Crítica | SP
L’Antica Pizzeria da Michele
Três estrelas (Bom)
R. Cônego Eugênio Leite, 359, Pinheiros, região oeste. @pizzeriadamichelebra
Dar de cara com a Julia Roberts na parede do L’Antica Pizzeria da Michele, casa fundada em 1870 em Nápoles que abriu neste ano sua primeira unidade em São Paulo, diminuiu minhas expectativas quanto à experiência que eu teria ali (nada contra Julia, mas a cada um a parede que merece).
As cópias de pinturas renascentistas no teto e as mesas com tampos que imitam mármore não colaboraram para reverter a primeira impressão. Mas a pizza, sim. Na primeira mordida, percebi que as conclusões eram precipitadas.
Pizza de calabresa e marguerita da Da Michele
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Priscila Pastre/Divulgação
A redonda servida ali vem com a volume elástica particularidade do estilo napolitano, molho farto e saboroso. Com algumas peculiaridades: muito fina na base e contida nas bordas. O que me faz pensar que, na verdade, gostei dela ainda antes da primeira mordida. Constatar que a cobertura estava muito distribuída, com espaço para luciluzir sem ser engolida pelas bordas (uma vez que é cada vez mais generalidade nas pizzarias de mesmo estilo em São Paulo), me apeteceu.
Maior que a napolitana que costumamos encontrar na cidade e um pouco menor do que a convencional, as pizzas da moradia não são individuais, mas não servem duas pessoas que comem muito. Diante disso, os valores supra de século reais assustam. Porquê é generalidade nesse tipo de pizza, o cardápio trabalha com um sabor por redonda. Mas, no caso da marguerita, era provável pedir com uma metade de calabresa e queijo. Foi logo que começamos (R$ 125).
Na marguerita, o molho de tomate estava muito presente, gostoso e com boa acidez. Ela vem com muçarela fior di latte, pecorino romano e manjericão. Pena que com um desnecessário óleo de soja. Tem o oração de ele estar na receita para seguir a tradição da matriz. Mas seria mais gostoso e mais elegante se a pizza fosse regada com um belo óleo extravirgem. A outra metade mantinha a marguerita uma vez que base, unicamente adicionando fatias finas da linguiça por cima.
A segunda redonda que provamos foi a salsiccia e friarielli (também R$ 125). Uma ótima linguiça contrastando com o amargura e a acidez da verdura que muita gente conhece por brócolis napolitano. Parecia perfeita, até constatarmos que era uma pizza branca. E zero contra, estava saborosa. Mas para amantes do molho de tomate uma vez que eu, pode ser uma desilusão. Principalmente porque essa informação não é claramente sinalizada no menu, nem foi pontuada pelo garçom. A única pista era a escassez do molho de tomate na descrição.
Quando pedimos a sobremesa, o salão já estava lotado. E o número de atendentes parecia ter se multiplicado. Contei. Eram 11. Todos homens. E todos um tanto perdidos, mas se esforçando em colocar alguma ordem à correria.
Nosso rebuçado chegou, mas não ficou. Quando o garçom viu que eu ia tirar foto, levou de volta à cozinha. Quando retornou à mesa, o millefoglie de morango com mascarpone (R$ 42) estava um pouco mais desempenado. O rebuçado até era uma volume folhada. Mas com as camadas grudadas, compactas e sem a crocância esperada. A fruta vermelha aparecia numa calda que decorava o prato. O mascarpone tinha um sabor marcado de manteiga. Enjoativo, sobrou.
Em “Manducar, Rezar, Amar”, Julia Roberts faz o papel de Elizabeth Gilbert, autora do livro que deu origem ao filme. Na cena rodada na L’Antica Pizzeria da Michele original, em Nápoles, a personagem come uma fatia com as mãos e diz estar apaixonada pela pizza. Assistindo novamente oriente trecho, dá para notar a volume muito fininha, particularidade do lugar.
Parabéns a Julia por consumir com as mãos (uma vez que é provável ver na foto na parede). E acertaria ainda mais se dobrasse o pedaço no sentido do comprimento (borda com borda) antes de levá-lo à boca. É logo que esse tipo de pizza é comida nas ruas de Nápoles. O hábito, no entanto, não pegou na unidade paulistana, e os clientes usavam garfo e faca mesmo.
No término, vale ir pela pizza, realmente boa. E se você estiver disposto a consumir num lugar barulhento —o que sempre dá para colocar no pacote de uma experiência italiana. Quanto ao estilo kitsch, depois de um tempo ele até ganha perdão em meio ao caos.





