A gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), contratou nos últimos dois anos e meio uma entidade esportiva ligada a um servidor público da própria secretaria municipal de Esportes. Bruno Bockis Giaretta, 39, é um dos responsáveis por gerir e revistar a extensão de parcerias da pasta com organizações sociais.
Giaretta mandou uma epístola de repúdio um mês depois de nomeado, em 2023, mas documentos de 2024 e deste ano ainda o relacionam uma vez que diretor financeiro da Associação Esportiva e Cultural, conhecida pela {sigla} CNB. O site da entidade tinha essa informação até 25 de agosto. A associação e o servidor negam ainda terem alguma relação.
A chamada Lei das OSCs (organizações sociais), de 2015, proíbe parcerias com entidades que tenham em seus quadros pessoas com incumbência no poder público na mesma esfera governamental onde o convênio foi firmado. A vedação se estende a cônjuges, companheiros e parentes até segundo intensidade.
Levantamento da Folha em documentos da prefeitura aponta que, desde dezembro de 2023, a gestão municipal destinou pelo menos R$ 24,2 milhões para a CNB para a realização de eventos e competições esportivas, uma vez que a Viradela Esportiva e a Taça da Cidade de São Paulo.
Em nota, a gestão Nunes afirmou que “não há qualquer elemento que permita à reportagem associar a contratação da CNB à nomeação do servidor mencionado”.
Já Giaretta negou que ainda faça secção da organização social sem fins lucrativos. “Eu fiz secção da CNB, mas ao ser chamado no concurso público que eu havia prestado anos antes, renunciei.”
Na secretaria Giaretta ocupa o incumbência de “assistente administrativo de gestão nível 1” (velho “gestor de políticas públicas”), do qual salário bruto é de R$ 6.508.
Servidor concursado, Giaretta foi nomeado em 25 de setembro de 2023, segundo o Quotidiano Solene do município. Uma de suas tarefas é revistar os convênios com organizações sociais para a realização de eventos esportivos.
Documentos obtidos pela Folha apontam que, até a ingressão dele na secretaria, a CNB havia firmado parcerias para realização de quatro atividades, somando R$ 6,2 milhões em repasses.
Semanas depois sua nomeação, as parcerias começaram a se tornar mais frequentes. Entre dezembro de 2023 e agosto deste ano, a gestão Nunes firmou 16 convênios com a CNB. E os valores também cresceram.
No período, a CNB recebeu R$ 24,2 milhões dos cofres municipais para produzir eventos uma vez que os Jogos da Cidade (R$ 3,8 milhões, em 2024) e a Taça Cidade de São Paulo (R$ 3,7 milhões, em março de 2026).
Em julho, a entidade também foi uma das vencedoras de um edital de R$ 1,6 milhão para viabilizar uma “redondel de esportes” na Viradela Esportiva, prevista para os dias 19 e 20 de setembro.
Em nota à Folha, a gestão Nunes afirmou que o aumento dos repasses à CNB não está relacionado à ingressão de Bruno Giaretta na secretaria de Esportes.
“O aumento a que a reportagem se refere não guarda nenhuma relação com uma suposta ingerência do servidor. Eles são resultados de um aumento significativo do orçamento da secretaria a partir de 2023, que levou a maiores investimentos em diversas ações da pasta”, diz.
Em 2023, o orçamento da pasta foi de R$ 344 milhões. Já em 2026, ele chegou a R$ 569 milhões, uma subida de 65,4% no período.
“Outrossim, a reportagem desconsidera que os eventos organizados pela CNB passaram por possante expansão a cada ano, justificando o aporte de recursos. Os Jogos da Cidade, por exemplo, registraram em 2023 aproximadamente 10 milénio participantes e, em 2026, estão previstos mais de 50 milénio”, afirmou.
Criada em 2015, a CNB é atualmente presidida por Edson Francisco Lapolla, 77, ex-dirigente e mentor vitalício do São Paulo Futebol Clube. Lapolla é uma das principais vozes da oposição ao ex-presidente do clube Julio Casares, que renunciou depois denúncias de desvios de verba.
Em entrevista por telefone, Lapolla negou que Bruno Giaretta ainda faça secção da CNB. “Ele passou em um concurso público. Quando foi nomeado, obviamente havia um conflito de interesses. Portanto nós mudamos a diretoria da CNB. Tem uma epístola de repúdio registrada em cartório”, disse.
Em 11 de novembro de 2023, um mês e meio depois ser nomeado, Giaretta enviou uma epístola à prefeitura apresentando sua repúdio ao seu incumbência de diretor na CNB.
Porém, nos anos seguintes, Bruno Giaretta continuou aparecendo em documentos públicos uma vez que diretor financeiro da CNB ao mesmo tempo em que exercia sua função na prefeitura. Alguns desses documentos foram enviados pela CNB para a própria secretaria de Esportes.
Em dezembro de 2024, por exemplo, mais de um ano depois sua alegada repúdio, a CNB enviou um documento em que Giaretta continuou listado uma vez que diretor financeiro. Até um currículo dele foi anexado.
Entre 2023 e fevereiro deste ano, a CNB também recebeu R$ 6,2 milhões em recursos de emendas parlamentares do deputado federalista Solicitador Da Cunha (União Brasil). O objetivo era a realização de torneios de basquete e judô, além de eventos “lúdicos para crianças.”
Os documentos sobre essas emendas, disponíveis no Portal da Transparência do governo federalista, também apontam Bruno Giaretta uma vez que atual diretor financeiro da CNB.
Em nota, a assessoria de prensa de Da Cunha disse que ele desconhece a informação de que Giaretta é servidor da prefeitura. Também afirmou que o parlamentar destinou emendas para dez secretarias municipais e duas para entidades do setor, entre elas a CNB.
Até o último dia 25 de agosto, o próprio site da CNB mostrava o servidor uma vez que diretor financeiro. Minutos depois Lapolla conversar com a reportagem, o nome de Giaretta foi retirado do site.
Edson Lapolla afirmou que os dados estão desatualizados. “O que vale é a epístola de repúdio. Eu não sabia disso que você está falando [presença de Giaretta em documentos públicos]. Com certeza tem qualquer erro aí. Ele não faz mais secção da CNB há mais de dois anos. Vou ver isso aí”, disse.
Em nota à Folha, o servidor disse não saber o motivo de seu nome ainda chegar nos documentos quase três anos depois sua epístola de repúdio. “Não tenho uma vez que te proferir se a entidade atualizou essa informação no site ou em outros meios, mas tenho certeza que foi feita e registrada a respectiva ata”, disse.
Ele também afirmou não ter qualquer interferência nos editais da prefeitura. “Meu incumbência não tem qualquer ingerência ou poder de decisão, somente cumpro atividades administrativas designadas, e algumas vezes secção dessas atividades é revistar, mas nunca fiscalizei nenhum projeto da CNB, e não vejo conflito de interesse”, disse.
A gestão Nunes foi na mesma risca. “Giaretta tem atribuições administrativas e nunca atuou em projetos relacionados à CNB.”
Formado em tecnologia de gestão financeira, o nome de Bruno Giaretta começa a chegar em documentos da CNB em 2019, sempre uma vez que diretor financeiro.
Ele também já havia sido servidor público antes do atual incumbência na secretaria de Esportes. Entre 2012 e 2015, atuou uma vez que assessor parlamentar na Câmara Municipal. Depois, trabalhou por dois anos uma vez que fiscal e gestor de contratos na subprefeitura do Butantã.
Atualmente, a secretaria de Esportes é chefiada por Érika Coimbra, ex-jogadora de vôlei e medalhista olímpica em 2000. Ela assumiu a pasta em abril deste ano no lugar de Rogério Lins (Podemos), ex-prefeito de Osasco.
Lins entrou no incumbência em janeiro de 2025, mas saiu neste ano para concorrer a deputado federalista. Antes dele, a pasta municipal de Esportes foi chefiada pelo policial social e deputado federalista Felipe Becari (Podemos), atualmente candidato à reeleição.





