‘Razão e Sensibilidade’ adapta Jane Austen com jovialidade – 02/11/2026 – Ilustrada
Ajustar Jane Austen para o cinema é um tirocínio de estabilidade, entre a sátira social e o impulso romântico da juventude. “Razão e Sensibilidade”, da diretora britânica Georgia Oakley, responsável pelo merecidamente elogiado “Blue Jean” (2022), enfrenta esse repto dando um frescor juvenil a uma história conhecida que já ganhou muitas adaptações cinematográficas.
Publicado em 1811, o romance acompanha as irmãs Elinor e Marianne Dashwood, duas jovens que precisam reconstruir a vida depois da morte do pai. Uma vez que a propriedade da família passa para o meio-irmão, John, elas e a mãe são obrigadas a largar a confortável residência em que vivem e se mudar para uma vivenda modesta no interno da Inglaterra.
A perda da segurança financeira não é um pormenor: determina as possibilidades de consórcio, restringe a autonomia feminina e transforma os relacionamentos amorosos em questões de sobrevivência social.
Elinor, interpretada por Daisy Edgar-Jones, procura controlar as próprias emoções, mesmo quando se apaixona por Edward Ferrars (George MacKay). Marianne, vivida por Esmé Creed-Miles, segue o caminho oposto. Romântica e impulsiva, entrega-se aos sentimentos e acredita na sinceridade das próprias impressões, inclusive quando se envolve com o sedutor John Willoughby (Frank Dillane).
A oposição entre as irmãs, entretanto, não se resume a uma disputa entre temperamentos. Austen questiona tanto a repressão emocional exigida das mulheres quanto os perigos de uma espontaneidade que ignora as regras do mundo real.
Oakley encontra uma maneira interessante de transcrever esse conflito em imagens. Filmada em segmento em película de 35 mm, a produção explora os campos, as florestas e a costa britânica com uma retrato de cores terrosas e luz proveniente.
O envolvente não funciona somente uma vez que cenário romântico. A vegetação, o vento, a limo e as roupas desgastadas aproximam as personagens de uma veras física que as adaptações mais elegantes de Austen nem sempre procuram enfatizar. Há uma austeridade deliberada nessa paisagem, uma vez que se a natureza expressasse a turbulência que as convenções sociais obrigam as protagonistas a esconder.
A escolha estética também distingue esta versão de sua antecessora mais célebre. Em 1995, Ang Lee dirigiu uma adaptação com roteiro de Emma Thompson, que interpretou Elinor ao lado de Kate Winslet uma vez que Marianne. O filme, que também reuniu Hugh Grant e Alan Rickman, encontrou uma combinação particularmente feliz de humor, romance e sátira social.
Thompson ganhou o Oscar de roteiro ajustado, e sua versão estabeleceu uma referência difícil de superar. Três décadas depois, Oakley não tenta simplesmente reproduzir aquela fórmula. Enquanto Lee e Thompson exploravam com destreza a ironia dos diálogos e as contradições da sociedade aristocrática, a novidade versão investe mais no silêncio, na vida cotidiana e na frase corporal das personagens.
As duas novas intérpretes das irmãs fazem a diferença. Daisy Edgar-Jones constrói uma Elinor cuja aparente serenidade esconde um esforço permanente de contenção. A atriz transmite sentimentos por meio de olhares, pausas e pequenos gestos, fazendo da repressão emocional uma experiência palpável.
Esmé Creed-Miles oferece uma Marianne inquieta, que oscila entre a euforia amorosa e o desespero. Sua versão é deliberadamente menos polida, adequada a uma personagem que se recusa a admitir a intervalo entre aquilo que sente e aquilo que a sociedade considera propício provar.
As duas atrizes convencem também na construção do vínculo entre as irmãs. Elas lembram o caráter precípuo da obra. Jane Austen escreveu sobre mulheres e para mulheres. Ao impregnar suas histórias com um olhar ácido sobre seu tempo, deu a esse gênero literário uma novidade dimensão.
A comédia, embora menos ostensiva do que na versão de 1995, continua sendo precípuo para a narrativa. A hipocrisia, o interesse financeiro e a preocupação com a posição social são tratados com uma ironia que impede o drama de se transformar em mero sentimentalismo.
As escolhas da diretora oferecem uma leitura sensível e visualmente marcante de uma obra que permanece ensejo a novas interpretações.





