Viver a Despensa do Mundo porquê alguma coisa a mais que um torneio de futebol entre países é uma tradição antiga no Brasil. Entre os churrascos em família para observar aos jogos e as apostas no trabalho sobre o próximo placar, outro hábito vem retomando seu espaço no país: decorar as ruas para o mundial. 
Com bandeirinhas em virente e amarelo, latas de tinta, desenhos de jogadores famosos e de outras celebridades nacionais, os brasileiros têm visto cada vez mais ruas decoradas para o torneio.
A Seleção Brasileira é a maior campeã da competição com cinco títulos, em 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Coreia do Sul e Japão), mas não vence uma Despensa há 24 anos.
O jejum não impediu a empolgação dos brasileiros. No Rio de Janeiro, moradores de diversas partes da cidade utilizaram a arte para expressar seu pedestal ao Brasil em 2026.
Morro do Pinto
No bairro do Santo Cristo, no meio da cidade, os moradores da Rua Capiberibe quiseram resgatar a memorandum afetiva de quem cresceu na comunidade do Morro do Pinto, com foco nas crianças que não viveram esses momentos. A vice-presidente do Núcleo Cultural Capiberibe 27, Isabel Boechat, coordenou as atividades.
“A rua foi entrando no clima aos poucos: moradores ajudando, crianças pintando, famílias acompanhando, gente chegando para ajudar, colaborar de alguma forma”, conta.
“Hoje a minha avaliação da ação é que não foi uma ação feita “para” a comunidade, foi feita com a comunidade. Em qualquer momento, deixou de ser só uma pintura e virou encontro, convívio, pertencimento”.
Isabel conta que a movimentação também atraiu moradores do Morro da Providência, do Santo Cristo e de outras partes da região portuária, que ajudaram no igrejinha.
Todo material foi custeado com pedestal dos moradores, amigos, parceiros e pessoas próximas ao Núcleo Cultural Capiberibe 27, que doou grande segmento do material. Comerciantes da dimensão cuidaram das provisões, e do material necessário, e as crianças ganharam almoço, picolé e lanches durante o processo.
Para Isabel Boechat, mais do que técnica e sublimidade, o principal era deixar que as crianças fossem as protagonistas da sarau, reacender essa memória coletiva e reunir a comunidade em torno da Despensa.
“Elas [as crianças] pintaram, imaginaram, colocaram cor na rua. E isso tem uma força muito grande, porque talvez no porvir elas lembrem: ‘eu pintei a minha rua para a Despensa’. Era isso que a gente queria entregar para elas. E acho que conseguimos”, finalizou.
Morro do Turano
O trabalho realizado por eles também serviu de incentivo para outras partes da cidade. O universitário Silvio Rosa, de 21 anos, conta que a escadaria do Morro do Pinto foi uma das inspirações para a decoração que ele ajudou a fabricar na comunidade em que mora no Rio Longo, na zona setentrião.
Morador do Morro do Turano, ele mesmo nunca havia tido a experiência de pintar a rua para a Despensa do Mundo, mas teve a teoria de organizar um dia de grafite pensando nas crianças da comunidade.
Poucas semanas depois, soube de um concurso organizado pelo projeto Favela Radical, o “Meu Beco na Despensa”, e decidiu unir o “útil ao aprazível” ao inscrever a Parque Manoel Costa.
“A gente não teve muito pedestal das pessoas da Parque e da comunidade. Na verdade, teve muita suspeição, pessoas falando que a gente não ia conseguir”, disse Silvio, que chegou a pedir doação de materiais aos vizinhos mas não obteve retorno.
“Foram mais as crianças mesmo, elas, sim, aderiram a todo momento, sempre perguntando pra gente quando ia ser a pintura e tudo mais, sempre ansiosas. E ajudaram muito, de verdade mesmo”.
A iniciativa foi liderada por ele, a namorada, Taíssa Brito, e a artista Anunki, com participação de crianças do Morro do Turano. Durante o último término de semana de trabalho do grupo, quando terminaram o projeto, diversas partes da comunidade já estavam decoradas.
“Eu vejo porquê muito positivo, principalmente nesse momento que a gente está vivendo no país, que é um ano eleitoral. E resgatar tudo isso, poder fazer segmento disso, resgatar esses símbolos pra nós, pro povo brasílico, de vestimenta é muito interessante. E viver isso junto com as crianças é mais interessante ainda”, completou.
Rio nas Cores do Hexa
Nascente ano, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou um edital para premiar ruas ornamentadas para a Despensa do Mundo. O concurso “Confiar é uma Arte – O Rio nas Cores do Hexa” vai gratificar o primeiro lugar com R$ 50 milénio, o segundo com R$ 30 milénio e o terceiro em R$ 20 milénio.
No bairro de Vila Isabel, na zona setentrião do Rio, a tradicional Rua Pereira Nunes já está pronta para participar. Acontece que decorar as ruas para a Despensa do Mundo é um hábito da Galera da Pereira Nunes há mais de 40 anos. Tudo começou na Despensa de 1978, e segue sem interrupções até hoje.
Um dos principais responsáveis por organizar toda a programação, Celso Mendes, de 48 anos, conta que o planejamento leva tempo e é coisa séria para os moradores. Desde 1994, ele lidera a Galera da Pereira Nunes.
“Nós planejamos a próxima Despensa do Mundo logo que acaba, aí, são quatro anos de planejamento. E a relevância para o nosso bairro é enorme, eles esperam a gente planejar essa ornamentação, ficam nos cobrando. Portanto, é alguma coisa muito importante, não só para o nosso bairro, mas para o país, né?”, disse.
A rua já foi material em jornais internacionais, mas, segundo Celso Mendes, a sarau não fica só na tradicional ornamentação. Eventos com transmissão dos jogos e música ao vivo também estão sendo organizados. A Rua Pereira Nunes já ganhou quatro concursos e pode chegar ao pentacampeonato, assim porquê a Seleção Brasileira.
O edital está disponível no site da Secretaria Municipal de Cultura e as inscrições para o concurso foram prorrogadas até o dia 20 de junho.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.
















