendia o valor simbólico da própria ar. Tom Wolfe transformaria o terno branco em assinatura pessoal. Escritores sempre exerceram influência estética sobre a cultura.

Álamo Bandeira afirma que o livro opera de maneira dissemelhante de outros símbolos de status porque exige repertório compartilhado para produzir eminência. “A tradicional escol capaz de reconhecer cada livro substitui a logomarca que geralmente vem impressa nas bolsas desejadas pelos ricos emergentes”, afirma.

Talvez Oscar Wilde reconhecesse a cena. O livro ainda serve para ser lido, mas em qualquer momento tornou-se também um inferior. A diferença desta vez é que o luxo não está exclusivamente em tê-lo. Está em encontrar tempo para terminá-lo.

Folha

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