Um passeio afro-ítalo-francês da artista e do cronista – 05/06/2026 – Mario Sergio Conti
No início da noite da última segunda-feira, encontrei-me com Bruna Barros, ilustradora da poste. Fazia tempo que queria saber seu apartamento, numa esquina da rua Helvétia entre a avenida São João e terreiro Princesa Isabel. Cruzei na portaria com um pigmeu que, disse ela, é vencedor de pingue-pongue.
Seu pai veio de Timóteo, no interno de Minas, para ajudá-la na reforma. A aporrinhação durou meses, mas o apartamento está um brinco. Tem um terracinho, estúdio, vegetais e pássaros que ela desenhou nas paredes. Cobicei uma onça artesanal da Ilhota do Ferro.
Fiquei meio surpresa com o invitação do Mario para jantar. Apesar de nos falarmos toda semana, havia mais de um ano que não nos víamos. Porquê a mensagem chegou justamente no meio de uma crise existencial, de rosto sentenciei: vixe, tá me chamando para proferir que não gosta mais dos meus desenhos. C’est la vie…
Passa cá em mansão, você conhece o apê e depois descemos para caminhar —respondi no WhatsApp. Já que vai me eximir, aproveita e me conhece recta, né, concluí com meus botões.
Ele trouxe pó de moca de presente. Aonde quer ir? perguntou. Depois de nove anos trabalhando juntos, está simples que dos restaurantes que ele gosta não passo nem perto. Sugeri aquilo que mais palato: “fare una passeggiata”, passear pela vontade caótica e multicultural do meio de São Paulo. O caminho nos levaria a qualquer lugar para consumir.
Pegamos a Barão de Limeira e passamos pela Folha. Contei uma vez que era a redação no final dos anos 1970. Sentava ao lado de Angeli e Laerte, que tinha um bigodão mexicano e militava no Partido Comunista. Angeli era chegado à flotilha da fumaça.
Bruna chamou atenção para os prédios antigos, hoje escangalhados. Estudou artes plásticas em Veneza, morou em Dorsoduro e na terreiro San Marco, tem olho para arquitetura. Vê a venustidade que as fachadas berrantes ocultam. Burguesote que sou, aventei irmos ao Casserole. Ela abriu seu lindo sorriso de holofote: “Ah, sabia que escolheria restaurante um chique”. Mas estava fechado e ela sugeriu um africano, o Biyou’Z, perto da terreiro Júlio Mesquita.
Porquê já sabia, o pequeno restaurante de imigrantes não deixou a desejar. Pedimos bananas da terreno de ingresso e comi jiló recheado. Tudo uma delícia. Passamos horas papeando enquanto tomávamos cerveja e observávamos o movimento da rua. Apesar de todos os pesares do meio, me encanta ver que muitas crianças ainda brincam na rua.
A garçonete, vinda de Camarões, pouco falava português. Pedi fumbua, uma folha do Congo com pasta de mendubi, óleo de dendê, mandioca e penosa. Pus meia pingo de pimenta, virei lagartixa e subi pelas parede. A cerveja apagou o incêndio. Fomos para a lição ocasião de Charme, teoria da Bruna. Eu vira na internet que a dança veio de bailes cariocas. Frequentados sobretudo por negros, tem coreografias de grupo, sensuais e sincronizadas. É a minha rosto!
Na descida para o Vale do Anhangabaú, vimos jovens caminhando, alegres e estilosos. Nos chateou perceber que a lição de charme já havia terminado. Não foi dessa vez que vi um jornalista branquelo aprendendo passinhos com a juventude negra! Andamos até a Basílio da Gama para eu saber o velho Almanara, que é lindo. O Supla —ou um sósia— estava na única mesa ocupada. Voltamos para mansão e acertamos de ir à noite seguinte ao Theatro Municipal, ver a ópera “Intolleranza 1960”.
Bruna chegou feérico, num look despojado-chique. A ópera começou e vieram os versos: “Fomos trocando mais de países que de sapatos/ Através das lutas de classes, desesperados/ quando só havia injustiça e nenhuma revolta”. “Isso é do Brecht”, disse a ela e logo me arrependi do “mansplaining”. Na saída do espetáculo, só consegui proferir que fiquei angustiado com a moça ruiva que despencava no soalho uma vez que um corpo morto, deve estar toda roxa. Bruna ficou tonta só de ver as pessoas que giravam sem parar, de braços abertos, por uns dez minutos.
O restaurante galicismo que o Mario quis ir não deixou a desejar. Cortinas bordadas, guardanapos de tecido, painéis de madeira e uma clientela diferenciada. Com destaque para Silvia Poppovic, que veio à nossa mesa. Enquanto comia escargot pela primeira vez, lembrei das tardes da puerícia, quando depois de todas as atividades do dia minha mãe se sentava na sala assistia ao programa dela tomando moca e comendo bolo.
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