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Política entrou na era dos fãs e haters 19/05/2026
Celebridades Cultura

Política entrou na era dos fãs e haters – 19/05/2026 – Wilson Gomes

Nos últimos anos, o ativismo político tem oferecido cenas que já não cabem inteiramente no vocabulário tradicional da militância.

Quando Jair Bolsonaro precisou remunerar multas, apoiadores organizaram uma campanha via Pix que, segundo relatório do Coaf citado pela prelo, levou R$ 17,2 milhões à sua conta pessoal. Quando, em seguida a prisão de Vorcaro, a jornalista Malu Gaspar publicou reportagens sobre a proximidade inadequada entre um banqueiro investigado e membros do STF, perfis de influenciadores progressistas e portais alinhados ao governo ignoraram o préstimo das reportagens e formou-se um enxame de postagens acusando a jornalista de estar fazendo “vazamentos seletivos” com o objetivo de “desestabilizar a democracia”, “testilhar o STF” ou fazer o jogo da extrema direita.

As seções de comentários das redes da jornalista e do jornal foram inundadas por mutirões de militantes que a insultavam de todas as formas.

Se esse tipo de ativismo ainda surpreende, talvez seja porque continuamos procurando nele a velha lógica da política, mas uma secção expressiva da política do dedo já funciona segundo outra gramática. Ela se parece menos com militância e mais com fandom.

Ser fã, no sentido contemporâneo, não é somente gostar muito de alguém. Estudos recentes sobre cultura de fãs mostram que, na era das plataformas, fãs formam comunidades de pertencimento, trabalho afetivo e ação coordenada. Produzem teor, organizam fluxos de informação, vigiam métricas, fazem campanhas, defendem reputações, atacam rivais e disputam visibilidade. O fã do dedo não se limita a consumir textos, imagens e vídeos sobre o ídolo, mas trabalha por ele. Opera redes, mobiliza grupos, interpreta sinais, faz circundar narrativas, acompanha rankings, reage a ameaças e transforma devoção em rotina.

É nesse ponto que a política do dedo se aproxima perigosamente da cultura pop. O militante-fã também não se limita a concordar com uma teoria, estribar um partido ou votar em um candidato. Ele se sente secção da curso pública do seu líder, da reputação moral do seu campo e da guerra permanente por atenção. Sua função não é somente persuadir, mas proteger, promover, reagir e punir. Uma vez que nos fandoms do entretenimento, há um objeto estremecido a ser impenetrável, rivais a serem derrubados e uma comunidade que precisa provar, todos os dias, que continua leal, ativa e numerosa.

A diferença em relação à militância tradicional é profunda. Partidos e movimentos sempre tiveram paixões, lealdades, slogans e inimigos. A novidade está na combinação entre devoção afetiva, cultura de plataforma e economia da atenção: o militante-fã faz mutirão de hashtags, sobe cortes de vídeo, invade comentários, fabrica memes, monitora o sucesso de narrativas, denuncia perfis, ataca críticos, serpente pureza dos aliados e transforma cada incidente em prova de paixão ou de traição.

Isso explica por que certos comportamentos parecem tão estranhos para quem vem da política, mas tão familiares para quem conhece a cultura do dedo. A resguardo de um líder diante de uma denúncia segue a lógica do fã diante do escândalo do ídolo: negação, ataque ao censor, teoria conspiratória e inversão moral —segundo a qual o verdadeiro transgressão não está no roupa revelado, mas na existência de quem ousou revelá-lo.

Vale o mesmo para a punição coletiva. Quando alguém rompe com a comunidade, critica o líder ou desafina da narrativa dominante, não recebe somente discordância, mas uma operação de expulsão simbólica. O dissidente vira vendido, traidor, infiltrado, “hater” ou inimigo. Por fim, é uma comunidade devocional: quem patroa não questiona. Quem questiona não patroa o bastante.

Assim, o fandom político deixa de ser somente uma forma superabundante de participação e se converte em máquina de intimidação. Ele reduz a esfera pública a uma guerra de reputações, na qual a verdade importa menos que a proteção do ídolo e a ruína do rival.

Talvez seja por isso que expressões uma vez que “paquitas de político” (Madeleine Lacsko) e “aldeões com tochas” (Lygia Maria) tenham encontrado tanta sonância. Elas captam, com ironia, um tanto que a linguagem convencional da ciência política vagar a nomear: a transformação da militância em torcida, da fé em performance e da participação em trabalho afetivo para personagens públicos.

A política entrou de vez na cultura do dedo, ganhando velocidade, intensidade e alcance. Mas também herdou da cultura pop uma de suas formas mais infantis e ferozes de pertencimento: o fã-clube pronto para, cegamente, blindar ou testilhar, sempre em quadrilha.


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Folha

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